quarta-feira, dezembro 19, 2007

Preguiça...

É amanhã que chego da preguiça. É amanhã que cantarei às folhas que podem voltar a crescer. Os pés descalços vão deixar de beijar o soalho e as botas não escaparão à chuva. O Inverno sairá da toca – abrirá os olhos e verá luz cinza. Não julgo reconhecer um novo alvorecer, não absorvo as manhãs inchadas de sono. Despertarei convencida de que ainda é Dezembro. Os troncos das árvores, esses, vergarão mais do que o meu corpo ao vento. Vou voltar a ligar a cabeça à terra e fazer de mim uma seara à espera de água. A lareira terá de ficar para os momentos ocos. Hoje, continuo tosca e pergunto às nuvens se também faz frio no céu.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Horas...

Dizem que a melancolia das horas não são mais do que frascos vazios.
Sobre elas, digo que se debruçam pickles azedos que fazem azia às barrigas.
Sei bem que o que arde não cura, mas invejo a paciência das feridas abertas ao ar.
Tenho, contudo, menos tolerância para os relógios de parede.
No peito apetece pontas de narizes geladas.

quarta-feira, novembro 21, 2007

A chuva que ri...

Andando em caminhos tortos – porque isto não é tudo a direito, como dizem – salpico-me da chuva que cai cega. Regozija-se. Tanto lhe faz molhar a calçada dos peões, os guarda-chuvas, a roupa do varal ou a mim. Imagino que no céu se ri, quando salto de poça em poça. Debuxo que abre gargalhadas fartas, desocupadas do sol. Cá em baixo, vejo-a sentada de perna trocada numa nuvem azul e chora de tanto rir. Olho lá para cima e returco tamanha felicidade. Acho que percebeu que anunciou a primeira cura das searas. Pouco, ou nada, chove. Tiro o capuz da cabeça – movimentos prematuros de quem ainda joga anzóis ao estio – e fico desprotegida, como se tivesse despida, às vontades da estratosfera. Volta a chover. Penso, agora, que esteja deitada numa nuvem a rebolar-se de tanto rir. Encharcada e árida espero a tempestade. Temo os relâmpagos e as trovoadas. Suspeito que assustem os peixes nos lagos e os pássaros tiritem as penas nos ninhos. A mim não me metem pânico, cruzes canhoto. Raios partam os raios.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Recuso-me...

Quero autóctones, aborígenes, nativos, indígenas, vagabundos, aventureiros, simples, vesgos, marrecos, franzinos, gordos, fracos, oprimidos, rebeldes, cobardes, espanhóis, italianos, empreendedores, preguiçosos, audazes, inconformados, crentes, ateus. Desejo gente, mesmo que não tenha piada e que não seja interessante. Não precisam de me ensinar nada, de me perguntar nada. Aceito gente verdadeira de carne, mesmo que não tenha ossos. Não me torrem – abençoando o abraço do sol – é a paciência com falsos moralismos. Não tenho tempo, disposição, vontade, espírito e sorrisos para aspirantes ao poder. Fixem uma coisa: sou estúpida e não sei conversar. Mantenham-se calados e não perturbem a minha passagem do silêncio. Passem de mansinho com um saco na cabeça, com um lençol a cobrir-vos o corpo e não me façam deixar de acreditar. Escondam-se de mim. Tenho medo das pragas que me tentam quebrar os sonhos. Fui dar uma volta, respirando o ar dos puros e das ruas.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Oh tempo volta para trás

Depois de crescer lembro-me de quando era minguante. Comia gelados de gelo, provavelmente provenientes de sumos Tang, usava soquetes e pegava os pirolitos ao céu-da-boca. Não tardaria a perceber que a nespereira poderia ser um baloiço, embora imaginado com muita persistência. Na verdade, uma tábua fazia-me chegar mais perto dos frutos amarelos, que me enchiam a boca de formas e sabor. Resolveram mudar o gás para o quintal. A casinha que guardava as bilhas transformou-se num navio. A proa, essa, era comandada a partir do varão que acolhia a roupa. Como horizonte as mangas dos meus pijamas de ursos, as meias opacas da minha avó, os calções do meu irmão, as camisolas quentes da minha mãe e as camisas finas do meu pai. Um arsenal de tachos espalhados pelo chão. Lá dentro, erva, água e terra. Foi por muito pouco que a minha mixórdia não rivalizou com a sopa da minha avó. No quarto (que apelidaram de brinquedos) uma bateria, legos, barriguitas, um detector de metais, uma concertina, uma pista de carros, outra de comboios, a boneca que torcia a cabeça, a que chorava, o careca vestido de azul, a barbie de cabelos louros, o Ken moreno, a boneca do chapéu, uma máquina de costura, a de fazer sumos, mais tachos, mais coisas, e, por fim, o macaco que punha o dedo na boca. Mas lá fora espreitavam as cabanas nas árvores, o cheiro inesgotável da terra e os papagaios soltos ao vento. Depois, chegaram as noites de escondidas, o bater à porta e fugir, o enganar o homem da taberna, a noite dos castigos, os telefonemas a fingir que era da rádio, o sufoco da noite das camisolas trocadas….e tanto. À noite, continuo a ouvir a minha mãe a chamar-me: Bruna já chega. Amanhã há mais. E eu, hoje, sentada a pedir-lhe: Podes fazer com que me chames esta noite e repitas o mesmo? Prometo não me atrasar e não resmungar para ir tomar banho, mesmo que o cabelo suado me denuncie aos teus olhos.

segunda-feira, novembro 05, 2007

O bando dos 7...

Viemos das folhas do Outono. É assim que me sinto. Trouxemos duas penduradas no carro e infinitas a caírem no tecto da alma. Mandámos rolar 800 quilómetros de amizade. A estrada abriu-se e pintámos cada passo em sete, para nos sentirmos em mil. O sol morno manda que vejamos cidades e que paremos em aldeias. O seu desejo é uma ordem, quiçá tão fácil de cumprir que até faz cócegas.

quarta-feira, outubro 31, 2007

A cigarra que canta à semente...

A semente cresceu ao lado de uma cigarra. Engrandeceu verde e caiu amarela. Entrou pele adentro da lama. Respirou com o mesmo ar dos pulmões e cuspiu a única sede que a terra lhe pediu, água. Redondas continuaram as cabeças dos homens dos bancos, a fazerem contas de subtrair às almas. A cigarra cantou. A semente brotou. O homem entediou-se, mas continuou vestido de fato. A cigarra voltou a cantar, ao lado da semente que cresceu. Só ambas sabem da perícia da arte de ser. Na paisagem fulgura um abraço em jeito de carícia à vida.

terça-feira, outubro 23, 2007

Parvos como eu...

Ainda que as margens não tenham linhas.
Que as asas se atirem às penas.
E que as rectas percam os pontos.
Gosto é de parvos como eu.
Por dentro.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Outono

O Outono caiu. Não que tenham chegado as folhas partidas. Os homens pisam-nas, mas elas voltam a brotar de verde. Pareceu-me que o Verão foi até à 5 minutos. Quase que diria que, ontem, o sol escaldava quente nos dedos. Depois, arrefeceu a vontade de saber. Procurar ficou como um sítio vago, sem fundamento. A busca permanece nos feixes de lâmpadas do corpo. Tudo a cor de amarelo-torrado. Expectantes ficaram as letras. As leituras já nem utilizam os olhos. Estão descrentes no palavreado fácil. Topam a léguas a falta de senso. “É a vida”, dizem os seres. Preguiça de querer saber, se é que quero, porque raios mudam as estações da alma em horas? Eu sei, são as pessoas que influenciam as cores e, ainda mais, o calor do peito.

terça-feira, outubro 09, 2007

A ver camélias...

A cabeça deitada sobre a mesa. É assim que deve ficar. Abismos de prudências. Digo isto, salvaguardando-lhe a forma, o medo, as ganas, o imaginário. Descanso o desassossego de lhe dar utilidade. Pausa de pensamentos. Lá fora, continuam a crescer as camélias ou as rosas-do-japão. Chamem-lhe o que quiserem, mas não lhe desafiem é o cheiro. Com a cabeça na mesa, são do comprimento da minha altura que cresceu sem aviso prévio. Um dia estiquei-me e fiz-me gente. Um bom girassol dá-me, mais ou menos, pela barriga. Não se trata de sonolência. Não é preguiça. É, somente, o tempo todo adiado a ver camélias puras.

quinta-feira, outubro 04, 2007

A(braços)...

Diz-se coisas ao ouvido. Tantas, várias, muitas. Como silêncios que não falam. Tantos, vários, muitos. Devem ser como as laranjas nos pomares. Muitas, tantas, várias. E como as cordas do pescoço, que pautam notas. Uma, duas, três. As frases adiadas nas vozes loucas. Várias, tantas, muitas. De tanta gente alienada. Muitos, tantos, vários. Claro, parecem-me infindos. Tantos, muitos, vários. Cálida a expulsão do eco: Queres, que…re...s? O quê? Abraços, abr…aç…os. Tantos, muitos, vários. Um, dois, três…infinitos!

terça-feira, setembro 25, 2007

Essa coisa do fazes-me falta...

Dir-se-ia, facilmente à boca cheia, que os tempos não contam. Que as horas juram que são fictícias verdades. Que a distância se encurta. Que a saudade contamina, até quando se adormece. Que estamos sempre à distância de um abraço. Questões do corpo relevantes à intensidade. Falo, sinto-vos consequentemente. Pego nas fotografias. Viro-as ao contrário. Deixo-nos de pernas para o ar. Sorrio. É a amizade, diz a voz do sopro ao ouvido. Descalça, desço a rua de calçada. Dobro para o céu e lá estão de cabeça para baixo. E descortino nas formas brancas das nuvens: Estamos a caminho. Os pés seguem balanço. Que se jogue ao chão a ausência com pó. É válido. Cheira a malmequeres com pétalas a voar. No fim, a última folha cessa: Bem-vos-quero.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Discurso do fundo...

Eis que me dá vontade de dizer o que não sei. Solto a língua. No encaixe da boca ficam as palavras, que minguam com a crença de nada saber. Volto a transpor a vontade de ser mais do que papel fosco. E apercebo-me o quão tosca é a mentira dos que sabem falar. Tenho dito: Ninguém discursa com a voz do fundo quando se aclama o que se sente. Perde-se metade na distância do coração à boca. Presunção de dizer o que se gosta. Sim, sente-se. Mas sem polegadas. Apetece-me dar-te bolas de água cheias de mim, para que as engulas e sintas o sabor do que me fazes paladar. Queixo-me mais ao eu do que a ti. Sem delongas, acredito piamente nos arrepios do corpo e curo a intenção de gastar canetas que os escrevam para fora. Calo-me. Nada digo que jeito tenha.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Seja lá isto o que for...

Jogaram o firmamento por ali, abaixo.
Como as molas que voam das cordas da roupa.
Os pés rolaram para o fundo sem balanço de chão.
Jogaram o nimbo por ali, acima.
Como as formigas se jogam para cima dos miolos.
As mãos afundaram-se nas almofadas de esponjas às cores.
Jogaram a limpidez para o lado.
Por molhar ficaram as línguas secas.
Os dentes cerraram como uma arca velha.
Jogaram a sorte e espalharam-na nos espaços dúbios.
Chegou-te alguma ao coração?

quarta-feira, setembro 05, 2007

Ando a querer...

Na barriga das nuvens vou plantar girassóis a dobrar.
Quando não houver sol, afasto o vento e meto-os de pá para o ar.
Depois, darei a volta ao mundo, com a boca inundada de melancia.
Na volta, trago as bochechas carregadas de cheiros de gente.
Tudo à maneira da vontade e do sorriso.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Poção dos aflitos

A mulher pediu-me cremes. Loção que faz passar as dores. Boiões brancos sem marcas. Mesinhas caseiras. Era isto que a mulher queria. Tinha os joanetes em brasa. Os sapatos pulavam na carne como as formigas fogem da água. À esquina havia a loja. Dentro da loja, havia o homem que fazia os cremes. Ao balcão estava a mulher do homem que vendia a cura. Lá dentro, as estantes de madeira com bicho estavam carregadas de coisas. Basicamente, pastas dentífricas, pentes de dentes largos, cafeteiras, champôs, ganchos para o cabelo, panelas, toalhas, fogareiros e vassouras. Tudo e cremes milagrosos, sem estarem à vista. Negócio clandestino de quem ainda não patenteou a obra.
Vendem-se cremes para as dores?
Claro, menina!
O saco transparente para pôr fruta alojou a poção. Não havia uma indicação, muito menos contra-indicações. Deduzi que fosse para todos os males do corpo e com sorte daria para espalhar sobre os da alma. A mulher pedia-me cremes. Levei-lhe um creme em estado puro. A curiosidade roía-me mais do que um rato a morder queijo.
Isto é feito à base de ervas medicinais?
Não se preocupe. Isto é uma maravilha.
Torci-me e tentei puxar da lábia, mas estava sem língua.
É tudo caseiro. Nada de químicos.
E isto faz bem ao quê?
Ora dá para as dores de pernas, dos braços, dos pés, da cabeça e da barriga. Dá também para o inchaço, para a comichão e para o formigueiro. É bom para a pele, para os ossos…Tinha o remédio dos aflitos em mãos.
A mulher pediu-me cremes. E lembrou-me à saída: “A vizinha Antónia tinha as pernas em chagas”. Os joanetes eram maiores do que os ossos. A mulher tinha fé em recuperar os pés de adolescente. Olhei-os todos recurvos. Eram feios. Percebi que a mulher trocaria a banha de porco por a banha de cobra. A mulher pediu-me cremes de benzeduras. Levei-lhe cremes com cheiro a charlatães. Na cabeça uma frase: Fazem bem a tudo. Basta acreditar e curam.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Friends...

