Hoje peguei no DN, não foi sequer necessário folhear as páginas para me arrepiar. Fiquei ali pasmada com tamanho choque, senti um frio que me consumiu por dentro, imóvel, com uma má disposição, ar a menos e raiva a mais. “Ataque de Israel à aldeia de Caná”. 37 crianças vitimas do mundo estúpido fundamentalista. A imagem não me sai da cabeça, e a indignação do corpo. Impotência...não consegui voltar a pegar no jornal...não me apetece ler. Apetece-me gritar em ouvidos moucos, chamar-lhes muitas vezes estúpidos, ignorantes, cobardes, mesquinhos, desprovidos, calculistas, absurdos, otários, palermas, adjectivos vários. Guerras em prol, simplesmente de nada. Aqui no nosso mundo Europeu condenamos o ataque e ficamos a espera não sei bem de quê! E eles que esperam lá amanhã...? E ainda nos queixamos, não sei bem de quê também...
segunda-feira, julho 31, 2006
quinta-feira, julho 27, 2006
Gente sem mente...
Como mosaicos espalhados pelo chão colados, agarrados mais fixados dos que os próprios pés na terra. Ideias ocas, de mentes vazias ecoam ao fundo de si, num gélido arrepio. Falam, gritam, esperneiam num avesso. Exaltam a voz, perdem a razão. Espalham ignorância pelo ar e riem em tom de troça, com a maior das certezas em assunto que não tem formação suficiente. E depois os outros calam, lamentam e no fundo é pena que se levanta.
quarta-feira, julho 26, 2006
Para dentro de mim...
Uma aquarela em tintas azuis, um dia em tons verdes. Um sorriso rasgado, vasto e grande. Um abraço que abarca mais do que tudo e mais do que nada. Sementes pelos pós mágicos de duendes caiem sobre o meu espaço. Devasto os lençóis e rasgo os membros. Flutuo na leveza dos sabores, entranho nos cheiros e afugento os perigos. Chego sem ser a horas marcadas, devasto o tempo, acalco o poder das regras, quebro a rotina e fujo para longe. Para tão longe que o mais perto é ir de novo para dentro de mim.
segunda-feira, julho 24, 2006
Muito Estranho...
Vi o Ricardo, não o via nem sei bem à quanto tempo...até pode parecer estranho ele é o meu vizinho da frente. Não fosse ele francês e seria estranho, agora assim a viver em país distante só o verão o retorna. E por vezes quando o retorna ando eu por outras paragens. Mas este ano o tempo resolveu juntar-nos e ele veio a tempo de estar ao mesmo tempo do que eu na rua. Olhei para ele e o Ricardo cresceu esta um homem...não era assim que eu me recordava dele. Será que também já eu estou uma mulher? Muito estranho.
terça-feira, julho 18, 2006
Coisas da Memória...
A memória por vezes falha-me, passo longo tempo, se não mesmo eternidades sem recordar-me de algo. Coisas que passam e que depois voltam a surgir quando menos espero. E quando voltam penso: como pude eu esquecer durante tanto tempo?
