terça-feira, março 21, 2006

OPA'S

Há algo que me anda a fazer uma tremenda confusão, algo que faz fervilhar regos de veias sem direcção que dão estalos no cérebro. E então lá tento encontrar uma justificação, para tantas diferenças de bolsos, de carteiras ou como lhe queiram chamar. Resumidamente a acentuada discrepância entre o rico e o pobre. Há uns anos que oiço dizer que os portugueses tem de apertar o cinto, e eu ando com ele no último furo. Ando a fazer ginástica, a esticar, a dar várias utilidades de maneira proveitosa, a inventar fundos a guardar os trocos de 5 cêntimos, de 1 cêntimo enfim...a fazer o que a população anda a fazer em geral. Mas depois ligo a televisão, ligo o rádio e a mente e nos ouvidos ecoam OPA'S...acho que muitos ainda não perceberam o significado disto...então não são mais que ofertas públicas de aquisição. E depois pergunto então mas nós não andamos pobres? não andamos em aperto ou são apenas alguns?...Ainda temos condições de fazer OPA'S, derrepente tudo quer adquirir tudo...Portugal o país que não corresponde ao nível da união europeia...mas em grande escala de vamos comprar-nos uns aos outros...! E eu a pensar...afinal qual é a nossa situação? Assim até parece que somos grandes (ricos, desenvolvidos)...e depois seguem as notícias...o desemprego despara, o endividamento das famílias aumenta, as dívidas ao fisco sobem, o consumir bens hoje mais parece uma relíquia , pagamos portagem...e depois penso, não afinal está tudo na mesma...ainda acordei em Portugal...

P.S - e eu adoro este País não suporto é o que fazem com ele...

Cartoon de Luís Afonso....brilhante como sempre e ilustra bem a situação...

quinta-feira, março 09, 2006

Passatempo, actividade da mente...imaginário!

Há por ai muitas vidas que me interessam...muitas mesmo. Todos os dias desço e subo essa calçada, daquelas que os saltos altos detestam e que quando ando com sapatos sem altura me desfaço em agilidade. Enfim essa mesma calçada conduz-me sempre ao mesmo local, mas nem queiram saber a diversidade que ela contém. É povoada por seres que o meu imaginário tenta decifrar, sempre tive este passatempo de tentar adivinhar, supor, alegar hipóteses, presumir, conjecturar e todos esses adjectivos possíveis que definem a minha actividade cerebral de tentar perceber o que fazem e como são cada um destes seres da calçada. A mulher de verde, nome que lhe atribui bem poderia ter o nome de Teresa. Monetariamente parece não apresentar qualquer problema visto o carro que ostenta, parece ser segura de si e uma mãe de família daquelas que deixa os filhos no colégio antes de vir para o trabalho. Daquelas que não se preocupa com o almoço porque o marido não almoça em casa, os filhos comem no refeitório da escola e ela come uma sopa para manter a linha, no mesmo restaurante de há anos. O homem do casaco de pele, passado de moda há anos, com uns óculos que não o favorecem é o típico chefe de família que passa férias em Quarteira, imagino que seja aferidor de balanças ou algo do género. A mulher cusca nome apropriado para quem tem pinta de vizinha que sabe todas as novidades do bairro. Que se desfaz em simpatias e em seguida roga pragas. Daquelas simpatias hipócritas como lhe costumo chamar. E o Joaquim (nome artístico da minha mente), homem porreiro para beber uns copos, para petiscar, para rir...o típico acolhedor que faz os turista apreciar a simplicidade e levar recordações de boa gente! Tem cara de oferecer vinho tinto, chouriços e iguarias da região. Mas nesta rua estreita há algo que me transcede nesta rotina matinal. O homem da carrinha cinzenta, nunca o vi em actividade, nunca o vi para além da cintura encontra-se sempre no mesmo sítio dentro do automóvel de mercadorias , e entre o vidro vejo o bigode e pouco mais... parece aguardar eternidades. De manhã já lá está, a hora do almoço lá está....então pensei deve esperar por alguém que trabalha por aqui...mas depressa se me desfez essa hipótese. É que ele passa ali horas em excesso...em demasia para esperar...podia ir beber café, sair do mesmo local de sempre, ir dar uma volta e depois regressar mas não...só me faz pensar será que o homem da carrinha é espião?

quarta-feira, março 08, 2006

Inutilidade...