Falta o grito. Faz falta o espalhar do vento. Chega de formigas em carreiro. Chega de quereres saltar com borboletas vesgas. Espera os dois pés no corredor. Solta o sapato e anda descalço ao sol. Amarra o Nietzsche no fundo do mar. Deixa a racionalidade imperante. Desmonta o sorriso. Cola a boca ao tecto. Já estás no céu-da-boca? Sentes o rio que corre lá dentro? Solta a água e ancora-te. Une-te a gente. Osso, carne e pele…autorizas? Deixa as artérias cravadas em estrelas e joga-te. Garanto-te: Cá em baixo está uma folha verde como trampolim à tua espera, com dois braços próximos do que advém do fundo. Vejo-te com os olhos do exagero do céu, como os passos palmilham a terra.

P.S – Não seremos eternamente felizes, mas seremos, inadvertidamente, amigos sempre…E cada hora mais dentro.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Coisas boas...

Guardo o sabor do limão na boca.
Na verdade, tenho todos os cubos de gelo do Verão num baú do peito.
Fico no espaço do vento. A brisa ficou do lado de fora da parede.
Teço-me na boca das horas de um balão que voa crente.
Quando cai a noite, estico o pé em busca de uma ponta de lençol fresco.
O joelho roda e derreto-me.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Infusão do Azul...

Se achasse que era improvável ficaria presa à manga do tempo. Sacudiria o algodão dos dias e dizia que chegava, somente, os pingos da chuva. Um depósito resguardado da enchente de maré. Mas o meu parapeito entorna. Não guardo paulatinamente as coisas. Não encontro pertença, mas vergo os olhos, esses, que dobram como os braços que abraçam. E em cada arco, uno uma ponta à outra. Fazemos um círculo. Andamos de um lado para o outro, sem linhas com cantos pontiagudos a confundirem a forma. Insolentemente, boiamos à superfície de barrigas para o ar e vidas abertas. Carregados de tardes, de noites e de estrelas ficamos a dois palmos do corpo e cheira à infusão do azul.

terça-feira, julho 31, 2007

Goldfish...

O meu peixe tem rodas.
Anda sobre um carrinho de linhas.
Não mergulha, mas desliza.
O meu peixe tem mais cores do que muita gente.
A gente gosta do peixe e ele acha-se com piada.
O meu peixe é um dos felizes do mundo.
Não está num aquário.
É feito de retalhos.
O meu peixe não foi tirado do mar, mas cheira a sal.
O meu peixe não se come. Vive.
Não foi pescado.
Porque o meu peixe é de amor cristal e o transparente só se contempla na água.

quarta-feira, julho 25, 2007

Informações...

Ando, mais ou menos, numa bola de sabão. Sem nuvens de vento. O sol agita-me a melanina. Os olhos estão tresloucados e as pestanas lisas. Se me quiserem coisas estou a esfarrapar a vida em qualquer esquina.

segunda-feira, julho 16, 2007

A ti...

Nunca pensei muito que me carregaste.
Há dias que me apetece cair.
Lembro-me: porque andaste comigo de um lado para o outro?
Tantos sonhos em mim.
e o meu maior feito é ter nascido.
Foi, somente, o de ter vindo cá.
Demais, ando inquestionavelmente por aqui.
Retorna-me a ti.
Há coisas que deveriam ficar sempre num lugar.
Na tua barriga quente.
Grávida de mim.

sexta-feira, julho 13, 2007

Musa Crew...

A tarde estava assim para o quente. Eram 15:30 no Alentejo de Verão. A vontade de ir era muita. Pelo menos, a suficiente para por a carrinha, a menina, a wadadinha, a carrinha da tribo do sol…Enfim como lhe queiram chamar, a rolar na estrada com temperaturas elevadas. Roda atrás de roda e o alcatrão a ficar para trás. Três tripulantes e dois penduras no carro de trás. Perdão. Três penduras, que o Alex também conta. No princípio éramos seis a caminho do Musa Crew.
Tentámos, embora que em vão, colocar a menina dentro do recinto. Tínhamos bilhetes. Não tínhamos era credenciais. Meia volta e praceta do Girassol no horizonte. Telefonemas da malta – que por azar vive na terra onde a câmara é comandada pelo Isaltino Morais – a dizerem: Já os vimos! Gente que se trata bem a comer, a beber e nós na busca de comida. Meninos, de não se ficarem por bifanas e hambúrgueres, instalados de fronte para o mar.
Mais um passo, outro e estávamos dentro do festival a ver as ceninhas. Espanto. A cerveja era Tagus e não havia volta a dar. Música nos ouvidos, vento no cabelo, risos e nós a encontrarmos o resto da tribo. Já éramos muitos mais do que seis.
Há gente especial neste Mundo? Há. São uns quantos. Preocupas-te? Sim, sei bem a água que gastaste no Verão passado. Podia ser o mote de um anúncio, mas não é. Aliás, até porque já vão começar as Chiquititas na televisão e isso é q.b. Qualquer coisa que venha a seguir a isso não é mais do que nada. Portanto, é apenas a união de gente e de mentes que flutuam juntas.
Mais música, alegria e amizade vasta até ao rebentar da noite. Mas qual noite? Havia cama? Havia para onde ir? Mas, só porque a canalha até é ecológica, pensou: Onde vamos nós dormir? Isso logo se vê. Pode ser em qualquer coisa que lembre ar livre e campo. Olha, podia ser assim num sítio com o nome de uma flor! Praceta do Girassol? Sim, somos rurais e depois!
A rapariga revoltada com o Isaltino em altas (passo Casanova). Sim, porque inventou um novo passo de dança (coisa digna de qualquer pessoa apreciar) confiante na nossa dormida, proferiu o que qualquer um precisava de ouvir (só assim para nos confortar). – E tão fixe. Vão dormir aqui? É que se deve dormir mesmo bem! E são quantos? Oito? (Só para que conste o colchão era de dois). Somos amigos é verdade, mas precisamos de espaço!
Mais risadas. A noite prometia. O passageiro do carro do lado mais o Alex em tronco nu, mas o espaço era apertado. A buzina atrapalhava. Os outros dois passageiros mais confortáveis e nós três – os melhores instalados graças à menina, à wadadinha e por aí. Contudo, não nos invejem meus amigos a noite foi longa tivemos uma polifonia connosco.
Novo dia, novas paragens. Praia de manhã. Gente toda amontoada. E nós vamos mas é para Sintra. Tempestade de areia, sempre a trepar, paisagem nos olhos, sorrisos na boca e gente desesperada por um frango. Noite dentro, o boom deu-se. Primeiro, houve um menino que se emancipou e colocou um brinco (já és um fixe a 100 por cento) e depois os Skaparapid levantaram muito pó. Bem mais do que o vento. Gente louca não se deveria de juntar nunca. Muita festinha. Os asseadinhos juntaram-se a nós e renderam-se à nossa praça. Manhã, pequeno-almoço no café que nos deu um jeito sem medidas. Era domingo e o fim-de-semana só termina na segunda. Então, vamos comer umas sardinhas, beber uma sangria branca (cara), mas fresca e boa em Sesimbra. A viagem não terminou fomos ver as coisas desse senhor que se intitula por Berardo. Ele há deleites na existência que não se medem.

terça-feira, julho 03, 2007

Multiplicação das coisas

Deixo hoje, só por ser hoje, o caminho engordar. Não quero ser omnipresente. Não vislumbro a eternidade a um passo de casa. Na folha verde da minha rua, numa tília, deixo cair o embalar da noite. O dia já se embala a si. O poste de electricidade tem mais altura do que eu e não é por isso que o sinto grande. Acho que é torto e desajeitado no firmamento. A minha vizinha tem um cão igual ao nosso. Mas o meu ladra mais e ela é que é uma menina. Late quase tanto como algumas pessoas. Farei ainda hoje, só por ser hoje, a multiplicação das coisas…Para que deixe umas quantas na minha rua e traga tantas outras no meu bolso.

quinta-feira, junho 28, 2007

Trocadilhos

Faz de conta que estive, mesmo quase, a terminar o conto. A acabar a reportagem. A preparar o trabalho que se segue. Faz de conta que não fui beber aquela água de chã, em que estou viciada. Que não me ri. Que a noite não acabou mais tarde do que devia e que não me deitei com a lua no alto. Faz de conta que o dia vai ser curto e que não há trabalho. Faz de conta e conta o que me faz, tudo num trago.

segunda-feira, junho 25, 2007

Apetece-me e pronto

Apetece-me andar com os chinelos na cabeça, só porque a lei da gravitação da minha mente atrai o chão.

segunda-feira, junho 18, 2007

Entretanto...

Sacudido que vem o dia não tropeço rua abaixo, rua acima.
Na horizontal estou, mais ou menos, entre as formas de resignação empoleirada no tronco da árvore do corredor esquerdo, onde vira cada esquina da casca. No mesmo barulho do vento sacudo a poeira e volto à minha beira.

sexta-feira, junho 15, 2007

Histórias nossas

Cinco pessoas, um punto e um candeeiro. Poderia ser a história de qualquer livro infantil, mas é história de gente grande, ou que já pensa que o é. As rugas, essas, só valem quando chegam ao cérebro. Então nós mais a sul, o carro apinhado, as conversas que o temos de trocar mais do que gastas. Porque raio não se compra um carro novo? Porque a essência é mesmo essa, bens materiais não fazem falta a ninguém e por aí. E o carro a ouvir discussão de gente feliz. Mais um passo, outro, o carro apinhado. Vilamoura no horizonte, risadas e reviradas de olhos. Auto-estrada cheia, em caminho de Agosto. Carrinhos passam completos de gente que vai descansar por quinze dias, as férias do ano. Essas em que se acabam com os trocos e em que se comem gelados à noite na marginal. Os filhos querem tudo. Os pais dizem que já chega e que já se foi o subsídio de férias. O marido anda feliz com a mulher. A mulher anda feliz com o marido. Os meninos apanham praia e às vezes comem uma bola de Berlim na areia. O descanso é pleno. À noite compram um frango assado e comem na varanda da casa alugada. Isto é que é qualidade de vida diz, normalmente, o pai. Olham em frente, os vizinhos também estão a comer. Os homens estão em tronco nu e as mulheres cheiram a champô e a creme para depois do sol. A mulher acha que o frango é pouco, traz uma sopa para aconchegar mais o estômago. A janela é de correr. Está uma noite quente, longe ficaram as horas no escritório de contabilidade. Distraída na sua satisfação plena, os vidros limpos de mais e a falta de vista ajudam a errar na saída. Não sai na portada aberta. Embate no vidro. As crianças riem, os adolescentes “pelam-se” a rir. A mulher ri. Estamos de férias. O pai avisa: não partam nada que a casa só tem coisas do melhor. O apartamento com piscina, mesmo na rua da praia, pertence a uns emigrantes que foram para a França, mas que não trocam Portugal por nada deste mundo.
O punto na estrada. A auto-estrada cheia de nervosos a quererem chegar e eis que passa um senhor conhecido da opinião pública, de óculos azuis. Basicamente, um senhor que goza com os outros. O punto cheio. O senhor num carro em que se pode optar por tirar a capota e o condutor do punto a vê-lo no retrovisor. Tenta ultrapassar e não consegue, porque o punto é potente. O condutor do punto faz-se de rogado, aperta com a máquina. Não dá mais. Não ficando satisfeito diz: Passa por cima. E nós a pensarmos: pronto amanhã somos piada nacional naquele programa em que as pessoas se levantam para rir.
Um cheiro esquisito. Ninguém o sente. Errado, ao condutor cheira a combustível derramado. Os pneus nos eixos, os risos rasgam-se mais na boca, a relva da câmara municipal estragada, o nosso charme sacudido à rua e o acontecimento virou história. Sai do carro, cheira-o como se tratasse de uma bomba. Nada, o punto continua vivo para mal dos seus pecados. Ninguém o quer trocar. As férias continuam ao seu volante.