Enfim, hoje foi um desses dias, sem mais nem menos veio-me à cabeça aquele turbilhão de coisas boas que sentimos, como talvez dos melhores feitos que fizemos juntos. E prometemos a nós mesmos não esquecer esse dia, e afinal a azáfama dos dias o remeteu para só agora recordar . Eu sei que vocês se lembram, só que como eu devem não falar dele há muito. No entanto, não fosse ele tão importante e passaria mais uma vida ou duas sem o memorar. Então cá estávamos nós em amena cavaqueira, felicidade, alegria, amizade e por aí...O cenário era perfeito, verde sem conta, azul puro, cheiro de mar por todos os lados e boa disposição com sorrisos rasgados. Estávamos de veras encantados com os Açores. Andávamos na vontade desmedida de beber tudo num solvo...e nesse dia o programa há primeira vista em nada se assemelhava, aos longos banhos nas cascatas, aos mergulhos nas águas e à descoberta de vales encantados. Íamos nós para um lar de terceira idade e rodeados de mar por todos os lados. Chegamos e logo ali ficamos deslumbrados, dividimo-nos por tarefas e pisos, a mesma alegria de sempre, lá nos éramos a novidade. Enquanto uns iam descascar batatas para a cozinha, outros iam para os quartos, outros até estender roupa (sim não me esqueço Nuno foi das melhores visões que já tive até hoje). Prestar auxilio era a nossa missão, no entanto foram eles que nos prestaram sobretudo ao coração. De quarto para quarto, deixávamos os tabuleiros de comida sentados nas camas falávamos, e eles com gestos retribuíam. Comemos a melhor sardinhada de sempre, numa semana rica em arroz. Tiramos a barriga de misérias, mas sobretudo a alma. Quando me pediram para ir levar a comida aquele quarto, não esperava encontrar alguém assim. Entrei e pediu-me para lhe dar a sopa à boca, os meus olhos estavam espantados com olhos tão azuis e cristalinos, com um cabelo cor de prata e uma pele tão branca...mas estavam ainda mais espantados com a sua conversa. Foi sobretudo da solidão que ela nos falou, dos livros, da vida e dos afectos e ficamos ali sentados embasbacados como se só naquele tivéssemos percebido que há tanto por fazer. Sentimo-nos tão bem em estar a proporcionar um dia diferente a alguém, que foram estrelas que pairaram sobre a nossa cabeça. E a despedida essa foi dolorosa, sabíamos que não íamos regressar. E quando ela nos perguntou se amanhã voltaríamos outra vez, com uma esperança nos olhos. Foi um nó no estômago por saber que não voltaríamos, e com uma voz trémula dissemos que não. Lembro-me das palavras que proferimos quando saímos - Espectáculo ainda bem que viemos. Coisas úteis ao coração.
Enfim, hoje foi um desses dias, sem mais nem menos veio-me à cabeça aquele turbilhão de coisas boas que sentimos, como talvez dos melhores feitos que fizemos juntos. E prometemos a nós mesmos não esquecer esse dia, e afinal a azáfama dos dias o remeteu para só agora recordar . Eu sei que vocês se lembram, só que como eu devem não falar dele há muito. No entanto, não fosse ele tão importante e passaria mais uma vida ou duas sem o memorar. Então cá estávamos nós em amena cavaqueira, felicidade, alegria, amizade e por aí...O cenário era perfeito, verde sem conta, azul puro, cheiro de mar por todos os lados e boa disposição com sorrisos rasgados. Estávamos de veras encantados com os Açores. Andávamos na vontade desmedida de beber tudo num solvo...e nesse dia o programa há primeira vista em nada se assemelhava, aos longos banhos nas cascatas, aos mergulhos nas águas e à descoberta de vales encantados. Íamos nós para um lar de terceira idade e rodeados de mar por todos os lados. Chegamos e logo ali ficamos deslumbrados, dividimo-nos por tarefas e pisos, a mesma alegria de sempre, lá nos éramos a novidade. Enquanto uns iam descascar batatas para a cozinha, outros iam para os quartos, outros até estender roupa (sim não me esqueço Nuno foi das melhores visões que já tive até hoje). Prestar auxilio era a nossa missão, no entanto foram eles que nos prestaram sobretudo ao coração. De quarto para quarto, deixávamos os tabuleiros de comida sentados nas camas falávamos, e eles com gestos retribuíam. Comemos a melhor sardinhada de sempre, numa semana rica em arroz. Tiramos a barriga de misérias, mas sobretudo a alma. Quando me pediram para ir levar a comida aquele quarto, não esperava encontrar alguém assim. Entrei e pediu-me para lhe dar a sopa à boca, os meus olhos estavam espantados com olhos tão azuis e cristalinos, com um cabelo cor de prata e uma pele tão branca...mas estavam ainda mais espantados com a sua conversa. Foi sobretudo da solidão que ela nos falou, dos livros, da vida e dos afectos e ficamos ali sentados embasbacados como se só naquele tivéssemos percebido que há tanto por fazer. Sentimo-nos tão bem em estar a proporcionar um dia diferente a alguém, que foram estrelas que pairaram sobre a nossa cabeça. E a despedida essa foi dolorosa, sabíamos que não íamos regressar. E quando ela nos perguntou se amanhã voltaríamos outra vez, com uma esperança nos olhos. Foi um nó no estômago por saber que não voltaríamos, e com uma voz trémula dissemos que não. Lembro-me das palavras que proferimos quando saímos - Espectáculo ainda bem que viemos. Coisas úteis ao coração.
terça-feira, julho 11, 2006
Família feliz...