Desculpem-me os metódicos, os organizados, os que tem post-its amarelos pela secretária, pela mente e pela vida. Desculpem-me mas não consigo seguir uma rotina, não consigo planear o meu dia, não encontro espaço para a arrumação das minhas horas. Decidi então deixar de tentar dar utilidade a uma agenda...sempre me pareceu adulto querer ter um caderninho que me alertasse para tudo o que é essencial, eu juro que o comprei vezes sem conta...que nos primeiros dias me esforcei para escrever o que não me esquecia de ter de fazer, mas insistia para ter a sensação de ter uma vida repleta de actividade...mas decididamente agendas não são para mim...! Tinha a sensação de estar a escrever para mostrar aos outros: - olha repara hoje não tenho tempo, amanhã ainda pior e depois nem queiras saber...compromissos e mais compromissos...e afinal no bloco de argolas até parece muita coisa e afinal depois quantificado é apenas a vida normal...trabalho, exposições, cinema, família, desporto, sair com os amigos e essas coisas úteis dos dias...Cheguei a conclusão que agendas apenas servem para tentar vislumbrar a mente dos que precisam de se lembrar que têm uma vida...e depois alguns de vocês podem estar a pensar: - Isso talvez sejas tu que tens poucas coisas para fazer, então é fácil lembrares...pois eu digo tenho muitas mas são tão intrínsecas que é impossível me esquecer de viver e do que me faz viver...mas pronto para quem gosta de agendas eu tenho é boa memória ok!

segunda-feira, março 06, 2006

Fragmentos...

Há muito tempo ou não há tempo assim, afinal o espaço sempre parece longínquo quantificado em datas mas curto em vivências. Andava eu não ideia de ser publicitária mas sem saber ao certo a vocação. Acho que ainda hoje não sei, é que a dúvida sempre me suscita, certezas é algo que não permanece em mim. Pode ser defeito eu digo mais que é feitio mas as opiniões são dispares por isso aceito qualquer adjectivo. Enfim na faculdade propuseram a leitura de um livro intitulado: “Cartas a um Jovem Jornalista”, inconscientemente vi-me tentada a ler. Acho que o bichinho já estava criado mas a minha mente tinha ainda outro intuito que era a aclamada criatividade da Publicidade. Levei umas horas a ler, sublinhei voltei a ler vezes sem conta afinal eu tinha a hipótese de ir para Jornalismo. Televisão não me suscitava qualquer tipo de interesse considerava-a um debitar de conteúdos sem interesse. Rádio, fazia-me associar a grandes vozes, a minha passa despercebida num grupo de dez pessoas quanto mais em milhares, só o sotaque do sul me distingue e isso fora do meu habitat. Mas jornais, esses sempre me tisnaram os dedos, a escrita sempre me perseguiu em blocos de notas, em folhas rasgadas enfim várias vezes em mente. E eis que o livro me mostrava agora o tempo do jornalismo, e percebi que os diários tem o ciclo de vida de um dia. O autor dizia que jornais velhos servem para limpar as pingas da tinta no soalho, para enrolar copos nas mudanças, para atiar o fogo… já ninguém quer ler notícias de ontem! Hoje tive essa prova, sai da redacção para ir fazer uma reportagem, cheguei ao local e mesmo diante os meus olhos uma parede branca coberta de jornais desmembrados em folhas soltas misturados por os vários títulos nacionais serviam de decoração do evento…Olhei mais a fundo e começo a ver bocados de notícias escritas por mim, essas mesmas linhas que me tiraram o sono, que troquei mil vezes as palavra em procura de um melhor significado pregadas aos pedaços num mural, sem nexo, sem sentido, a servirem de papel de parede…Só um sorriso me brotou na face, confirmei o livro que me tinha feito pensar no jornalismo, pensei no que fazia e deu-me gosto fazê-lo, afinal não é o tempo que conta mas a intensidade do momento…e depois quando percorro os arquivos dos jornais e leio notícias de épocas muito anteriores percebo que me fazem rever o passado melhor do que qualquer história! E acreditem que há por aí autênticas relíquias em arquivos, afinal ainda há lugares que perpetuam as notícias de hoje que para alguns já são velhas amanhã…mas é isso que faz a essência…Que hajam muitas mais notícias velhas todos os dias, para que possa dar muitas mais novas todas os outros dias que faltam percorrer…