P.S – Rita, não troques o punto ele é nosso amigo.

quarta-feira, junho 13, 2007

Havana abrasa o fresco

A pedido de várias famílias e dos abastados do sol...cá vai.
Dactilografar uma cidade é coisa pouca. É ser abreviado em forma e odores. Havana fica entre a terra e o mar, onde o horizonte é azul, mas menos claro que o céu. Fica a bailar numa estrada grande, com pessoas deslizando à beira sal. O sol aquece o peito, os ombros e fervilha num individualismo mais que primário. Diria que o homem amorna ao seu calor. Nesse dia, não vi chegar o tempo. Não olhei as mãos caucasianas, pálidas. Membros escuros do clima deambulam numa cidade de antes e não sei de que data. Arriscaria a dizer que, aqui, a locomoção mexe mais do que em qualquer outra parte do mundo. De pé em pé o alcatrão fica para trás. Longe ficam os motores potentes e paira um cheiro de combustível ainda a arder. Sabem quando abrasa o fresco? É assim que me cheira Havana. Num soalheiro sem frio. As casas são de pedra crua, nuas e quase sem cal. A luz é reduzida a meia voltagem. O dia começa mais cedo do que em qualquer outro local do mundo, em que eu já tenha adormecido. É a sensação de acordar muito cedo, porque me deitei não que muito tarde, mas a meio da noite. A oralidade cresce em cada esquina, a conversa floresce do nada como se não fossem os viajantes os que conhecem país distante. Somos a peça que chega com novidades do mundo de cá e com cara de bom poder de compra. Nas curvas, nas rectas e nas entrelinhas ficam os cartazes que não se contornam incitando a uma consciência comum. Fiquei com a sensação de um herança de crenças, que passa de pai para filho até que o filho a renegue, ou não. Assim, em Havana há uma linha de sucessão ou de diferenciação. Não é uma cidade cosmopolita e a sua alma prende-se nas cordas da roupa agarrada por molas em qualquer varanda de qualquer casa de portas abertas e de vidas escancaradas. O dia corre ao sol, os sinais continuam vivos, as pessoas cantam e andam quase sempre na rua. Creio mesmo que este seja o seu maior abrigo. A língua deambula em lábios fáceis de meter conversa. Havana é um mundo particular, onde se podem inventar as nossas vidas anteriores e por mais que julguemos as actuais é sempre uma indecisão ao avaliar. Pode-se aprender o convívio, mas há algo que nos fica atravessado nas paredes das casas, que parecem ter tijolos transparentes. Há algo que quem só vive em Havana compreenderá. Nós ficamos com esse cheiro de quando abrasa o fresco. Ficamos com as nossas ideias, com as nossas concordâncias e as nossas discordâncias. Há gente em Havana, tanta gente que o Malecón à noite é uma imensidão de sal e cabeças à beira azul. Nós nos nossos trajes de europeus em nada se assemelhamos a quem sabe viver assim, em paredes cruas em Havana. É fácil de falar de Havana distante. É muito difícil de escrever. Mas o que mais trago em mim…é esse cheiro quente, mesmo quando o vento se levanta.

domingo, junho 03, 2007

O que não sei que seja...

Já não é preciso calçar o sapato para saber que os passos caminham. Inevitavelmente as pernas andam. São as mesmas que me fazem, normalmente, subir as escadas. As mesmas escadas, as mesmas pernas a trepar. Uma porta de madeira e vidro abre, lá dentro a música toca e o edifício é de 1910. Anos da República? Quando o cometa passou e o mundo ia acabar, contam-me os relatos da época. Talvez, a primavera mais rebelde de sempre. Hoje, os sons são diferentes, as primaveras são outras. Estamos quase no estio. Vamos fazer uma revolução?

quinta-feira, maio 24, 2007

Coisinhas que dão confusão...

Passei por uma montra cheia de vestidos de noiva. Lá dentro, uma boneca sem rosto tentava passar a maior felicidade do mundo. Sim, a boneca não tinha lábios. O vestido era branquinho como a cal. Provavelmente, entrará no corpo de alguém que sonha com dias felizes. Mas, os dias começam chatos em casamentos. Normalmente, Agosto quente é o mês escolhido, os cabeleireiros fazem penteados muito feios nas pessoas chiques por um dia, a maquilhagem é exagerada e o calor seca o rímel. Então, a ideia é ser um dia de comemoração. Festa muita festa. E há por ai alguém que se sinta confortável em vestidos de tecidos foleiros? Quem começa a comemorar por uma missa? Quem se gana por ir tirar fotografias pela hora quente? Quem gosta de adiar o estômago para depois da missa e das fotografias? Será o princípio de algo estrondoso? Depois as pessoas comem marrecos nos fatos, os pratos inundam-se de talheres e a mesa dos bolos contínua intacta. Casais deste País façam um favor a vocês e aos convidados, casem de chinelo no dedo, vão de calção, deixem-se de formalidades e saiam dos fatos convencionais e das festas ridículas, onde ninguém se diverte. E já agora não empenhem os papás, nem os convidados…é que a vossa pseudofestinha sai cara. Quem é que se diverte num casamento de burocracia? Eu, certamente que não.

segunda-feira, maio 21, 2007

Revelações I

Tem caído gotinhas de palavras
a minguar em quarto crescente
A formiga carregou um miolo de pão,
não houve sapato assassino.
sentes as cortinas?
são lençóis presos do cheiro de semente.
aqui, em casa não há corredor,
mas temos tapetes.
Queres que te mande?
Subo as escadas.
Dentro da corrente,
não há ciclones de vento
Tenho os dedos a cheirar a romã
Os bagos caíram pela janela
Sentes?
Cá por dentro…soa ligeiro
Ouves?
Não rima é o importante.
Mordo o lábio.
Não têm afinação.
Já te disse que não gosto de consonância?
Então, não gosto do que rima.

sexta-feira, maio 18, 2007

Essa coisa das fitas...

Queimam-se as fitas e afinal fitas hão muitas. Pior do que isso, queimam-se antes de tempo. Ardem sem final anunciado. É tradição as famílias vestirem-se a rigor, o bispo vestir os melhores linhos e os estudantes colocarem-se de luto. É tão assim que golpes de sol são mais do que muitos e a missa é chata. Mais chata ainda para a família, faminta de encontrar um fio de cabelo na multidão. É orgulho estampado. É verdade. O meu filho é doutor e seguiu os caminhos do bem. Como se o bem se praticasse em bancos fáceis de faculdade. Estudei, sei bem o que é a universidade. Hoje, somente a encaro como um local em que se aprende o que se acha interessante. O local das relações humanas e da juventude de quem não espreita muito o futuro, porque depois se verá. É um local de alienação. Fiz a bênção das pastas, eu que não acredito em Deus. Fi-lo a pedido de quem acredita e que merece o maior respeito do mundo. Avó as coisas que eu faço por ti. Tenho escrito fitas. Aqui, pode dizer-se coisas maravilhosas acerca das pessoas. Sabem quando alguém morre e é sempre bom? É assim que sinto as fitas. Deprimem-me. E afinal quem sabe que acaba o cursinho em Maio? Vamos comemorar, encher o corpo de líquido. Vamos ler coisas muito boas acerca de nós e depois lá para Setembro falemos de notas. Vamos benzer-nos porque somos pecadores. Vamos pagar mais qualquer coisinha e vamos alimentar a imagem de que todos temos uma entidade superior, à qual devemos respeito. O final do curso só se sente uma vez. E nem se sente tanto como se pensa. O final sente-se no dia em que a última nota sai. A minha reacção foi: Mãe terminei o curso. Surgiram parabéns de todos os lados e eu sem jeito para essas coisas, em minha homenagem. Não gosto de bombardeamentos E, hoje, sou a mesma pessoa. Tenho a sorte de trabalhar e outros ainda procuram, neste Portugal pequenino. É tão fácil o mundo das fitas, afinal ainda não se acabou. Agora, percebo a razão dos estudantes vestirem o luto. Acreditam em premunições?

quarta-feira, maio 16, 2007

Finito

Fim da linha. Próxima paragem e tão cedo não ando de comboio. Acabou o dia e a noite há-de acabar também. Estou para aqui, eu, lamechas e depois olho para o meu umbigo e vejo que sou egoísta. Demasiado concentrada em mim. Há ai gente bem pior. Não é porque a árvore verga que a ramagem cai. Não é que eu me ache algo, somente não penso é nada de jeito. Inventem-se novos temas por favor, inventem-se novas metáforas e toca a cantar: ao passar ao barco rumando para o sul. Chega. Nova vida e que se junte quem vier por bem.

Acabou oficialmente a minha fase estúpida se não espanquem-me muito, sem dó nem piedade. E metam-me os dedos nos olhos, que eu adoro ui....

segunda-feira, maio 14, 2007

Rogai

Num acto tonto e incontrolado penso ser mais do que é. Nesses actos de desesperos que nos mancham a alma e sacodem a razão, encontro-me em fragmentos. É dia e a noite não parou de dormir. Quantas voltas tenho de dar eu a correr? Que estúpida essência inalterada de tudo ver quando os olhos só são para olhar. Sempre direccionei o meu bater para coisas que realmente são a proteger. Hoje, assumo que a burrice é coisa grave e séria. Provavelmente, um rabisco a carvão, deveria de ter borracha para apagar o traço. Entre tantos clichés, pergunto-me se isto faz algum sentido. Divina alma superior rogai por mim, porque a minha mente está turva e as minhas mãos desaprenderam de rezar, porque nunca o fiz. Amem.

domingo, maio 13, 2007

Abelha de asas leves e de azar estampado

Um dia uma abelha picou-me a cabeça, o cérebro inchou. Julgo que até hoje o ferrão se mantém em mim. O gelo não o sucumbiu, o alto baixou. Agora, o veneno permanece entre um lóbulo e o outro, deambula e tem vezes que chega ao coração. Mais tarde empenho-me a favor do diálogo e de algo construtivo. Não sou aquela pessoa que conta os dias, os anos e vê passar as datas. Não encontro derradeiros encontros. Um dia, uma abelha picou-me. Na ingenuidade digna de qualquer animal mordeu-me e não se fez ouvir pela boca. Guardo meras descrições de patas leves. Rondou-me e só não me comeu porque eu não sou boa para trincar. A abelha morreu-me pela cabeça. Hoje, penso que indefinidamente poderia ter morrido numa folha de árvore verde, com cheiro a chá e o mundo seria suave, o óbito seria digno. Num derradeiro encontro a abelha teve azar e chocou em mim. Hoje desejo fazer boa figura e fazer vénia ao insecto, quando o facilitismo da minha existência assim o permite. Julgo-me salva entre os que estão, mas mais do que isso vou ficar com o vulgar linfático cariz de ter sido o último cabelo comprido onde pudeste pousar.

quarta-feira, maio 09, 2007

O que se pede...

A semana impõe carícias nos ouvidos.
Mãos largas e abertas a tudo.
O dia impõe olhos a rir…de ler coisas, que são mais do que isso.
Talvez uma carta.
Seria semana se ficasse mais perto da distância. (mais curto…um passo, outro…)
E se fosse eu de novo a receber as borboletas?
O dia seria tão bom…

terça-feira, abril 17, 2007

Boleia

Todos os dias a mesma estrada de alcatrão. Que sorte não ser de terra batida.
Naquela que será, provavelmente, a maior árvore do caminho.
Será também o maior abrigo.
O mesmo aconchego de sombra e ventre.
Aqui, debaixo de copa e abrigo fresco, olhos ternos.
Os mesmos que brotam ternura e abraçam quente.
Dois rapazes, com bonés e bolsas à cintura, esticam o dedo em busca de quatro rodas.
Dá copa que tudo abriga os olhos analisam, o coração palpita.
Se pudesse, ao menos, não estar a acontecer.
Passa um carro, outro…e o dedo ainda não encontrou assento.
Protecção até ao último instante.
Mais um carro, outro e enfim a boleia.
Acena com a mão, o coração aperta, a saudade bate…
Adeus meu filho.
Amo-te. Sentirás que te gosto tanto?