Ontem, andava não indecisão de comer ou não. Não se tratava de fome, nem de estômago farto. Era mais a hora que ditava a rotina dos dias, àquela hora todos provavelmente estariam a almoçar, ou já teriam terminado. Eu estava ainda a decidir.
Entre a busca positiva ou negativa da questão, uma família anunciava que estava oficialmente de férias. Não gritaram, mas nos meus ouvidos ecoou como se tivesse dito directamente para o meu cérebro. O carro familiar, pequeno, modesto, simples, sem grandes luxos, nem aparatos carregava uma auto tenda de duas rodas que ostentava está sim, todos os adereços para uma longa estadia. Sacos de cama, colchões, bancos, e a minha mente a imaginar o que estaria lá dentro, provavelmente eram pratos, talheres e uma casa mudada. No veículo apenas três pessoas, pai, mãe e filha. Os dois passageiros da frente encontravam-se literalmente a caminho do paraíso. Os tão ambicionados 15 dias de férias, num ano de trabalho e junto à praia. Já para passageira do banco de trás, que mal se via com tantos sacos ao lado, eram 15 dias de puro sofrimento. Não fosse o telemóvel e estaria totalmente perdida. Já não via a hora de estar a arrumar a tralha e toca a vir para cima. Nesta idade ir só com os “cotas” é uma tremenda seca. A viagem ainda era longa pela direcção que seguiam decidi que iriam para Monte Gordo, mas antes era tempo de alimentar. Nada mais prático do que parar nesse sítio da comida de plástico, uma coca-cola, um hambúrguer, batatas fritas e a economia do primeiro dia estava feita. O preço do combustível não dá para grandes luxos. Olhei bem para eles e eram felizes, tinham os anos programados, esperavam pelos 15 dias de férias, provavelmente já conheciam os vizinhos do parque de campismo de partilha ao longo dos anos, de manhã iam ao pão, vinham cedo da praia para assar o peixe, dormiam a sesta debaixo dos pinheiros, voltavam para a praia, voltavam para jantar e à noite saiam na calçada à beira mar. E não era preciso muito, apenas o que o dinheiro dava, era preciso sim que tivessem juntos e de férias.
Entre a busca positiva ou negativa da questão, uma família anunciava que estava oficialmente de férias. Não gritaram, mas nos meus ouvidos ecoou como se tivesse dito directamente para o meu cérebro. O carro familiar, pequeno, modesto, simples, sem grandes luxos, nem aparatos carregava uma auto tenda de duas rodas que ostentava está sim, todos os adereços para uma longa estadia. Sacos de cama, colchões, bancos, e a minha mente a imaginar o que estaria lá dentro, provavelmente eram pratos, talheres e uma casa mudada. No veículo apenas três pessoas, pai, mãe e filha. Os dois passageiros da frente encontravam-se literalmente a caminho do paraíso. Os tão ambicionados 15 dias de férias, num ano de trabalho e junto à praia. Já para passageira do banco de trás, que mal se via com tantos sacos ao lado, eram 15 dias de puro sofrimento. Não fosse o telemóvel e estaria totalmente perdida. Já não via a hora de estar a arrumar a tralha e toca a vir para cima. Nesta idade ir só com os “cotas” é uma tremenda seca. A viagem ainda era longa pela direcção que seguiam decidi que iriam para Monte Gordo, mas antes era tempo de alimentar. Nada mais prático do que parar nesse sítio da comida de plástico, uma coca-cola, um hambúrguer, batatas fritas e a economia do primeiro dia estava feita. O preço do combustível não dá para grandes luxos. Olhei bem para eles e eram felizes, tinham os anos programados, esperavam pelos 15 dias de férias, provavelmente já conheciam os vizinhos do parque de campismo de partilha ao longo dos anos, de manhã iam ao pão, vinham cedo da praia para assar o peixe, dormiam a sesta debaixo dos pinheiros, voltavam para a praia, voltavam para jantar e à noite saiam na calçada à beira mar. E não era preciso muito, apenas o que o dinheiro dava, era preciso sim que tivessem juntos e de férias.
segunda-feira, julho 10, 2006
Hoje
Hoje a luz entra com mais força por a minha janela ou serão os meus olhos que ainda estão na noite?
terça-feira, julho 04, 2006
Sal...