domingo, fevereiro 19, 2006

Walk away...

As despedidas sempre trazem vincadas essas palavras torduosas que se incita ao adeus...
A esse adeus de ausência, não sei se de perda...Sinto pedaços a cair, a rolar por entre o vazio que espreita as fendas do corpo. Sinto mistos, meios de nadas, metades de tudo e no fim apenas essa curva do coração que palpita.
E em baixinho, em silêncio repito sílabas, repito, volto a repetir para que eu oiça. E continuo a enxergar de frente desse olhar que não dobra. E esse som outra vez que me lembra, que me recorda não de mim, antes o fosse é que as vezes é preciso ir para longe...


"and its so hard to do, and so easy to say ,but sometimes ....sometimes... you just have to walk away.... walk away... and head for the door you just walk away.... walk away.... walk away...just walk on... walk on... turn and head for the door....walk away"


Foto By E.M...

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Porque isto é um Blog...falemos de Blog´s...

Andei a vaguear por os blog's, cheguei a conclusão que a comunicação ganhou uma nova dimensão. Quando optei por deixar o papel (falso testemunho porque gosto do seu cheiro, da sua simplicidade e porque normalmente é o que tenho sempre a mão perto de uma caneta), mas adiante os blog´s dão-me hoje as novidades dos meus conhecidos, dos meus amigos e até dos meus desconhecidos. Reparei então que as cartas do correio, dessas que se esperavam anciosamente contendo pedaços de alguêm já não chegam mais. Cartas hoje apenas trazem contas para pagar. A intimidade o secretismo são hoje públicos, para mim q.b mas há por ai quem anuncie a sua vida neste novo espaço físico, nesta nova dimensão, nestes cartuxos diários de novas ideias e atitudes. Mas o rotina entrou-me vincada no corpo, sinto a necessidade de vos ler, de saber de vocês e de quem não conheço mas reconheço engenho. E então quando andava a visitar um blog eis o meu espanto quando reparei que há uma nova dimensão a chegar. Passo a citar: "Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Admito que me assustei, espanto, interrogação...e dei por mim a pensar que não era isto que eu pretendia de um blog...derrepente vejo as pessoas a comunicar mais aqui do que na mesa de café com os amigos...na sala de estar, nos corredores do trabalho...enfim locais onde a voz ainda ecoa...Ainda assim percebi a curiosidade que as mentes suscitam...é normal que aqui se revele o que os olhos nunca enxergaram...e quando reparei já eu tinha respondido a um questionário do tipo...mesmo no post anterior a este...É caso para dizer que os blog's contagiam...dou por mim a pensar, há por ai quem não tenha um blog?
P.S- Acabaram os questionários...resolvi tomar esta atitude para que os blog´s não passem a ser todos iguais em que eu descubro o que outros gostam de fazer e (blá blá blá)...isto é apenas um apelo as mentes...um apelo a criatividade...um apelo ao interesse...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Resposta as Questões....