P.S. A boleia mais terna que encontro, pelo caminho, em dias cheios.

quarta-feira, março 28, 2007

Grau geográfico

O hábito é atribuir nomes às coisas. Diferenciar, separar, ordenar. Comodidade? Talvez! Mas uma coisa é certa, todos temos uma marca, um registo, um rótulo, um carimbo. Maria, António, José, Filipe, Luís, Francisca, Dulce, Daniela, Ricardo…Porém há quem tenha mais do que isso. Para além do selo atribuído à nascença, é ainda brindando com mais um nome. Todos, ou quase todos, temos um vizinho Manuel, uma vizinha Maria, um vizinho António, uma vizinha Joaquina e um filho do vizinho Manuel e uma filha da vizinha Joaquina. Aqui o registo perde-se e o nome é substituído, por o nosso grau de proximidade geográfica. E depois perguntam: Então não sabes quem é X? É o filho do meu vizinho Manuel! Qual vizinho Manuel? O que é casado com a vizinha Joaquina! Que é prima da minha vizinha Lurdes? E por ai adiante…Mais do que o nome há algo que é eterno, o grau de vizinho simpático. Há um certo gozo em ofertar as pessoas. Talvez seja uma confissão do tipo: Não é da família mas é muito próximo. Afinal mora logo ali ao lado da minha vida. Porque afinal Manuel há muitos, mas vizinho Manuel há, somente, o de cada um.

sexta-feira, março 09, 2007

Praça

O tempo não volta. Isto é uma questão de sabedoria popular que já ninguém desafia. O tempo ficou lá, no próprio fundo do tempo. Mas, voltam as raízes do pensamento, essas, que insistem em não ficar como restos de vinho na garrafa. Voltam as vidas que foram mais do que temporalidade e que sobressaem à efemeridade da existência. Na praça, nessa manhã, falou-se aparentemente de gente morta. Falou-se dos que já não existem, ou dos que, pelo menos, já não se encontram sentados nos bancos de pedra. Aparentemente, tudo gente morta. Aparentemente, tudo gente distante. Aparentemente, tudo gente que já não volta. Mas tudo aparentemente. Na praça, nessa manhã, falou-se de vida. Imortalizaram-se momentos, fez-se vénia à saudade e fez-se jus à mortalidade. Na praça falou-se de mortos que, mais do que mortos, foram/são pessoas. Na praça brindou-se à melhor essência da existência. Na praça, há imortalidade no que amamos. Na praça, não aparentemente, há sempre gente.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Há um melhor português?

O grande português de sempre não é grande em pensamento. Faz-me comichão na mente pensar que se quer falar de história deteriorando-se elementos que a ela pertencem. Se fosse uma selecção natural de afinidades, de gosto, de prazer, de identificação e de preferência seria causa justa. Mas não! Neste caso, a política sobressai à cultura e a cultura excomunga a ciência. Como se pode eleger um, apenas um? Como pode a bravura diferenciar da intelectualidade e a astucia da inteligência? Claro que em tudo. Mas a história é indivisível. A história não separa, quanto muito ordena. Uma coisa liga-se à outra, porque só a descoberta anterior dá asas para o progresso voar. A história também não enriquece os bolsos às operadoras telefónicas. Ou enriquece? Ou são as audiências que viram guerra? Cada vez confio mais que a mentalidade é o que muda mais lentamente. Se não olhem para um País em campanha por eleger um melhor Português de sempre. Como se houvesse um e apenas um e mais nenhum. E agora pergunto: Quantos portugueses geniais andam longe das luzes da ribalta? Quantos ficaram pelo caminho? E não serão também as circunstâncias que fazem o facto? E depois há uma vontade desmedida de incentivar ao voto. E perguntam: Já votas-te em X? Não te esqueças! E de repente o nosso Portugal dos Pequeninos da Europa quer ter um homem com G de Grande, mas não um País com G de Gente.
Por isso, o meu Voto vai para a minha avó por, para mim, ser a melhor Mulher (e não portuguesa) de Sempre.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Sim

Neste pequeno espaço cívico em que nos movimentamos, substituamos a V do cívico pelo N e ficaremos com cínico. Então recomecemos e escrevamos. Neste pequeno espaço cínico em que nos movimentamos, cruzamos os braços e assim caminhamos. Somos os mesmos artistas de circo de sempre, desde o tempo de Almada Negreiros, em tela que crescemos. Neste pequeno espaço cínico em que nos movimentamos, andamos com os olhos no chão e assim vamos. Somos os mesmos, como disse Miguel Esteves Cardoso que preferem “viver antes da felicidade que depois dela”, mas assim vamos abrindo a boca pensando que são lábios de sorriso que desenhamos. Então recomecemos e escrevamos. Neste pequeno espaço cívico em que nos movimentamos somos cínicos e assim vivemos.
Sou pela Vida e Sou pelo SIM...

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Gosto de mercados...

Gosto de mercados, desses, em que a fruta cheira a fruta. Especialmente quando chegam os ares do campo que, por momentos, afastam o odor dos químicos. Gosto dessas bancas alinhadas entre as laranjas, as maças e as alfaces. Degusto pelo olhar mas, sobretudo, os aromas confundem-se e, por vezes, já não distingo o rosmaninho do alecrim. Inalo o poejo com os sentidos vincados no hortelã e as mãos, essas, prendem-se aos molhos de salsa. Não me ficando, porém, pelo apreciar de cores diversas deslumbram-me estruturas que erguem verdadeiros centros de tradição, normalmente, com telhados de chapa bem altos. E lá dentro, as vozes fazem eco e os verdadeiros vendedores tradicionais trazem no corpo rostos puros, tão puros como a hortaliça. O gosto é de há anos, mas tem dias que se acentua. A caminho de País vizinho, paragem em Estremoz para almoçar. Aquela paragem mais do que certa e mais do que recompensada. Ali, em plena rua; em plena artéria principal da cidade, bancos com estofos de palha, capoeiras e galos lá dentro, caixas de ovos ainda quentes e uns limões apanhados da horta. Stock q.b para montarem a banca. E nunca um mercado me tinha impregnado tanto com o cheiro da terra. Oferta improvisada com o que o bocadinho de quintal dá. Laranjas da época ainda com o ramo, nabos, potes de mel em frascos de doce, piripiri aos molhos e azeitonas com o pé da oliveira. Sentimento tão leve que acho que a atmosfera não estava poluída. Por certo que cheirava entre o verde e o castanho, onde se estendem as raízes e brota o essencial ao ar.
Não esquecer nunca: Ir a todos os mercados quanto possíveis.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Simultaneidade



Em plena harmonia ou em pleno desaire? Não sei bem.
Com a cabeça a fervilhar bolhas, com os ombros a rejeitar o cinto, com os olhos cansados, com as mãos geladas, com a caminho por percorrer, com o dia quase terminado, com a boca seca, com as horas a passar, a mente longe e uma tarde cheia, somente, de coisas.
Um tractor a impedir velocidades e uma bolha amarela a entrar-me pela cabeça em jeito de alucinação numa arte psicadélica. E depois...depois, a música do Variações, em boca de humanos, a passar na rádio.
Estou bem aonde não estou...
Porque eu só quero ir aonde não vou...
Ele há simultaneidade?

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Política...

Aqui existem muitos comunistas e vários socialistas.
Dizem que os democratas distinguem-se ainda, nos dias que correm, pelas terras de cultura.
E assim, é o mesmo que dizer que continua a real distinção entre lavrador e agricultor. É verdade, passados tantos anos.
Os anos passam, mas a mentalidade vai ficando meio agarrada ao passado e meio desprendida do futuro.
Metem-se rótulos mesquinhos agarrados à cor política. Como se um homem deixasse de ser menos homem por ter ideias dispares dos seus semelhantes. Ou como se uma mulher deixasse de ser menos robusta por ter ideais menos convencionais. E depois formam-se rivalidades angustiantes e tão antigas, como o dia de ontem. E gente com o mesmo número de tronco e de cabeças disputam como hienas por um osso. E, esse, o osso hoje fede tanto que o País não anda. E um dia que me queiram falar em democracia venham desprovidos de osso e digam, somente, queres participar?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Natal de presença e não de presentes...

No Natal faz-se sempre uma retrospectiva do passado. Sim, aquela saudade que bate. Aquele sentimento de infância distante. Já vivi dias com mais entusiasmo nesta quadra, é verdade. Já cantei coros, já proclamei poemas, já escrevi cartas e tentei portar-me bem melhor próximo do dia 25. Desejar montar a árvore de natal e colar-lhe tanto chocolate que já nem existe. E agora, acho mais piada a uma que apresenta um design muito mais atraente. Ele há coisas!
Tempo houve que deixava o sapatinho junto à chaminé e fazia turnos com o companheiro de sempre (mano) para apanhar o pai natal em flagrante. Vê-lo tisnado e sem caber na chaminé. Sim, porque sempre foi algo de que não me convenci: Como é que um senhor tão forte (gordo) - forma que me deram do Pai do Natal - cabia naquele buraco estreito?
Fazer a lista de presentes, querer tachos muitos tachos e fruta de plástico. Montar a barraca, no dia seguinte, e cozinhar com terra, água e ervas sopas para os presentes que comiam lá dentro, no quente. Mas qual frio qual que se era Natal? Sair para a rua e mostrar aos amigos. Olhem esta máquina de costura para apenas dar pontos em trapos, este carrinho para passear a barbie, esta bicicleta amarela, esta barriguita com o cabelo que brilha no escuro, este lego, esta casa dos pinipons e mais esta concertina. E afinal, o Natal era apenas para alguns, tal como hoje...E afinal, o Natal já nem brilha por os presentes, aliás acho que isso sempre foi só mais um acréscimo e até desnecessário. Porque a mim, o que sempre em deu prazer e alegria nos olhos foi juntar a família. E o tempo passa e os pilares mantém-se. Sempre lá os mesmos que consideram isso como tal...os mesmos que anos após ano, persistem para além das caixas de embrulho. Os mesmos que ainda sabem o valor da presença, mais do que o valor dos presentes.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

O livro dela, Carolina...

Ela, a Carolina é verdade tem posto o País a ler. Não como um sol posto mas como um sol forte de a (gosto). E já que é a gosto que se desfrutam palavras, creio não encontrar-lhes aprazimento. Não acho piada a vida do Pinto da Costa...a não ser que ele fosse um pinto dado à costa! Mas bem no fundo é triste, ou bem à superfície seja mais que se percam os olhos sobre letras só porque escândalo brota. Um supermercado com o nome que os madeirenses e açoreanos se referem ao resto do País, para não passar a publicidade gratuita e descarada, em domingo natalício estava cheio à pinha. E gente trazia junto aos repolhos, à lixívia e champôs para o cabelo o livro dela, da Carolina. Não é triste que o leiam...é só triste é que a venda dos livros daqueles sem capa de revista (cor de rosa) não tenham assim tanta saída. Só isso.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Em Dezembro?

Quem pensa que a época natalícia amolece os corações desengane-se. A fraternidade, alegria, espirito de ajuda, bondade e perdão não fazem parte desta quadra. A PSP resolveu mandar-me uma prenda adiantada, mas sem embrulho. Nem esse prazer deu. Um presente seco e sem piada. Antes chegassem as peúgas, as camisolas interiores, e as cuecas que já ninguém usa. Enfim...o estacionamento na cidade aqui do meio do Sul, anda caótico! Eis que um Parque de uma Igreja Universal de Deus, Maná, Evangélica, não sei bem, mas é em nome de Deus resolveu fazer a revolta dos irmãozinhos, logo na mesma quadra que se comemora o nascimento do filho do seu ente. Por bondade sempre deixou os descrentes, como eu, estacionar ali. Contudo, eis que chegado o mês dos cristãos, dos evangélicos, dos manás e dos universais de Deus e surgiu aquele telefonema para a PSP. Achei mal. É que se fosse multada em Agosto, Novembro, Janeiro, Fevereiro era mais confortante. Agora em Dezembro? Depois pensei, eis o castigo de Deus a chegar aos diabos que não se convertem. No entanto, ainda me deram a oportunidade de pensar melhor e não me rebocaram o carro. Levei só aquele aviso com a multa de estacionamento. Aquele aviso de que ainda estou a tempo de me render a cristo antes do juízo final.

domingo, dezembro 03, 2006

Hoje...

Talvez amanhã seja Segunda…e daqui a pouco ainda seja Domingo. Quem sabe?

sábado, novembro 25, 2006

A culpa é do André...

Há coisas que enfeitiçam as pessoas. Cheguei a essa conclusão hoje. Creio que há por ai muita gente que gosta de uma balada, de uma moda, de uma música, de uma canção, de qualquer coisa que sai da boca do André. Passo a explicar. O rapazinho anda a enfeitiçar a mente e os corações de muita gente. Quem não ouviu já na rádio umas notinhas músicas que a sonoridade remete para o coração e a letra cobre os olhos. Passo a citar: “Eu não sei o que me aconteceu. Foi feitiço o que é que me deu. Para gostar tanto assim de alguém com tu…” E agora eu pergunto. Tem alguma coisa de romântico esta música que deprecia o outro? Parece-me a mim que o que aconteceu ao André foi algo de muito mau. Diz que não sabe o que lhe aconteceu, coisa boa não foi portanto. Depois remete para o inexplicável. Chega mesmo a acreditar que lhe mandaram maldição, pós mágicos. Mas pior como pode ele gostar assim de alguém como essa pessoa. Parece-me a mim que esse ente não é flor que se cheire. Mas isto é eu a pensar. È que por mais voltas que dê não consigo encontrar explicação. Como pode alguém dedicar esta música a outro. Por isso ou sou eu que ando a ver as coisas ao contrário, ou o André explicou-se mal e anda a ser ambíguo. E pior anda a enfeitiçar a mente dos seres. E a está altura alguém deve estar a sussurrar ao ouvido de alguém: “Foi feitiço o que é que me deu. Para gostar tanto assim de alguém como tu…E se isto fosse na minha cartilagem eu estava, neste momento, a achar-me algo de muito mau…

quinta-feira, novembro 23, 2006

País que termina em (inho)...