O doce, o amargo e o salgado fazem parte do paladar de qualquer um. No entanto, apenas uns os saboreiam plenamente. Se o doce é difícil de encontrar por estes dias, já o amargo cruza-se por nós em qualquer esquina. Tudo o que pica e sabe mal surge na mente, nas vistas e deleita-se pensado ignorantemente que para nós é algo de muito bom. Sabores amargos é o que por aí mais há e nascem quase sempre de pessoas desagradáveis, intragáveis e mesquinhas em todo o sentido da palavra. Bombons com recheio são raridades escassas, quase só na época das cerejeiras surgem caprichos que adocicam a boca. Eu guardo sempre caroços permanentes na minha existência, para açucararem os meus dias ao longo de todo o ano, autênticas relíquias, imprescindíveis, raras, mas que ainda existem.
Mas o salgado anda espalhado por ai, ao alcance de qualquer um e tão poucos o notam. Ignoram e retiram-no do corpo como se de uma doença contagiosa se tratasse. Sempre que posso entro em pedaços de NaCl e considero-o néctar para a pele, para a vida, e sobretudo para a essência dos dias. Nada me deixa mais leve, nada como ele me afasta nuvens escuras...nada me sabe tão bem. E quando chega nesse cenário de diversidade colorida, em que os actores são todos componentes puros, é ingrediente perfeito e nada me demolha tão plenamente. Fico ali a conservar, apenas o que de melhor existe nesse momento, silêncio absoluto. Deixa-me apta e entra-me por entre os poros e cada vez que os meus lábios o tocam, surge a melhor degustação paliativa. E fico em estado incontaminado. E quando adormeço com ele por os membros, pela mente e pela noite fico leve e flutuo uns centímetros acima dos lençóis. Se o amargo é indigesto e nojento, se o doce anda contado pelas palmas da mão já o salgado esse, abunda em estado líquido e que sorte nos dias que correm.
Mas o salgado anda espalhado por ai, ao alcance de qualquer um e tão poucos o notam. Ignoram e retiram-no do corpo como se de uma doença contagiosa se tratasse. Sempre que posso entro em pedaços de NaCl e considero-o néctar para a pele, para a vida, e sobretudo para a essência dos dias. Nada me deixa mais leve, nada como ele me afasta nuvens escuras...nada me sabe tão bem. E quando chega nesse cenário de diversidade colorida, em que os actores são todos componentes puros, é ingrediente perfeito e nada me demolha tão plenamente. Fico ali a conservar, apenas o que de melhor existe nesse momento, silêncio absoluto. Deixa-me apta e entra-me por entre os poros e cada vez que os meus lábios o tocam, surge a melhor degustação paliativa. E fico em estado incontaminado. E quando adormeço com ele por os membros, pela mente e pela noite fico leve e flutuo uns centímetros acima dos lençóis. Se o amargo é indigesto e nojento, se o doce anda contado pelas palmas da mão já o salgado esse, abunda em estado líquido e que sorte nos dias que correm.
domingo, julho 02, 2006
RAP...