Bem cá estou eu a responder ao desafio…colocam-me a pensar nisto e depois não sou capaz de quebrar essa vossa corrente…mas fique ciente que não foi uma obrigação mas sim um enorme prazer que me curvou os olhos


Quatro locais onde vivi:
1 - Bairro dos Eucaliptos…nessa localidade mais que perfeita
2- Nos Olivais…ano explendido até por motivos inacreditáveis
3- Em arroios…bons tempos
4- Nos anjos…não gostavamos muito de variar a zona descemos só um pouco a avenida

Quatro sítios em que já fui empregada:

1- Naqueles trabalhos para adolescentes, do IPJ…entre os vários recordo o Museu de Ervidel
2- Na permufaria da minha mãe…
3- Na loja da bruna não é minha fique claro
4- No Diário do Alentejo….actual…

Quatro filmes que poderia ver vezes sem conta (sessão contínua):

1- O clube dos poetas mortos… um hino à vida…
2-Cinema paraíso…composição perfeita, melodia, personagens, história
3-Forest Gamp…o melhor entre os melhores
4-A vida é Bela…porque não é preciso dizer mais
5-21 Gramas…porque no cinema ainda se fazem bons filmes.

Quatro séries televisivas que permanecem na minha cabeça:

1-Bocas…infância
2-Sexo e a cidade…por ser genial
3-Friends…porque me arranca sempre um sorriso
4-Seinfeld…o melhor dos humores…sem riso fácil..

Quatro sítios que visitei em Férias:

1-Açores…uma das maravilhas deste País a beira mar plantado
2-Barcelona…a cidade perfeita…pela vida, pelo quotidiano, pela arquitectura…por tudo
3-O malhão pelo prazer de sempre…a melhor praia do mundo
4- não consigo escolher outro por serem todos demasiado importantes...

Quatro sites que visito diariamente:

1- Blog’s…rotina
2- jornais…vicio
3- os site do meu trabalho…gosto e necessidade
4 -O google…o melhor ajudante virtual…

Quatro comidas que me fazem água na boca:

1-Puré de batata c esses bifes que so a minha avó sabe fazer…
2-Mariscos…bixinhos do mar
3-Peixe…uma relíquia a face da terra
4-gelados…por recordarem sempre o verão

Quatro lugares onde estaria agora:

1-Barcelona…
2-Peru…
3-Tailândia…
4-e depois percorria o resto do mundo se possível…

Quatro álbuns que "ficaram":

1-Trovante – “uma noite só” da melhor música que já se fez em Portugal
2-Ben Harper…Fight For Your Mind…presente em muitos dias nessas muitas fases da vida
3-Jack Johnson…On And On…pela tranquilidade
4-Coldplay…vários…
5-E muitos mais…

Não passo a nínguem em especial...fica para quem quiser responder...isto foi um excepção...

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

A propósito dos Fundamentalismos...

Não receei nunca a invasão dos fundamentalistas acreditei sempre nas palavras da democracia. A distância a que essas nações se encontravam de mim faziam o meu canto seguro. O estalar da mentalidade de lá sempre me fez confusão, mas sempre me mereceu respeito. Cada um com as suas crenças, ainda assim o exagero desses Fundamentalismos fazem enrugar-me a mente, como que a criar rugas nos poros. Guerras Santas em nome de Deus, desse mesmo Deus dos crentes, feliz de quem acredita em alguma coisa, eu não me converto mas respeito. Não sei é em que parte da Bíblia, do Corão se incita a violência. Não acredito que esse vosso Deus se encontre por isso contente. E quando hoje vejo armas apontadas a cartoonistas, bandeiras dinamarquesas a serem espezinhadas dou por mim a pensar que afinal esses fundamentalistas não estão assim tão distantes. Não acredito que não houvesse a intenção de provocar esse povo fundamentalista, aliás a discórdia reside sempre na maioria das mentes. É que é fácil atiçar o rastilho da pólvora. Há sociedades que estão preparadas para receber essas críticas, há outras que ainda perduram agarradas aos tempos...E ao recordar o tempo, apesar da polémica não houve guerra por se colocar um preservativo no nariz do Papá, mas é que Muhammed ainda preenche outro estatuto no mundo árabe. Ainda assim, há uma coisa que não abdico incondicionalmente - O direito à liberdade de expressão, desculpem-me os fundamentalistas mas os valores da democracia ecoa-me mais alto. Não prescindo jamais da liberdade, inclusive da de imprensa. Embora pense que há coisas neste nosso mundo, onde a fogueira esta sempre pronta a atiçar, que é necessário esperar pelo tempo. É o caso desses cartoons, não adianta contrariar um crente que esta convicto de si, ele nunca enxergara além da sua Íris.