Eu queria duvidar do estado do País, queria mesmo que ele fosse um Estado.
Mas parece que sofre de problemas crónicos que o reduzem para algo com a terminação em inho, talvez estadozinho. Um hospital: gente muita gente, médicos nem tantos, enfermeiras à conta, radiologistas pelos dedos da mão, gente que sofre, assim a assim, e gente com dor interminável. Mas este é o cenário já habitual. Somos o País que investe nos médicos e poupa nos engenheiros. No entanto sou adepta da aptidão. Tenho para mim que muita gente foi para determinados cursos consoante a média. E neste caso o nosso desenvolvimento sente-se, mas isto é para mim. Enfim, uma consulta marcada há dias e dias sem conta, porque esperar é a regra. Um exame para fazer, mas disponibilidade nula para o realizarem. Conclusão: consulta mais uma vez adiada, exame por fazer. Estado de saúde mantêm-se até ver...e depois dizem que a Saúde é para todos. Não suporta-se eu o adiar da questão (dor suportável)...e era menina para dizer que amanhã ia já ao privado. Eu que gosto de um Estado Público e não de um estadozinho semi-qualquer coisa.
P.S- já tinha tentado publicar este post antes, mas o meu blog tem vida própria e não deixou

segunda-feira, novembro 06, 2006

Repasso...

Os dias têm sido de chuva. Dizem que as mentes arrefecem, encharcam e molham-se. A minha flúi gotas, pequenas bolas que me deslizam pelo cabelo escuro. A água anda cá fora, mas o repasso há muito que deixou entrar água por a mente e pelo corpo todo. Nestes dias 50 por cento de mim é agua o resto é riso.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Memória em Baú...

O dia claro. Sol morno de Outono. Uma manhã cheia e um dia ainda largo. O fim-de-semana rumou a sul. Portimão como destino, sim porque nem só de verão se goza a comodidade e há que dar uso à estrutura do edifício. O mar mesmo aqui ao lado. Companhias a 3, número perfeito dizem. Uma roda atrás da outra e Caldas de Monchique no horizonte. Voltam os arrepios de frio. Volta a saudade e os mistos misturam-se, e ele há coisas que a própria razão desconhece e ficamos assim embasbacados, sem pinta de nexo. Respirei e senti oxigénio a rolar. Os olhos, esses, acho que brilharam. Um turbilhão de coisas a virem e a memória a andar para trás. Estou tão alta para os bancos que me senti demasiado perto dos tampos das mesas de madeira que continuam a povoar o largo. Olhei e parei no tempo. Encontrei-me de camisola de alças com um barco desenhado ao peito, calções azuis e uns chinelos amarelos e brancos que o mar me levou. Água nos ouvidos, ramagem verde sob a cabeça e uma infância a descer ao presente. Correr para ir à fonte, fazer birra para não ir beber a água termal e desejosa de chegar à banca da fruta. Ver sair os pães do forno, pedir para que me comprassem não um, mas muitos. Mesmo que o estômago aguenta-se apenas um. Coisas boas que o verão proporcionava e as férias aguçavam. Subi a serra, e o café à beira da estrada continua igual. O mesmo cheiro e as caricas continuam a povoar o chão que, ainda hoje, é de cimento. Acho que a ementa deve ser a mesma: frango assado. Debrucei-me, como fazia antes, e trouxe uma carica para casa. Na rua a mesma senhora de sempre, não me reconheceu, devo ter crescido. A casa continua cheia de tralha, acho que o tempo não passou por aqui. E lá estava o primeiro andar que nos dava guarida todos os verões, somente, pintado de amarelo. Ele há coisas que a memória guarda em baú.

domingo, outubro 22, 2006

Pedaço de conversas...

Eu nasci já morto e de olhos fechados. Hoje já nascem de olhos abertos...

Foi a frase que ouvi ontem dentro da cartilagem. Vai lá saber-se o porque, mas fez eco no cerébro...coisas soltas de uma mente à solta.

domingo, outubro 15, 2006

A minha amiga Gata já é mãe...

Um pé junto ao outro, um fato de treino rosa e um balanço na cadeira inquieto. É assim que me recordo de ti pela primeira vez, dessa, em que eu tinha calções de peitilho verdes com uma camisola rosa e uns sapatos que faziam barulho. Caracóis claros e eu de cabelo escorrido e escuro. Dedos, olhos grandes e expressivos, gargalhadas descontroladas e a barriga apertada por doer com tamanha actividade alegre da alma. E passam as canelas finas, passam os pátios de soalho vermelho e já não ouvimos as campainhas num grito que alterava a garganta, como algo descontrolado mas de extrema importância: “É entrada da Dona Dorinhas”, lembras-te as veias ficavam alteradas? Mas davam ar de responsabilidade! Bem lembro que nunca te preocupas-te com tal facto, bem me lembro, de ser uma seca em que reviravas os olhos. Vejo-te do contra, da oposição sempre, mas de uma oposição ingénua. Não medias o que dizias, tão pouco o que fazias. Eras um destrambelhamento andante em terra firme. Abominavas a vida, mas rias tão intensamente que acho que eras sarcástica. Lembro-me de te ver ir sempre sozinha, sempre com os caracóis a deambularem até virares as bombas de gasolina. Gata, não era nome fácil de criança, raramente te ouvi chamar Cristina. Gata, Gatarda, Gatarrona, em ouvidos de cartilagem infantil. E reviravas os olhos, esses, cor de mel. Criavas no ar, imaginavas e acabava sempre por algo correr mal... Sempre a mesma vítima do destino! Bem sei que era abuso, mas quiçá algo tão genuíno, que raramente encontro melhores memórias. E agora já tens mais um cordão umbilical, e agora já não te vejo a ir sozinha até a esquina, ainda te enxergo com a cabeça cheia de bolinhas amarelas da árvore, fecho os olhos e vejo a queda de cima do teu troco, do teu quarto imaginário, no primeiro andar, quando todos se contentavam com o chão e os pés firmes. Vejo-te a rebolar pela tábua solta da sala de aula, numa irritação desmedida, vejo a minha cara de otária, ou melhor as nossas, quando a tua piscina não passava de uma farsa. Vejo-nos dentro da arca frigorífica e afinal já nem fruta tem comido juntas. Estas longe, longe de mais até. Mas perto da minha cabeça, perto sempre da minha vivência. E hoje quando me chamaram com um toque e me disseram que já tinhas o teu bebé senti um misto do que já não volta. Bolinhas de sabão, saudade, cordas de vidas, risadas, e felicidade hoje mais do que nunca te sinto acompanhada. Imagino-te no mesmo desespero de sempre, na mesma resmungona de todos os dias, nas mesmas piadas e risos em que cerravas os dentes. Encontro-te a delirar e tão feliz como nunca te vi, que me fazes feliz a mim.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Cristo na Parede...

Já há muito tempo que não entrava numa sala de aula de uma escola primária, mas o cheiro ainda é o mesmo. As carteiras são da mesma cor. Os desenhos apresentam cabeças de bonecos desproporcionais aos corpos. Árvores e pássaros desenhados em n. Lagos, patos, pais, mães e irmãos tudo estilizado. Sente-se alegria nas tarefas que moldam as mãos ao barro, à plasticina e ao cheiro da tinta. Tudo na mesma. Somente, as minhas pernas parecem não caber nas mesas e batem no tampo. Não tenho a mochila carregada de canetas de feltro, muito menos de lápis de cera. A minha mãe não forrou os livros nem lhe colou etiqueta, tenho um bloco que em criança, jamais carregaria comigo capa lisa, sem imaginação ou bonecos a povoar não entrava no cesto das compras. Já não desejo escrever a cores e já não invejo os que andavam à minha frete no percurso escolar, que carregavam nos estojos canetas de tinta vermelha e verde.
Nada mudou muito, os mapas continua a marcar presença, os quadros, estes, já não são de cor verde nem o giz faz espirrar os alérgicos, nem o apagador se vai bater lá fora, numa vontade desmedida que me calha-se a mim. A escola não mudou assim tanto, apenas os morangos com açúcar e a floribeela invadem os cadernos e já não se usa o tom soyer, nem tão pouco a série da Brenda e do Dylan. E no meio de pequenas mudanças de época, somente, uma coisa permanece igual como há anos. Olhei para a parede e lá estava ele Jesus Cristo numa cruz. Pensei de não ser possível, tal imagem nas paredes de hoje, e pensei da imposição de uma religião já não reinar nos claustros das escolas portuguesas. Mas parece que afinal pouca coisa muda...alias as mentalidades são o que mais dificilmente mudam. E cá vão as crianças de hoje, olhando para o alfabeto com o cristo no horizonte... E eu pergunto nas escolas de hoje, não existem já crianças de outras religiões? Não existe já quem não tenha sequer religião?

quinta-feira, setembro 28, 2006

Cérebro em gelo...


Frio na espinha, arrepio, coisas geladas é assim que se desenvolve o meu cérebro em tom de troça para comigo mesma, estupidez é essa hoje a palavra que me percorre. Ata, desata, coisa apertada e o frio volta. Preciso de um cachecol à volta da cabeça pode ser que ela aqueça.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Anos há...

Anos há em que as paredes de gente criança e adulta por estes dias, se enchiam de destemida vontade, de tamanha coragem e de pouca vergonha. Paredes fáceis quando as coisas eram fáceis de dizer. As pessoas crescem e deixam o atrevimento para trás, com ele ficam os murais, as secretárias, os cadernos, as bolsas dos lápis e as mochilas pintadas. O corrector passa a ter só uma utilidade – apagar erros de canetas - canetas de cor deixam de fazer sentido, e borrachas pintadas parecem ridículas. Hoje, lêem-se os sonetos e murmura-se para dentro, até se tem vontade de dizer, mas as palavras não se descolam da boca. Anos há, para esta gente, que era fácil dizer: Amo-te. Anos há em que se escrevia na parede para toda a gente ver, anos há em que se esfolavam as portas das casas de banho, e se deixava o nome gravado a perpetuar, juntamente, com a data e o nome da outra pessoa. Anos há em que se dizia Forever, por o inglês soar sempre melhor aos ouvidos, quando a descoberta encaminhava as coisas fixes de dizer nesta língua dos filmes, e as menos curtidas as remetia para o português.
Há anos que as pessoas não dizem amo-te com tanta facilidade, tantos anos que acham que são coisas tolas de crianças. Mas anos há também, em que amo-te saía sem sentido, paixões passageiras de sofrimentos rápidos. E hoje as pessoas sentem a sério e não dizem porquê? Por vergonha, porque afinal acham-se ridículas ao dizer, e afinal as paredes e os murais, as mochilas e as bolsas dos lápis, as borrachas e as portas das casas de banho das áreas de serviço, deveriam de voltar à baila do dia, para tirarem palavras difíceis da boca e mostrarem frases fáceis de ler.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Girassóis no Armário...