Sol quente, tão quente que os poros mal respiram. O mesmo caminho de sempre, aquele que me leva de regresso a casa. Não tenho por hábito dar boleias a desconhecidos, no entanto ali estava ele debaixo de temperaturas elevadas. Não era propriamente um desconhecido, conhecia-o de vista, o suficiente para saber que não me faria mal. Mas encostei, fez uma cara desesperadamente de alívio, aguçou ao olhar e acho que ficou feliz por me ver. Logo aí, nesse instante não me arrependi de ter parado. Sentou-se e perguntou-me se podia abrir o vidro, calor a mais. Poucas palavras, um constrangimento de quem não tem muito assunto, mais da minha parte do que da dele. A sua história de vida eu sabia, embora que vagamente. E imaginava também o que ele estava a fazer naquele lugar. Mas, mesmo assim, para quebrar o silêncio lá fiz a primeira pergunta – Então agora estas por cá? Não sei se era bem isto que queria dizer, mas foi o que saiu – Sim, aqui estou melhor. Sabes, reduzi a metadona para 17, no princípio do tratamento estava em 70. Senti-o confiante no seu feito e a mim senti-me sem saber bem porque metia eu embaraços. Ele encarava melhor a situação do que eu e ainda bem, sabia lidar com ela. Mais uns longos minutos de silêncio e eu a absorver tudo o que ele me estava a proporcionar, essas coisas que fazem crescer. Do nada um pássaro planou sob o vidro do carro, uma sensação de liberdade perfeita, reparei que os seus olhos viajaram com ele, tentei imaginar o que lhe estaria a passar em mente, mas achei que foi somente o que passou na minha, leveza sem limites. Perguntou-me o que eu fazia, e pela primeira vez apresentamo-nos formalmente. Acho que ele ganhou confiança, a suficiente para me perguntar se eu gostava de RAP. Levaria mais uns minutos e o som do carro era RAP francês. Naquele momento as barreiras estavam quebradas, a partilha de uma música aproxima qualquer um. O resto da viagem foi feito sob este ritmo. Reparei que ele estava tão empenhado em absorver os sons que decidi não interromper. Chegamos ao destino final. Saiu e pegou-me na mão com o agradecimento mais sentido que me proferiram até hoje, dei-lhe a cassete de RAP e ele perguntou-me: - Não queres ficar com ela para ouvires melhor, depois dás-me. Mas achei que ela lhe faria melhor a ele do que a mim. Hoje, voltei a encontra-lo e levava os phones nos ouvidos, por certo que era RAP o que ia a ouvir, de longe acenou-me e fez-me adeus e agradeci-me infinitamente por ter parado nesse dia.
terça-feira, junho 20, 2006
Sentir em estado puro...
Os que me conhecem sabem bem a paixão que tenho pelo sul, nomeadamente, pelo Alentejo. Aos que não me conhecem também rapidamente faço perceber esta minha perdição. Não sou apologista de qualquer tipo de fronteira, mas sou uma defensora das culturas regionais. Sim, nós somos diferentes, e é dessa diversidade que nasce o rico neste país pobre. Sempre me apercebi apenas das coisas ricas desta região dourada, com cheiro característico, que só quem a bebe sem ter sede dá conta. Sempre passei a mão pela terra e nada vi para além dela, sempre mergulhei na Costa Vicentina e apenas lhe reconheci o dom das melhores praias, sempre olhei para o céu numa noite quente de verão, com a sensação de ser mais estrelado aqui do que em qualquer outro lugar do mundo. E agora encontro aqui na minha terra de sonho real, senhores de poder, com cargos poderosos como eles. De gravata, de fatos, na terra dos camponeses, de BMW´S nas estradas rurais, em busca de um bem-querer desta terra desmedido que mais não serve para servir os seus interesses. E de peito aberto juram fazer por ela a estrada do desenvolvimento, mas em arrelias pisam-se uns aos outros. E jogos de interesses não combinam com ideais, não fazem paralelo com solos férteis, não ecoam nas vozes dos grupos corais e não sentem o vento na seara. Senhores de poder será que podiam sentir esta região em estado puro? 

segunda-feira, junho 19, 2006
Carteira Profissional para rimar com oficial...
Há aqueles dias em que os dias são somente dias. Nada além do tempo que surge em demasia. E porém é nestes dias que a mente se encarrega de encher dessas coisas que momentos normais não lhe dão crédito. Adio sempre para pensar o que realmente me assusta para amanhã, ou quem sabe para depois, porém hoje não deu para adiar. Recebi a minha carteira profissional, é mais uma coisa que parece um cartão Multibanco, no entanto esse bocadinho de plástico reveste-se de poderes inacreditáveis. Olhei para ela e tive a sensação de já não haver volta a dar, tinha uma profissão. Olhei para ela e vi um misto de felicidade e desespero. Sempre me ocupei em fazer o que queria, mas sempre me ficaram em mente as coisas que poderia estar a deixar pelo nada com a minha opção.