Fotografia fonte: www.primeirodejaneiro.pt

sábado, fevereiro 04, 2006

Neve coincidente...

Não sei se os acontecimentos sem cruzam no tempo, se ficam pendurados por um cordel, ou pelo cordão umbilical. Acho que são mesmo as afinidades dos dias que repetem as boas coincidências. 1983 não foi assim há tanto tempo. Apenas o suficiente para definir a existência e não gosto de quantificar em números, acho que lhe retiram a essência, por me parecer sempre o dobro do que é, do que se sente. Dava eu os primeiros suspiros pausados, descansados e certamente inconscientes de certezas e de lembranças. No entanto, há quem recorde por mim e me tenha contado ao longo destes anos que a neve tinha caído quando nasci….nesses anos contabilizados mais pelos outros do que por mim…Frio, inverno, chuva nunca me atraíram, mas neve essa já me alegrava mais que não fosse pela diferença que quebra o clima do Alentejo. Aprendi assim, a gostar desse acontecimento ficou-me como referencia temporal e existencial. E não sou de acreditar no destino, mas já nas coincidências essas parecem fazer parte do meu destino. E desta vez não me contavam a mim que tinha nevado era eu que contava aos outros, que tinha caído neve na planície. E junto ao jornal que tinham guardado religiosamente durante estes anos, guardei eu agora a minha primeira notícia no jornal precisamente sobre a neve. Fico então a espera de que neve num outro ano….num outro tempo…porque parece que os grandes acontecimentos da minha vida se revestem de branco embora eu me identifique mais com o amarelo que aquece a alma e o espírito em dias solarengos.

domingo, janeiro 15, 2006

Monólogo...

Nos olhos pálidos pela falta de brilho, caem os dias, caem as noites. Escorregam as esperanças e alastram-se pelo corpo num cansaço trémulo, nesse mesmo cansaço já há muito anunciado mas adiado. A brisa arrefece a face, já não se reconhece, já não conhece outros propósitos além dos mesmos de sempre. Os mesmos fardos injustos e pesados. O relógio marca o atraso de viver a conta gotas. Somente o coração não abandona essa cor quente que inflama os poros. Ai comporta todos os sorrisos trémulos, adia todos os silêncios, aqui sente tremer cada toque, cada lembrança e cada nova chegada sua, dele…chegadas a dois e por vezes a sós.
Desdobra-se no tempo em mil pedaços, para perceber o que já não entende. Abandona-se a si na esperança de assim abandonar o que sente. E depois entre as palavras que se perdem, entre as interrogações que ficam permanece o mesmo feitiço de sempre. Desgarram-se os sentidos nessa batalha feroz, mas frágil. E onde fica esse lugar a salvo? Onde se preenche os vazios? Como a areia que escapule por entre os dedos, assim lhe foge o que anseia. Desfaz-se em qualquer coisa se possível, para que este rumo mude de direcção. Para que esta ferida que não sara, cicatrize. E ao menos se pudesse deixar de ouvir esse tic- tac do coração, essa batida frenética do gostar que entoa e faz eco no corpo todo. Ainda assim…seria mais fácil deixar de querer. E nos dias gastos sobram as sombras geladas como gumes perdidos, por falta desse sentir que abarca o espírito.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Visão anual II...