Há quem queira fazer das coisas mais do que isso, mais do que coisas. Há quem precise de reforçar a ideia para se sentir em pleno. Há quem precise dessa identidade global, dessa que realce aos olhos os sítios onde estão. Há no fundo uma necessidade de identificação, uma pura falta de pertença. Nas ruas as pessoas deambulam quase sempre com os olhos no chão. Falta de tempo? Falta de imaginação? Ou pura vontade de passar rápido? Mas depois chega-se aos locais e quer-se realçar a presença. Mesmo que passemos rápido pelas ruelas e não observemos o calceteiro, a mulher com o saco das compras, ou a loja dos tantos Xicos deste País, que vendem desde o pão aos candeeiros para a mesa-de-cabeceira. Então estava eu a ler um matutino, rindo com piadas reais e uma senhora com faro dos lados de Lisboa, interroga-me, “ – Sabe onde posso encontrar alguém que pinte em vidro ou madeira”. Pensei, e dei voltas à cabeça e nada me ocorreu. Mas a senhora citadina explicou-se melhor e disse: - “Eu já sei quem é o senhor que faz, não sei é onde fica”. Ai tudo se tornou claro. Contudo a mulher insistiu em dizer: “- Sabe é que tenho lá uma armário, mas queria dar-lhe um ar mais alentejano, mas rústico. Queria desenhar uns girassóis ou assim...Não sei se me compreende”, frisou. E adiantou que “agora tenho uma casa no Alentejo”, coisa fina nos dias que correm...para quem descansa das buzinas.
Pensei na resposta que lhe devia de dar. Tivesse eu dito e teria posto em causa a hospitalidade deste povo.
Apercebi-me, que a senhora não tinha ainda percebido, que não era necessário pintar os armários, para pertencer a esta alma. Que as verdadeiras casas rústicas o são por tradição e vivência e não por modernismo estético. Vi que a senhora ainda não tinha reparado, que aqui, a vida corre normal como em tantos outros sítios deste País. Não se dão ares alentejanos, porque o são em estado natural. E ai, no dia em que a senhora consiga perceber que aqui o que muda é que pode abrir a janela e ver girassóis reais sem estarem pintados no seu armário citadino, ai nesse dia, digo-lhe o que realmente pensei.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Procura-se

Gente não acomodada em todas as áreas...procura-se...



terça-feira, agosto 29, 2006

Geração dos químicos...

Hoje a temperatura aqui da cidade anda elevada. E eu a subir rua com inclinação acentuada, nas minhas pernas ainda não muito gastas pela vida. Quando por mim passa, com o dobro da minha velocidade, uma senhora como mais do triplo da minha idade. É caso para dizer que já não se fazem pessoas como antigamente.
Pela negativa eu desconfio que já sou da geração dos químicos, desses das maças, das alfaces, da água e dos corantes...

quarta-feira, agosto 23, 2006

Só pelas coisas simples...

Vieste de longe. Eu vim de perto.
Sabes para onde vais?
Não somente ando perdida nos dias, como sempre
É melhor não me seguires.
E se seguir?
Somente tens de te encontrar. Como os homens da bolsa e os senhores bancários, e os médicos, e os advogados aparentam ter sempre rumo certo.
Eu vim por causa do emprego. E tu?
Eu só cá vim ver a água.
A água porquê?
Só pelas coisas simples da vida.

terça-feira, agosto 22, 2006

Rico mas tão pobre...

Tenho andado por ai. Com a cabeça a flutuar, com o corpo a entranhar. Tive aqui e ali, acolá e agora ando por cá. Tive nas rotas, nas direcções. Tive sem tempo, com tempo tive somente a absorver. Numa das paragens temporais, tive em Puerto Banus. Entrei já com os olhos ostentados. E ainda hoje brilham a ouro falso. Senti o cheiro das notas, da luxúria e ali considere-o o pior dos pecados. Tantos olhos e tão pouca barriga. Seja o prazer de quem tudo queira sem sabor. O diabo andou à solta em Puerto Banus, remexeu nas mentes e desenhou-as aos cifrões. Senti um vazio, uma falta de cheiro, de terra e calor humano. E deslizavam na avenida como quem desliza em passerelles, com o peito para fora e as marcas espelhadas aos brilhantes pelo corpo todo. Os carros que em euros são difíceis de fazer a conta, amontoavam-se num desfile de vaidades e cilindrada. E eu a pensar que logo ali a milhas uma criança morria à fome. Não uma por dia, uma de oito em oito minutos e agora sim, por dia.

segunda-feira, agosto 21, 2006

O romantismo anda doente...

Ele há coisas que me fazem confusão, entre as várias encontro umas que os ouvidos encaram como dolorosas. Coisas simples, mas tão ridículas, tão vazias, tão sem nada que me parecem ocas. Estava a almoçar, tranquila com a cabeça mergulhada em conversas e risadas sobre tudo e sobre nada. Ao nosso lado um casal estava apaixonado, coisa boa portanto. No entanto, o rapaz abria a boca e acabava com qualquer romantismo inteligente. Fonemas saiam repetidamente, o que atingia a maior percentagem era bebé. Bem, há por ai alguma mulher que goste de ser tratada por bebé ? Eu acredito que o amor tudo tolera, mas e a criatividade, a originalidade, morreu pela boca. Bebé é mau diria péssimo. Apeteceu-me dizer ao rapaz para arranjar outro adjectivo, mas vai na volta são só gostos e não se discutem. Como dizia o outro cada uma sabe de si. A conversa prosseguia e não tardaria a saltar da boca do rapaz outro adjectivo fofinho, diria mesmo rechonchudo. Gorda. Normalmente, todas as mulheres ficam meio atrapalhadas com esta palavra. É algo não desejável, não o fosse e não correriam para o ginásio até as pernas gritarem: pára! No entanto, mais uma vez nesta situação é encarada como palavra querida. Mas o pior é que a rapariga era magra. Mas ok, o romantismo anda afectado pelas coisas pirosas, anda doente, cego aos olhos dos crentes.

domingo, agosto 13, 2006

A Sudoeste...

Andei por terras com música, ainda trago no ouvido sons, risadas, festa e sorrisos abertos. Andei por terras onde a linguagem é universal, onde apenas notas melódicas são dialecto oficial. No meio da planície, onde o mar quase corrompe o pasto, ergueu-se a cidade das vibrações. E lá no meio pula-se que nem doidos, e as pessoas andam mais descontraídas que o habitual, e vale tudo até o sol raiar. Cheguei ainda o sol caia, pó foi o primeiro sinal de que estava a entrar em recinto certo, carros amontoados, em planície vasta, o nome em tudo lhe assenta fica mesmo a Sudoeste. Troquei o papel por uma pulseira e senti-me com um pedaço de mar no braço (Azul, costa Vicentina). Gente, muita gente, àquela hora procuravam jantar, tendas muitas tendas, tantas que qualquer buraco servia. Vizinhos a perderem de vista. Tudo a postos, encontro a minha tribo, já com o espirito no corpo. E cá vamos, palco principal como destino, um dos meus primeiros objectivos estava cumprido, Goldfrapp nos ouvidos. Temi pela desilusão, mas não. Um recinto de publicidade, tudo são marcas, uma operadora telefónica até fazia doer os olhos, e mesmo sem querer também eu andava a fazer publicidade, no pulso. Cabeças flutuam no horizonte, muito humano junto, mas mesmo assim, consegue-se encontrar os conhecidos, choquei com todos os que queria.
Noites dentro, festa, e música sempre entre o cérebro, o corpo e a cartilagem...escolhemos bem os destinos, oferta vasta. Da nossa selecção para perpetuar saliento: Goldfrapp, Prodigy, Buraca Som Sistema, Legendary Tiger Man, Macaco, Marcelo D2 e Daft Punk. Muitas decepções pelo meio. Já agora quem conhecer a Skin diga-lhe para cantar em vez de gritar. E os Madness não fizeram luz ao Ska.
As manhãs eram mesmo alvoradas, calor a mais para dormir em cenário de estufa. Filas para tudo, mas com alguma manobra, comíamos bem rápido os cereais, também oferecidos. Os brindes chovem dentro do recinto e as pessoas amontoam-se em busca das borlas, mesmo que depois não sirvam para nada. Zambujeira do Mar é o trajecto mais conhecido, todos os caminhos vão dar ao mar. Pelo percurso esplanadas repletas e o dinheiro a ficar, que mais não seja, uma vez por ano, no Alentejo.
No recinto os estilos são vários, passeiam rastas, cristas, cabelos compridos, curtos, gentes com cores e gente de negro. Há de tudo, mas o que mais houve nesta edição foram os óculos tipo aviador...há por ai quem não tenha?
Muita bebida, fast-food, e comida razoável também. No entanto, tudo caro, tudo a apontar para bolsos fartos, tudo lá no cimo. É caso para dizer: já que o espírito está, porque não há-de estar a carteira também? E depois as pessoas pensam e vêem que afinal o Sudoeste é em Portugal.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Agosto...

Chego à hora que dita a entrada em mais um dia de trabalho, normalmente percorro artérias em busca de um lugar, com sorte acabo sempre por encontrar. Mas agora, nem artérias percorro, não busco estacionamento, deslumbram-se perante os meus olhos espaços vastos à escolha do freguês. É Agosto e o povo aqui da cidade encontra-se literalmente de férias, os que não estão suspiram por elas, mas basicamente o sentimento é o mesmo. As ruas andam meio desertas, aos serviços falta-lhes gente e o ritmo anda tardio. Chego ainda com o sumo na mão, encontro menos gente que o habitual, o calor aperta, os olhos ainda dormem, os jornais inventam temas, em Agosto dá-se importância a tudo aquilo que normalmente se risca em meses atribulados.
O País está a banhos, mergulhado no sentimento bom do Verão. Fugas repentinas, afugentam as preocupações do quotidiano, enterra-se a cabeça na areia, esticam-se os pés na esplanada e flutua-se por 15 dias em profunda alegria. E depois o Agosto vai e o Setembro já começa a recolher os cheiros do Outono, e depois o Inverno chega e a depressão volta à baila dos dias. A Primavera anuncia a viragem e depois...depois é Verão outra vez. Mais 15 dias de felicidade...em Agosto.

segunda-feira, julho 31, 2006

Raiva...

Hoje peguei no DN, não foi sequer necessário folhear as páginas para me arrepiar. Fiquei ali pasmada com tamanho choque, senti um frio que me consumiu por dentro, imóvel, com uma má disposição, ar a menos e raiva a mais. “Ataque de Israel à aldeia de Caná”. 37 crianças vitimas do mundo estúpido fundamentalista. A imagem não me sai da cabeça, e a indignação do corpo. Impotência...não consegui voltar a pegar no jornal...não me apetece ler. Apetece-me gritar em ouvidos moucos, chamar-lhes muitas vezes estúpidos, ignorantes, cobardes, mesquinhos, desprovidos, calculistas, absurdos, otários, palermas, adjectivos vários. Guerras em prol, simplesmente de nada. Aqui no nosso mundo Europeu condenamos o ataque e ficamos a espera não sei bem de quê! E eles que esperam lá amanhã...? E ainda nos queixamos, não sei bem de quê também...

quinta-feira, julho 27, 2006

Gente sem mente...

Como mosaicos espalhados pelo chão colados, agarrados mais fixados dos que os próprios pés na terra. Ideias ocas, de mentes vazias ecoam ao fundo de si, num gélido arrepio. Falam, gritam, esperneiam num avesso. Exaltam a voz, perdem a razão. Espalham ignorância pelo ar e riem em tom de troça, com a maior das certezas em assunto que não tem formação suficiente. E depois os outros calam, lamentam e no fundo é pena que se levanta.

quarta-feira, julho 26, 2006

Para dentro de mim...

Uma aquarela em tintas azuis, um dia em tons verdes. Um sorriso rasgado, vasto e grande. Um abraço que abarca mais do que tudo e mais do que nada. Sementes pelos pós mágicos de duendes caiem sobre o meu espaço. Devasto os lençóis e rasgo os membros. Flutuo na leveza dos sabores, entranho nos cheiros e afugento os perigos. Chego sem ser a horas marcadas, devasto o tempo, acalco o poder das regras, quebro a rotina e fujo para longe. Para tão longe que o mais perto é ir de novo para dentro de mim.

segunda-feira, julho 24, 2006

Muito Estranho...

Vi o Ricardo, não o via nem sei bem à quanto tempo...até pode parecer estranho ele é o meu vizinho da frente. Não fosse ele francês e seria estranho, agora assim a viver em país distante só o verão o retorna. E por vezes quando o retorna ando eu por outras paragens. Mas este ano o tempo resolveu juntar-nos e ele veio a tempo de estar ao mesmo tempo do que eu na rua. Olhei para ele e o Ricardo cresceu esta um homem...não era assim que eu me recordava dele. Será que também já eu estou uma mulher? Muito estranho.

terça-feira, julho 18, 2006

Coisas da Memória...