Então, agora tenho pegado neste bocadinho de plástico com o meu nome gravado vezes sem conta e ainda não fui capaz de o retirar da mesa-de-cabeceira. Volta e meia subo as escadas e lá está ele a olhar para mim. Decidi então sentar-me a seu lado e ter conversa séria. Perguntei-lhe vezes sem conta se era mesmo para mim que queria vir, se tinha consciência que eu podia falhar ou simplesmente me desiludir. Voltei a verificar se o nome era mesmo o meu, mas a minha fotografia não engana, sou eu estampada a cores. Expliquei assim que corria o risco de ter sido editada em vão. Deixei bem presente e claro, todos os meus receios, na esperança de ela (carteira profissional) me dar respostas. E encontrei-as, mas mudas. Ela não se manifestou, mas resolvi percorrer este percurso como qualquer outro da vida, também não há muito a fazer.
No entanto, fizemos um pacto – convidei-me a ver o que ela de melhor têm para me dar, em troca, prometi fazer o que melhor sei. Afinal ela ainda não é definitiva. A ver vamos se nos entendemos.
Então, agora tenho pegado neste bocadinho de plástico com o meu nome gravado vezes sem conta e ainda não fui capaz de o retirar da mesa-de-cabeceira. Volta e meia subo as escadas e lá está ele a olhar para mim. Decidi então sentar-me a seu lado e ter conversa séria. Perguntei-lhe vezes sem conta se era mesmo para mim que queria vir, se tinha consciência que eu podia falhar ou simplesmente me desiludir. Voltei a verificar se o nome era mesmo o meu, mas a minha fotografia não engana, sou eu estampada a cores. Expliquei assim que corria o risco de ter sido editada em vão. Deixei bem presente e claro, todos os meus receios, na esperança de ela (carteira profissional) me dar respostas. E encontrei-as, mas mudas. Ela não se manifestou, mas resolvi percorrer este percurso como qualquer outro da vida, também não há muito a fazer.
No entanto, fizemos um pacto – convidei-me a ver o que ela de melhor têm para me dar, em troca, prometi fazer o que melhor sei. Afinal ela ainda não é definitiva. A ver vamos se nos entendemos.
quinta-feira, junho 15, 2006
Orgulho desmedido...
Durante toda uma vida ouvi falar dele, imagino sempre que tem as mãos grandes de ternura, as faces rosadas e um sorriso rasgado no rosto, como quem não se preocupa com as coisas mínimas da vida.
Na minha cabeça faço cumes de ideias e cada vez que vejo aquela curva não me deixo de arrepiar, numa vontade desmedida que ela jamais tivesse existido. E é estranho sentir saudades de alguém que nem conhecemos. E então ainda foi no outro dia, num fim de tarde perfeito, com aquele calor típico do verão, onde o sol ganha a sua plenitude e estatuto máximo no céu, que se viraram para mim num tom longínquo do tempo que não volta. – Sabes Bruna, o teu avô teria agora a minha idade? Depressa me captou a atenção esse meu amigo, com o triplo da minha idade, que me fez perceber o quanto custou a liberdade com histórias sem conta e uma vontade de viver inquieta.
Senti um nó no estômago, desejando que pudesse mesmo ser verdade e depressa me correram, como quem corre em auto-estradas palavras, essas que me dizem quando menos estou a espera e em que ele é sempre o assunto. – Grande amigo, dos melhores homens que conheci, coração do tamanho do mundo, para ele estava sempre tudo bem. São estas as frases que vou ouvindo de boca em boca e cada vez que as oiço surge uma leveza que me faz flutuar para longe, e é das poucas vezes que sinto orgulho em mim, por me associarem a ti avô.
Na minha cabeça faço cumes de ideias e cada vez que vejo aquela curva não me deixo de arrepiar, numa vontade desmedida que ela jamais tivesse existido. E é estranho sentir saudades de alguém que nem conhecemos. E então ainda foi no outro dia, num fim de tarde perfeito, com aquele calor típico do verão, onde o sol ganha a sua plenitude e estatuto máximo no céu, que se viraram para mim num tom longínquo do tempo que não volta. – Sabes Bruna, o teu avô teria agora a minha idade? Depressa me captou a atenção esse meu amigo, com o triplo da minha idade, que me fez perceber o quanto custou a liberdade com histórias sem conta e uma vontade de viver inquieta.