Lisboa com centro do meu mundo, rodeada pelas fronteiras da terra que sempre me circunscreve o Alentejo.
Sabia que este ia ser o ano das grandes batalhas, não receie as conquistas mas temi sempre as despedidas.
Andei na anciã de alcançar as metas e na saudade que elas implicavam. Pedi ao tempo para voltar, para parar, para ficar ao menos (ele o tempo), por mais tempo…
Mas ele não parou…Então agora já noutro ano…olho para trás…
E revejo cada momento com saudade e parece que não, mas é bom ter saudade é sinónimo de felicidade…
Terminei o curso e ainda agora me parece que a minha mãe me estava a entregar na sala da escola primária, para o meu primeiro dia de aulas.
Foi óptima a companhia de todos vocês…simplesmente foram quatro anos fantásticos.
Um óptimo verão pela companhia de sempre nos locais de sempre onde nós já nos confundimos com o espaço, porque afinal até já acho que somos unos. (Malhão…Ilha de Tavira, Carvoeiro e todas essas paragens as quais um bom filho sempre a casa retorna).
Depositei todas as peças sobre o tabuleiro e esperei pelos xeques-mates. Tardaram mas ensinaram-me a ser paciente. Sai de Lisboa, em minha mente parecia algo impossível. Terminara mais um ciclo…deixei de viver com os fantásticos, com a família, éramos uma espécie de livro os cinco. Mas é uma etapa amigos (vocês que sabem quem são) e cada um está a seguir o seu rumo e alias estamos sempre por perto, porque nós nunca nos separamos, porque andamos sempre a par e passo porque afinal são esses os verdadeiros amigos. De volta ao Alentejo, a aguardar mais uma vez pelo tempo. Novos hábitos, novas rotinas, novas caras…e termina o ano num misto de alegria e saudade.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Folgo de ar...

Nas manhãs de Inverno sempre se julga que a frieza do tempo é mais fria que a despedida. No entanto, o tempo mau vai com a chegada da primavera, mas a dor de sentir alguém a ir-se fica entranhada pelos poros da pele. E enquanto as temperaturas desciam, eu ouvia apenas essa voz de mágoa num misto de medo. E eu ali a sentir que o ar não faltava só a quem estava preso a essa cama, mas a quem se movimentava e lamentava a minha frente. Não me é ninguém chegado apenas um conhecido de rua de há anos. Mas nunca eu me sentira tão próxima de alguém tão distante dos meus dias, da minha rotina e dos meus hábitos. Mesmo que ninguém lhe pergunta-se pela vizinha Maria, mulher calma e pacata amolgada por alguns cardos da vida, mas feliz nos mistos sabia que a situação se agravava, era o meu caso. Com os dias era inevitável apenas uma máquina lhe sustinha a respiração. E quem sustinha agora a respiração a este homem (ao vizinho Manuel) que sente a escapulir pelos dedos a companheira de uma vida…a dor de quem sente a partida sem dizer adeus, de quem se sente ao abandono da sua sorte madrasta. De quem já não tem muito a perder e afinal perde tudo num simples folgo de ar. Entre um suspiro e outro eu ouvia – E agora que vai ser de mim? Nunca a solidão me esteve tão vincada no corpo. Nunca o desespero de alguém me ecoou tão alto nos ouvidos . E eu imóvel sem sorrisos alheios com a vontade de esticar a mão, mas sem a proximidade suficiente para abraçar. E inconscientemente pedias-me a mim, e a quem tivesse ali que pedissem por ti e pela Maria. E ainda que não acredite e não seja apologista da eternidade hoje se pudesse era a tua Maria que a daria. E se me pedes eu rezo ainda que não me converta, para que essa dor não seja tão fria quantos estes dias.

domingo, dezembro 18, 2005

Cavidade superior...