A memória por vezes falha-me, passo longo tempo, se não mesmo eternidades sem recordar-me de algo. Coisas que passam e que depois voltam a surgir quando menos espero. E quando voltam penso: como pude eu esquecer durante tanto tempo?
Enfim, hoje foi um desses dias, sem mais nem menos veio-me à cabeça aquele turbilhão de coisas boas que sentimos, como talvez dos melhores feitos que fizemos juntos. E prometemos a nós mesmos não esquecer esse dia, e afinal a azáfama dos dias o remeteu para só agora recordar . Eu sei que vocês se lembram, só que como eu devem não falar dele há muito. No entanto, não fosse ele tão importante e passaria mais uma vida ou duas sem o memorar. Então cá estávamos nós em amena cavaqueira, felicidade, alegria, amizade e por aí...O cenário era perfeito, verde sem conta, azul puro, cheiro de mar por todos os lados e boa disposição com sorrisos rasgados. Estávamos de veras encantados com os Açores. Andávamos na vontade desmedida de beber tudo num solvo...e nesse dia o programa há primeira vista em nada se assemelhava, aos longos banhos nas cascatas, aos mergulhos nas águas e à descoberta de vales encantados. Íamos nós para um lar de terceira idade e rodeados de mar por todos os lados. Chegamos e logo ali ficamos deslumbrados, dividimo-nos por tarefas e pisos, a mesma alegria de sempre, lá nos éramos a novidade. Enquanto uns iam descascar batatas para a cozinha, outros iam para os quartos, outros até estender roupa (sim não me esqueço Nuno foi das melhores visões que já tive até hoje). Prestar auxilio era a nossa missão, no entanto foram eles que nos prestaram sobretudo ao coração. De quarto para quarto, deixávamos os tabuleiros de comida sentados nas camas falávamos, e eles com gestos retribuíam. Comemos a melhor sardinhada de sempre, numa semana rica em arroz. Tiramos a barriga de misérias, mas sobretudo a alma. Quando me pediram para ir levar a comida aquele quarto, não esperava encontrar alguém assim. Entrei e pediu-me para lhe dar a sopa à boca, os meus olhos estavam espantados com olhos tão azuis e cristalinos, com um cabelo cor de prata e uma pele tão branca...mas estavam ainda mais espantados com a sua conversa. Foi sobretudo da solidão que ela nos falou, dos livros, da vida e dos afectos e ficamos ali sentados embasbacados como se só naquele tivéssemos percebido que há tanto por fazer. Sentimo-nos tão bem em estar a proporcionar um dia diferente a alguém, que foram estrelas que pairaram sobre a nossa cabeça. E a despedida essa foi dolorosa, sabíamos que não íamos regressar. E quando ela nos perguntou se amanhã voltaríamos outra vez, com uma esperança nos olhos. Foi um nó no estômago por saber que não voltaríamos, e com uma voz trémula dissemos que não. Lembro-me das palavras que proferimos quando saímos - Espectáculo ainda bem que viemos. Coisas úteis ao coração.

terça-feira, julho 11, 2006

Família feliz...

Ontem, andava não indecisão de comer ou não. Não se tratava de fome, nem de estômago farto. Era mais a hora que ditava a rotina dos dias, àquela hora todos provavelmente estariam a almoçar, ou já teriam terminado. Eu estava ainda a decidir.
Entre a busca positiva ou negativa da questão, uma família anunciava que estava oficialmente de férias. Não gritaram, mas nos meus ouvidos ecoou como se tivesse dito directamente para o meu cérebro. O carro familiar, pequeno, modesto, simples, sem grandes luxos, nem aparatos carregava uma auto tenda de duas rodas que ostentava está sim, todos os adereços para uma longa estadia. Sacos de cama, colchões, bancos, e a minha mente a imaginar o que estaria lá dentro, provavelmente eram pratos, talheres e uma casa mudada. No veículo apenas três pessoas, pai, mãe e filha. Os dois passageiros da frente encontravam-se literalmente a caminho do paraíso. Os tão ambicionados 15 dias de férias, num ano de trabalho e junto à praia. Já para passageira do banco de trás, que mal se via com tantos sacos ao lado, eram 15 dias de puro sofrimento. Não fosse o telemóvel e estaria totalmente perdida. Já não via a hora de estar a arrumar a tralha e toca a vir para cima. Nesta idade ir só com os “cotas” é uma tremenda seca. A viagem ainda era longa pela direcção que seguiam decidi que iriam para Monte Gordo, mas antes era tempo de alimentar. Nada mais prático do que parar nesse sítio da comida de plástico, uma coca-cola, um hambúrguer, batatas fritas e a economia do primeiro dia estava feita. O preço do combustível não dá para grandes luxos. Olhei bem para eles e eram felizes, tinham os anos programados, esperavam pelos 15 dias de férias, provavelmente já conheciam os vizinhos do parque de campismo de partilha ao longo dos anos, de manhã iam ao pão, vinham cedo da praia para assar o peixe, dormiam a sesta debaixo dos pinheiros, voltavam para a praia, voltavam para jantar e à noite saiam na calçada à beira mar. E não era preciso muito, apenas o que o dinheiro dava, era preciso sim que tivessem juntos e de férias.

segunda-feira, julho 10, 2006

Hoje

Hoje a luz entra com mais força por a minha janela ou serão os meus olhos que ainda estão na noite?

terça-feira, julho 04, 2006

Sal...

O doce, o amargo e o salgado fazem parte do paladar de qualquer um. No entanto, apenas uns os saboreiam plenamente. Se o doce é difícil de encontrar por estes dias, já o amargo cruza-se por nós em qualquer esquina. Tudo o que pica e sabe mal surge na mente, nas vistas e deleita-se pensado ignorantemente que para nós é algo de muito bom. Sabores amargos é o que por aí mais há e nascem quase sempre de pessoas desagradáveis, intragáveis e mesquinhas em todo o sentido da palavra. Bombons com recheio são raridades escassas, quase só na época das cerejeiras surgem caprichos que adocicam a boca. Eu guardo sempre caroços permanentes na minha existência, para açucararem os meus dias ao longo de todo o ano, autênticas relíquias, imprescindíveis, raras, mas que ainda existem.
Mas o salgado anda espalhado por ai, ao alcance de qualquer um e tão poucos o notam. Ignoram e retiram-no do corpo como se de uma doença contagiosa se tratasse. Sempre que posso entro em pedaços de NaCl e considero-o néctar para a pele, para a vida, e sobretudo para a essência dos dias. Nada me deixa mais leve, nada como ele me afasta nuvens escuras...nada me sabe tão bem. E quando chega nesse cenário de diversidade colorida, em que os actores são todos componentes puros, é ingrediente perfeito e nada me demolha tão plenamente. Fico ali a conservar, apenas o que de melhor existe nesse momento, silêncio absoluto. Deixa-me apta e entra-me por entre os poros e cada vez que os meus lábios o tocam, surge a melhor degustação paliativa. E fico em estado incontaminado. E quando adormeço com ele por os membros, pela mente e pela noite fico leve e flutuo uns centímetros acima dos lençóis. Se o amargo é indigesto e nojento, se o doce anda contado pelas palmas da mão já o salgado esse, abunda em estado líquido e que sorte nos dias que correm.

domingo, julho 02, 2006

RAP...

Sol quente, tão quente que os poros mal respiram. O mesmo caminho de sempre, aquele que me leva de regresso a casa. Não tenho por hábito dar boleias a desconhecidos, no entanto ali estava ele debaixo de temperaturas elevadas. Não era propriamente um desconhecido, conhecia-o de vista, o suficiente para saber que não me faria mal. Mas encostei, fez uma cara desesperadamente de alívio, aguçou ao olhar e acho que ficou feliz por me ver. Logo aí, nesse instante não me arrependi de ter parado. Sentou-se e perguntou-me se podia abrir o vidro, calor a mais. Poucas palavras, um constrangimento de quem não tem muito assunto, mais da minha parte do que da dele. A sua história de vida eu sabia, embora que vagamente. E imaginava também o que ele estava a fazer naquele lugar. Mas, mesmo assim, para quebrar o silêncio lá fiz a primeira pergunta – Então agora estas por cá? Não sei se era bem isto que queria dizer, mas foi o que saiu – Sim, aqui estou melhor. Sabes, reduzi a metadona para 17, no princípio do tratamento estava em 70. Senti-o confiante no seu feito e a mim senti-me sem saber bem porque metia eu embaraços. Ele encarava melhor a situação do que eu e ainda bem, sabia lidar com ela. Mais uns longos minutos de silêncio e eu a absorver tudo o que ele me estava a proporcionar, essas coisas que fazem crescer. Do nada um pássaro planou sob o vidro do carro, uma sensação de liberdade perfeita, reparei que os seus olhos viajaram com ele, tentei imaginar o que lhe estaria a passar em mente, mas achei que foi somente o que passou na minha, leveza sem limites. Perguntou-me o que eu fazia, e pela primeira vez apresentamo-nos formalmente. Acho que ele ganhou confiança, a suficiente para me perguntar se eu gostava de RAP. Levaria mais uns minutos e o som do carro era RAP francês. Naquele momento as barreiras estavam quebradas, a partilha de uma música aproxima qualquer um. O resto da viagem foi feito sob este ritmo. Reparei que ele estava tão empenhado em absorver os sons que decidi não interromper. Chegamos ao destino final. Saiu e pegou-me na mão com o agradecimento mais sentido que me proferiram até hoje, dei-lhe a cassete de RAP e ele perguntou-me: - Não queres ficar com ela para ouvires melhor, depois dás-me. Mas achei que ela lhe faria melhor a ele do que a mim. Hoje, voltei a encontra-lo e levava os phones nos ouvidos, por certo que era RAP o que ia a ouvir, de longe acenou-me e fez-me adeus e agradeci-me infinitamente por ter parado nesse dia.

terça-feira, junho 20, 2006

Sentir em estado puro...

Os que me conhecem sabem bem a paixão que tenho pelo sul, nomeadamente, pelo Alentejo. Aos que não me conhecem também rapidamente faço perceber esta minha perdição. Não sou apologista de qualquer tipo de fronteira, mas sou uma defensora das culturas regionais. Sim, nós somos diferentes, e é dessa diversidade que nasce o rico neste país pobre. Sempre me apercebi apenas das coisas ricas desta região dourada, com cheiro característico, que só quem a bebe sem ter sede dá conta. Sempre passei a mão pela terra e nada vi para além dela, sempre mergulhei na Costa Vicentina e apenas lhe reconheci o dom das melhores praias, sempre olhei para o céu numa noite quente de verão, com a sensação de ser mais estrelado aqui do que em qualquer outro lugar do mundo. E agora encontro aqui na minha terra de sonho real, senhores de poder, com cargos poderosos como eles. De gravata, de fatos, na terra dos camponeses, de BMW´S nas estradas rurais, em busca de um bem-querer desta terra desmedido que mais não serve para servir os seus interesses. E de peito aberto juram fazer por ela a estrada do desenvolvimento, mas em arrelias pisam-se uns aos outros. E jogos de interesses não combinam com ideais, não fazem paralelo com solos férteis, não ecoam nas vozes dos grupos corais e não sentem o vento na seara. Senhores de poder será que podiam sentir esta região em estado puro?

segunda-feira, junho 19, 2006

Carteira Profissional para rimar com oficial...

Há aqueles dias em que os dias são somente dias. Nada além do tempo que surge em demasia. E porém é nestes dias que a mente se encarrega de encher dessas coisas que momentos normais não lhe dão crédito. Adio sempre para pensar o que realmente me assusta para amanhã, ou quem sabe para depois, porém hoje não deu para adiar. Recebi a minha carteira profissional, é mais uma coisa que parece um cartão Multibanco, no entanto esse bocadinho de plástico reveste-se de poderes inacreditáveis. Olhei para ela e tive a sensação de já não haver volta a dar, tinha uma profissão. Olhei para ela e vi um misto de felicidade e desespero. Sempre me ocupei em fazer o que queria, mas sempre me ficaram em mente as coisas que poderia estar a deixar pelo nada com a minha opção.
Então, agora tenho pegado neste bocadinho de plástico com o meu nome gravado vezes sem conta e ainda não fui capaz de o retirar da mesa-de-cabeceira. Volta e meia subo as escadas e lá está ele a olhar para mim. Decidi então sentar-me a seu lado e ter conversa séria. Perguntei-lhe vezes sem conta se era mesmo para mim que queria vir, se tinha consciência que eu podia falhar ou simplesmente me desiludir. Voltei a verificar se o nome era mesmo o meu, mas a minha fotografia não engana, sou eu estampada a cores. Expliquei assim que corria o risco de ter sido editada em vão. Deixei bem presente e claro, todos os meus receios, na esperança de ela (carteira profissional) me dar respostas. E encontrei-as, mas mudas. Ela não se manifestou, mas resolvi percorrer este percurso como qualquer outro da vida, também não há muito a fazer.
No entanto, fizemos um pacto – convidei-me a ver o que ela de melhor têm para me dar, em troca, prometi fazer o que melhor sei. Afinal ela ainda não é definitiva. A ver vamos se nos entendemos.

quinta-feira, junho 15, 2006

Orgulho desmedido...