Senti um nó no estômago, desejando que pudesse mesmo ser verdade e depressa me correram, como quem corre em auto-estradas palavras, essas que me dizem quando menos estou a espera e em que ele é sempre o assunto. – Grande amigo, dos melhores homens que conheci, coração do tamanho do mundo, para ele estava sempre tudo bem. São estas as frases que vou ouvindo de boca em boca e cada vez que as oiço surge uma leveza que me faz flutuar para longe, e é das poucas vezes que sinto orgulho em mim, por me associarem a ti avô.
sexta-feira, junho 09, 2006
Pais de Família...
Parece-me a mim que de um momento para o outro, todos são pais e mães de toda a gente. Se não veja-se aquando da decisão do supremo tribunal de justiça, que considerou que “fechar crianças em quartos é um castigo normal de ‘um bom pai de família’” e agora um padre director da casa do gaiato de Setúbal, que perante os jornalistas não hesitou em dar uma estalada a uma criança de seis anos. Mas este explicou, “Não lhe dei um estalo, bati-lhe com a mão para ele se ir embora”. Como não sendo suficiente o argumento católico, digo eu, fez-se mais claro e evocou as morais familiares: “Isto não foi um mau trato, foi um bom trato. Não me viu antes agarrá-lo ao colo, acariciá-lo e beijá-lo? Sabe quem faz isso? Um bom pai de família”.
Perante tal situação só posso dizer que os bons pais de família andam espalhados por este Portugal dos pequeninos e retrogada. E digo mais, vai chegar o dia em que o cinto de fivela vai voltar a sentar-se à mesa dos portugueses. Vamos regredir à boa e velha educação. E muitas mentes devem agora estar a pensar: Deus nos valha. Mas, ao menino e meninas, deste país não lhe tem válido de muito, mas talvez esta estalada vinda de mãos portadoras de fé tenha outro significado: A de vais fazer-te homem de barba rija, desprovido de sentimentos puros mas duro na queda. E beijarás a mão de quem te abençoa. Vergonhoso, digo eu.
Perante tal situação só posso dizer que os bons pais de família andam espalhados por este Portugal dos pequeninos e retrogada. E digo mais, vai chegar o dia em que o cinto de fivela vai voltar a sentar-se à mesa dos portugueses. Vamos regredir à boa e velha educação. E muitas mentes devem agora estar a pensar: Deus nos valha. Mas, ao menino e meninas, deste país não lhe tem válido de muito, mas talvez esta estalada vinda de mãos portadoras de fé tenha outro significado: A de vais fazer-te homem de barba rija, desprovido de sentimentos puros mas duro na queda. E beijarás a mão de quem te abençoa. Vergonhoso, digo eu.
quarta-feira, junho 07, 2006
Estrada/Berma...encontros do acaso
As estradas quase sempre não levam a lado nenhum, é mais a vontade de ir que corrompe o caminho. Porém há coisas nas estradas que nos despertam a atenção, vertigens que lhes quebra a aparência negra, salpicada por traços brancos – muitas vezes pensei mudar-lhe a tonalidade, mas cheguei à conclusão que preto é o mais apropriado, sujidade a mais para cores com vida – mas, devaneios à parte, sobre um calor quente e abrasador desses em que a estrada parece flutuar, onde eu já vou colada na nesga da mente, bem poderiam surgir choques frontais. No entanto, surge, no meio do nada, nessa hora onde todos recolhem por o sol escurecer em demasia a melanina esse ser vergado, com as pernas bambas de vir de longe. E ali na berma repousa nos seus 70 e picos anos (ou mais), à espera não sei bem de quê. Baixa aos olhos quando passam sofisticados animais de quatro rodas, poeira a mais pelo ar, vento a mais para a sua estrutura óssea. E ali espera em mangas de camisa, na árvore que por sorte acolhe sombra vasta. E qualquer dia paro e pergunto-lhe se quer uma boleia, só não sei bem para onde…
quarta-feira, maio 31, 2006
Lisboa abaixo, Lisboa acima...