Concentrar todos os propósitos num músculo, aplicar a ele todos os sintomas de frio que abarquem o espírito. Torcer para ver se ele se liquefaz, ver escorrer mais do que nada, mais do que tudo.
Tudo se compacta na parte superior da cavidade de cores pintadas a mão por diversos autores. Alguns óptimos artistas, outros nem chegam a essa categoria…interpretam mal o seu papel e interpretam-nos mal a nós.
O cofre guardado a sete chaves, com um código difícil de decifrar…fosse ele fácil e não torcia nem remexia o corpo todo num avesso.
Concentro-me nele, nesse músculo por ser mais que pensamento…e ainda assim insiste em ficar com as suas duas faces que se transformam num embaraço. Não se dissocia, não se transparece…rege, amachuca, ri, é gelo, é lume…maior do que a chama. Concentro-me e ele é traiçoeiro e por vezes tão certeiro. Não fosse o coração o corpo inteiro.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Regresso...

Fora do tempo parecia estar esta manhã. O sol brilha nessa vidraça como passados dez anos atrás. É esta manhã que resolvi guardar, não por mim mas por ti…é estranho mas hoje irradiavas o brilho de outros propósitos de outras vontades, uma nova página embora que momentânea em minha mente. Ainda assim soube bem ouvir essas gargalhadas, soube bem escutar esse tom de voz, soube bem afastares os fantasmas. Não fosse somente três número perfeito e olha que hoje acredito que é mesmo, e todas as linhas que te corrompem seriam unas nestas horas. Confesso que estava quase a desistir, mas deste-me novo folgo, moldaste-me a caixa-de-ar e respiro mais pausadamente. E estou lentamente a colocar-me a abrir essa nova cortina que espreito através dos teus olhos que são os meus por afinidade, e por laços de sangue. E hoje o medo de te ver a ir já não me atravessa porque tu estás a regressar… lentamente a vir.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Efémera

Hoje enquanto me sentei no sofá liguei a televisão entre um programa e outro sem interesse, aparece uma efémera a aproveitar cada momento como se fosse o último...com apenas um dia de vida. Na sua condição de curta existência, a sugar a vida num só suspiro, a não se preocupar com o amanhã, sem passado, sem futuro apenas com o momento. Esqueci tudo o resto...esqueci as preocupações e a falta de amanhã. Esqueci a falta do hábito, a falta de exigência, a falta sempre de alguma coisa e afinal de coisa nenhuma. Dou por mim a pensar que a efémera não é diferente de nós o importante é saber viver...simplesmente viver, porque a vida essa também é efémera!
P.S. Excelente anúncio, excelente a mensagem!

quarta-feira, novembro 16, 2005

Espera no tempo...

Não fosse a data dos dias se alterar e não saberia diferenciar o ontem do hoje, não fosse pormenores e deixaria passar o tempo todo uno. Revisto-me todas as manhãs e aniquilo esse ar do sul que já tinha esquecido de sentir, andei aos soluços mas aqui eu respiro. Dizem que o tempo é de mudança então eu desço essa calçada coberta de musgo da estação, onde o frio gela a ponta do nariz e acredito que a descida me leva a porto seguro. Como é habito não tenho os dias marcados, ainda não posso riscar no calendário a chegada dessa nova etapa, mas aguardo e espero…não me ensinasse este tempo a ser paciente e já me teria perdido. Sei de cor cada esquina que curvo, sei as caras que por mim passam como se da minha se tratasse e sei quem me espera. Já sei decor a rotina dos outros como se a deles fosse mais horizontal que a minha. O autocarro passa todos os dias a mesma hora, cumprimento o Chico, tomo o carioca de limão na mesma mesa vezes sem conta, exercito e corpo e este alivia-me a mente. Deixo que os ponteiros corram e embrulho-me numa nova forma, ando a cochear mas não tarda e já me habituo aos passos desta nova dança. Esta síndrome de repetição alastra-se pelo corpo mas combate a espera. E com mil patas percorro a demora, com mil vontades encontro o ponto de fuga, com mil desejos afasto a falta, em mil centímetros me desfaço se necessário para percorrer metros. E que voltas daria eu se o tempo voasse…que voltas lhe daria se pudesse e já não o contabilizo apenas o espero…

quarta-feira, novembro 02, 2005

Boa tarde...