Durante toda uma vida ouvi falar dele, imagino sempre que tem as mãos grandes de ternura, as faces rosadas e um sorriso rasgado no rosto, como quem não se preocupa com as coisas mínimas da vida.
Na minha cabeça faço cumes de ideias e cada vez que vejo aquela curva não me deixo de arrepiar, numa vontade desmedida que ela jamais tivesse existido. E é estranho sentir saudades de alguém que nem conhecemos. E então ainda foi no outro dia, num fim de tarde perfeito, com aquele calor típico do verão, onde o sol ganha a sua plenitude e estatuto máximo no céu, que se viraram para mim num tom longínquo do tempo que não volta. – Sabes Bruna, o teu avô teria agora a minha idade? Depressa me captou a atenção esse meu amigo, com o triplo da minha idade, que me fez perceber o quanto custou a liberdade com histórias sem conta e uma vontade de viver inquieta.
Senti um nó no estômago, desejando que pudesse mesmo ser verdade e depressa me correram, como quem corre em auto-estradas palavras, essas que me dizem quando menos estou a espera e em que ele é sempre o assunto. – Grande amigo, dos melhores homens que conheci, coração do tamanho do mundo, para ele estava sempre tudo bem. São estas as frases que vou ouvindo de boca em boca e cada vez que as oiço surge uma leveza que me faz flutuar para longe, e é das poucas vezes que sinto orgulho em mim, por me associarem a ti avô.

sexta-feira, junho 09, 2006

Pais de Família...

Parece-me a mim que de um momento para o outro, todos são pais e mães de toda a gente. Se não veja-se aquando da decisão do supremo tribunal de justiça, que considerou que “fechar crianças em quartos é um castigo normal de ‘um bom pai de família’” e agora um padre director da casa do gaiato de Setúbal, que perante os jornalistas não hesitou em dar uma estalada a uma criança de seis anos. Mas este explicou, “Não lhe dei um estalo, bati-lhe com a mão para ele se ir embora”. Como não sendo suficiente o argumento católico, digo eu, fez-se mais claro e evocou as morais familiares: “Isto não foi um mau trato, foi um bom trato. Não me viu antes agarrá-lo ao colo, acariciá-lo e beijá-lo? Sabe quem faz isso? Um bom pai de família”.
Perante tal situação só posso dizer que os bons pais de família andam espalhados por este Portugal dos pequeninos e retrogada. E digo mais, vai chegar o dia em que o cinto de fivela vai voltar a sentar-se à mesa dos portugueses. Vamos regredir à boa e velha educação. E muitas mentes devem agora estar a pensar: Deus nos valha. Mas, ao menino e meninas, deste país não lhe tem válido de muito, mas talvez esta estalada vinda de mãos portadoras de fé tenha outro significado: A de vais fazer-te homem de barba rija, desprovido de sentimentos puros mas duro na queda. E beijarás a mão de quem te abençoa. Vergonhoso, digo eu.

quarta-feira, junho 07, 2006

Estrada/Berma...encontros do acaso

As estradas quase sempre não levam a lado nenhum, é mais a vontade de ir que corrompe o caminho. Porém há coisas nas estradas que nos despertam a atenção, vertigens que lhes quebra a aparência negra, salpicada por traços brancos – muitas vezes pensei mudar-lhe a tonalidade, mas cheguei à conclusão que preto é o mais apropriado, sujidade a mais para cores com vida – mas, devaneios à parte, sobre um calor quente e abrasador desses em que a estrada parece flutuar, onde eu já vou colada na nesga da mente, bem poderiam surgir choques frontais. No entanto, surge, no meio do nada, nessa hora onde todos recolhem por o sol escurecer em demasia a melanina esse ser vergado, com as pernas bambas de vir de longe. E ali na berma repousa nos seus 70 e picos anos (ou mais), à espera não sei bem de quê. Baixa aos olhos quando passam sofisticados animais de quatro rodas, poeira a mais pelo ar, vento a mais para a sua estrutura óssea. E ali espera em mangas de camisa, na árvore que por sorte acolhe sombra vasta. E qualquer dia paro e pergunto-lhe se quer uma boleia, só não sei bem para onde…

quarta-feira, maio 31, 2006

Lisboa abaixo, Lisboa acima...

Rua acima, rua abaixo. Esquerda, direita, um folgo de ar, uma batida. Duas pernas a andar e simplesmente um sorriso no lábios. Largo, rasgado, grande, enorme…Nessas ruelas estreitas, por entre paredes, por entre muralhas, aviões, carros, peões verdes e vermelhos. Confusão sim muita, mas eu gosto desse rumor nos ouvidos, não me fere a cartilagem. Nessa calçada cheia, repleta, nessa voz que me chama, que me aquece e me devolve sempre que necessário. Janelas e portadas altas, tudo alto, tudo no cimo. Pendurada em lençóis brancos por entre o corpo, descendo escadarias que arrefecem os pés. Desamarrota o céu, encaixa-o no rio e segue a rebolar por as colinas, em pé-coxinho e chinelos de dedo com terra nos calcanhares. E sobre os carris, sobre as caras de ninguém tu tens rosto, e eu conheço-o também.

domingo, maio 28, 2006

Porque afinal tu (tempo) não alteras nada....

Tempo para, não andes, fica mudo, imóvel, canta ou simplesmente que tu te danes.
Foi isto que me apeteceu dizer-lhe a esse senhor que faz as horas andar, que faz as coisas gastarem-se, que faz as coisas terminarem. Maldito tempo, despejar toda a minha raiva nesse impositor, nesse ditador. E depois pensei por mais voltas que dês não me encerras e não me irritas. Gira em ponteiros que é só mesmo o que sabes fazer. Eu cá giro em torno de coisas, em pedaços de material puro, em sorrisos e olhares brilhantes. E o tempo pode ter sido curto, dias, anos não chegariam…mas chegaram-me os vossos abraços, chegou a cumplicidade, as gargalhadas que fazem amarrotar a barriga, essas coisas intermináveis que nunca mudam…e já fazia muito tempo que não nos víamos, o que so prova que ele (tempo) não altera mesmo nada, porque há momentos, que são vidas.

segunda-feira, maio 22, 2006

Coisas simples...

Andei a vaguear por aí perto de nada e perto de tudo. Andei em círculos e em rectas, andei somente nesse espaço. Peguei nas mãos e metias nos bolsos como quem não tem nada que fazer, peguei nas pernas e fiz com que andassem. Um, dois, três...não carneiros, são caroços que enchem a boca. São nêsperas amarelas, nessa minha cor de infância que era pirosa, até então e que agora esta na moda. Os lábios molhados e em redor da boca somente desliza esse sumo que cola e que me reporta para aí dez anos atrás, doze os que queiram façam é de mim criança (e como era bom, imaginem muito tempo se quiserem eu não me importo). Enfim tudo isto para dizer que ainda não aprendi a comer sem me sujar, tarefa quase impossível na minha diária. Adiante há dias em que não acontece nada de especial, mas digo-vos este sabor na boca, esta falta de formalidade tem sabor... o gosto dos dias, pequenos prazeres que fazem dias cheios (e gosto mais disto do que ouvir mentes vazias).

quinta-feira, maio 18, 2006

Apenas uma questão ergonómica...

Sempre se quer mudar alguma coisa, que mais não seja a mesa de sítio, o quadro de parede e os sapatos de lugar. Sempre se quer, porém apenas coisas simples, coisas banais que não incluam grande esforço mental e que não alterem muito a rotina de seres comodistas, que receiam a mudança. Querem mudar-se assim, essas coisas fáceis que não criem conflitos , que não acabem por ser um problema, quando o problema consiste mesmo no deixa andar...Mas por cá tudo bem e tudo ao contrário. Criticas muitas, alternativas poucas, movimentos escassos, soluções nulas, vontade inexistente. Agir é melhor então nem pensar nisso. Então no país das maravilhas vamos mudando os móveis, vamos trocando de carro e lamentando. Porque aqui as coisas até são prováveis que caiam do céu. Porque mudar queremos, falta é a vontade, o tempo e essas coisas que nos retiram horas de café, de sono e afins. Mas tudo bem, talvez seja melhor pensar se a cama não ficaria melhor ao contrário, não é por nada em especial, apenas por uma questão ergonómica, porque assim até parecemos inovadores.

segunda-feira, maio 15, 2006

Intensidade Momentânea

Hoje apenas assino saudades...
Escassamente para que não aumentem.

quinta-feira, maio 11, 2006

Pensamento

A sensatez nem sempre é sensata para quem a pratica, cheguei a essa conclusão hoje. Sim, pode ser o mais correcto, mas nem sempre o correcto é o que realmente se quer fazer. Sensatez, insensata portanto.

Descrição I

Uma arcada, uma janela com vidros fuscos, duas ventoinhas respiratórias, tudo artificial portanto, mas eis que se abre a janela de portadas pequenas, um rectângulo e somente verde...barulho dos pássaros e um ponto rosa... é uma flor. Digo-vos que até as ventoinhas já nem parecem tão feias assim.

quarta-feira, maio 10, 2006

Coisas relativas...

Ele há coisas relativas, coisas que pesadas na balança dos dias dão apenas uma e por vezes nenhuma.
Ontem ao subir a rua, essa de calçada larga ia a pensar o quanto custa a satisfação plena. O quão difícil é o contentamento humano, digo-vos mesmo que por vezes preferia ser bicho (sei que já o sou). Então cá ia eu e o dia normal como sempre, nada de grave, nada de preocupação, nada de perda, somente o dia, ainda assim parecia faltar alguma coisa. Irritada com esta falha, que não me fazia desfrutar e a pensar quanta gente estaria a passar por mim, com motivos reais para estar enfadado e a odiar o poder estúpido da minha mente. E eu tudo bem e tudo mal. Continuei mais um pouco e acho que a cabeça já estava longe, acho que mais perto de coisa nenhuma. Já nem a pensar estava, e eis que oiço uma voz, daquelas transparentes e genuínas. Menina, dá-me um cigarro? E eu imóvel pela melodia que saia dos seus lábios – Não fumo! E ele - Melhor assim! Era alegria que saia dos seus olhos, era vida, eram notas de sol e era mendigo.
Ele há coisas muito relativas.

sexta-feira, maio 05, 2006

A melhor notícia do mundo...

Cheguei um pouco atrasada, mas soubesse eu e teria corrido só para ter sabido mais cedo. Há anos que ando a esperar eu e mais uns milhares, há uns anos que nos tinham tentado retirar a alma ou a fonte de desenvolvimento, mas em vão, ninguém apaga o intrínseco o crescer, viver e por aí. No entanto, só quem sente apego pode perceber o que tento dizer, só quem sabe o que é o cheiro do minério misturado como o do campo, percebe o significado destes sorrisos rasgados.
Não sou do tempo áureo desse porto de modernismo e avanço do País, mas sou do tempo de laboração, e é q.b. para saber como era e com é.
Todos os dias atravessava esse bairro pela mão, com um chapéu na cabeça, dava passos grandes, demasiado até para o meu tamanho, para poder acompanhar e chegar a horas de entregar a cesta de verga, com o pano aos quadros que embrulhava a marmita para não arrefecer. Atravessava a gruta que dava acesso ao outro lado, lá dentro uma escuridão e depois um monte de homens com as caras tisnadas e luzes na cabeça.
Era num folgo que corríamos para ver o elevador descer para o centro da terra e ali ficávamos parados agarrados aos ferros, a ver o quão fundo ia. Eram os vagões o nosso melhor esconderijo e motivo de piqueniques, pedras de minério que brilhavam ao sol pesavam nas mochilas ao regressar para casa. A terra das rochas o melhor cimento para esculturas, desenhos e brincar aos adultos. A água forte o nosso maior receio, diziam que quem caísse para lá já mais voltaria a vir, contornávamos essas lagoas de água castanha, vermelha mandando pedaços de coisas para ver o que acontecia...Só mais tarde percebi que só com o tempo corroía.
É por todos estes motivos e mais alguns, por amor sim no sentido mais puro, que hoje os sorrisos me escorrem, que os olhos brilham e se enchem de pedaços de sal. A desconfiança é algo a que nos habituamos, mas hoje parece ser mesmo a sério e a notícia ecoa de boca em boca, e cada vez que alguém me encontra tão feliz e alegre no seu entusiasmado como eu, me diz: Já Sabes, a mina vai reabrir! E são pedaços de coisas genuínas, enrolados no desejo de voltar a ver a azafama e raiz cultural de um povo a renascer, que me faz hoje ancorar as melhores coisas que se possam imaginar no músculo. Hoje não vos sei explicar só mesmo sentir...

quarta-feira, maio 03, 2006

1+1+1+1+1......=.....

Somos mais do que a conta, as vezes penso até que somos mais que o possível. Grãos de sal, de areia, de açúcar e de tudo o que escapule por entre os dedos. Coisas incontáveis, com resultados infinitos...onde o número não cabe no visor electrónico da máquina de calcular (essa que pensa por nós, essa que nos desapega de qualquer raciocínio). Não consigo quantificar, por isso parece-me muito, uma mão cheia de coisas de um novelo enrolado em mil voltas, e de bolas de sabão pelo ar, qualquer coisa que supere os números. Somos os que somos e ainda bem que são tantos ou tão poucos (depende da visão, opinião e imaginação) e que se junte quem vier por bem...