Esta é apenas a ínfima parte do dia, a ultima escrita da conversa. Por as entrelinhas ficam as explicações sobre as quais me perdi.
Hoje chegou uma sensação virada do avesso, como se me tivesse vestido ao contrário. Enrugou-me numa continuidade sem limites. E não sei se me faltaram os sorrisos ou simplesmente me faltou a vontade.
E assim fui amachucada, sem aparência, cinzenta e sem luz ao fundo do túnel. Ao virar da esquina surgiu um – boa tarde…estranho como poderiam estar a cumprimentar alguém com tão péssima cara enfadada no seu luto. Acho que nem respondi não por vontade mas por surpresa. E fiquei sem definição, sem ideia, sem reacção. Andei com o pensamento preso a essa boa tarde…que afinal não passava de uma péssima tarde. E a sensação essa já tinha passado mas ficara a desilusão…entre muitas que estão para vir. No entanto, que motivos para voltar a vestir-me do lado certo, que motivos para colocar o colarinho para frente e não as duas mangas no braço direito? Sim, porque era assim que me sentia torcida no meu corpo. Esse boa tarde foi uma quebra de assunto, uma tal urgência em mudar. Obrigado pelo cumprimento...afinal há sempre há hipótese de recomeçar em péssimas tardes…porque hoje como diria Alberto Caeiro - " sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura."

domingo, outubro 30, 2005

Atalhos do ser...

Não sei em qual das esquinas do ser se vira para norte ou sul...
Não sei sequer que direcção se segue, que caminho encurta as distâncias...
Na curva da espinha rodei para voltar ao mesmo sítio.
O pensamento sempre me desliza dos pés a cabeça numa descida rápida.
Como se o fim fosse sempre voltar ao principio.
E de todos os atalhos que encontrei nenhum me alterou o percurso.
Em todos me perdi pela vontade de não me querer encontrar...

domingo, outubro 23, 2005

Meia-luz...

Estava a meia-luz a lâmpada não ia além da corrente. Volts a menos para o escuro da noite. Não sei se era falta de energia supunha ser antes a vontade de claridade. Todos os movimentos lentos uma sensação nula, um vazio que chega pela falta de distinguir as cores. A esta hora do dia apenas os ponteiros avançam já tudo o resto se encerra. Ainda assim, o esforço de permanecer se pudesse a sentir a respiração, a ouvir o tic-tac do coração a pouca velocidade. E fica o tempo – demasiado tempo até – para contemplar o sentido desta vaga permanência, desta vaga insistência. Não posso sequer descrever porque giram agora as horas, mas sei que giram em torno do espaço que não se desloca mas que avança. E se viesse ao menos uma resposta, ai seria claro e límpido, mas nada apenas uma vontade de não adormecer porque hoje eu sei que ainda tinha algo para dizer.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Arestas que cortam...

Esta sensação não vale sequer uma batida acelerada do coração. Há falhas que o tempo compacta num cubo de arestas limadas sem volta de transformaçao e não num círculo onde tudo gira. Não sei porque ainda insisto em o querer esculpir, mas estas arestas já cortam...já ferem. Há que o guardar na prateleira deixar que o pó caia, deixar que a cor se desgaste, que o tempo o abata. Que fique nesse síndrome do esquecimento. Que se divida por vontade própria, não sei sequer que utilidade lhe daria...Hoje cheguei com a vontade de já ter partido, daqui ainda oiço essa voz, mas lentamente arrumo o meu cubo de quatro faces. E ainda que me desmembre em palavras, todas são uma ida sem retorno, todas são uma ultima gota de saliva. E já não fico mais a espera de ver esse cubo em circulo se transformar, já não me deslumbro, já nao o recrio, já não o invento, já não me ofusco...apenas o arrumo.
Imagem retirada da net