Rua acima, rua abaixo. Esquerda, direita, um folgo de ar, uma batida. Duas pernas a andar e simplesmente um sorriso no lábios. Largo, rasgado, grande, enorme…Nessas ruelas estreitas, por entre paredes, por entre muralhas, aviões, carros, peões verdes e vermelhos. Confusão sim muita, mas eu gosto desse rumor nos ouvidos, não me fere a cartilagem. Nessa calçada cheia, repleta, nessa voz que me chama, que me aquece e me devolve sempre que necessário. Janelas e portadas altas, tudo alto, tudo no cimo. Pendurada em lençóis brancos por entre o corpo, descendo escadarias que arrefecem os pés. Desamarrota o céu, encaixa-o no rio e segue a rebolar por as colinas, em pé-coxinho e chinelos de dedo com terra nos calcanhares. E sobre os carris, sobre as caras de ninguém tu tens rosto, e eu conheço-o também.
domingo, maio 28, 2006
Porque afinal tu (tempo) não alteras nada....
Tempo para, não andes, fica mudo, imóvel, canta ou simplesmente que tu te danes.
Foi isto que me apeteceu dizer-lhe a esse senhor que faz as horas andar, que faz as coisas gastarem-se, que faz as coisas terminarem. Maldito tempo, despejar toda a minha raiva nesse impositor, nesse ditador. E depois pensei por mais voltas que dês não me encerras e não me irritas. Gira em ponteiros que é só mesmo o que sabes fazer. Eu cá giro em torno de coisas, em pedaços de material puro, em sorrisos e olhares brilhantes. E o tempo pode ter sido curto, dias, anos não chegariam…mas chegaram-me os vossos abraços, chegou a cumplicidade, as gargalhadas que fazem amarrotar a barriga, essas coisas intermináveis que nunca mudam…e já fazia muito tempo que não nos víamos, o que so prova que ele (tempo) não altera mesmo nada, porque há momentos, que são vidas.
Foi isto que me apeteceu dizer-lhe a esse senhor que faz as horas andar, que faz as coisas gastarem-se, que faz as coisas terminarem. Maldito tempo, despejar toda a minha raiva nesse impositor, nesse ditador. E depois pensei por mais voltas que dês não me encerras e não me irritas. Gira em ponteiros que é só mesmo o que sabes fazer. Eu cá giro em torno de coisas, em pedaços de material puro, em sorrisos e olhares brilhantes. E o tempo pode ter sido curto, dias, anos não chegariam…mas chegaram-me os vossos abraços, chegou a cumplicidade, as gargalhadas que fazem amarrotar a barriga, essas coisas intermináveis que nunca mudam…e já fazia muito tempo que não nos víamos, o que so prova que ele (tempo) não altera mesmo nada, porque há momentos, que são vidas.
segunda-feira, maio 22, 2006
Coisas simples...
Andei a vaguear por aí perto de nada e perto de tudo. Andei em círculos e em rectas, andei somente nesse espaço. Peguei nas mãos e metias nos bolsos como quem não tem nada que fazer, peguei nas pernas e fiz com que andassem. Um, dois, três...não carneiros, são caroços que enchem a boca. São nêsperas amarelas, nessa minha cor de infância que era pirosa, até então e que agora esta na moda. Os lábios molhados e em redor da boca somente desliza esse sumo que cola e que me reporta para aí dez anos atrás, doze os que queiram façam é de mim criança (e como era bom, imaginem muito tempo se quiserem eu não me importo). Enfim tudo isto para dizer que ainda não aprendi a comer sem me sujar, tarefa quase impossível na minha diária. Adiante há dias em que não acontece nada de especial, mas digo-vos este sabor na boca, esta falta de formalidade tem sabor... o gosto dos dias, pequenos prazeres que fazem dias cheios (e gosto mais disto do que ouvir mentes vazias).
quinta-feira, maio 18, 2006
Apenas uma questão ergonómica...
Sempre se quer mudar alguma coisa, que mais não seja a mesa de sítio, o quadro de parede e os sapatos de lugar. Sempre se quer, porém apenas coisas simples, coisas banais que não incluam grande esforço mental e que não alterem muito a rotina de seres comodistas, que receiam a mudança. Querem mudar-se assim, essas coisas fáceis que não criem conflitos , que não acabem por ser um problema, quando o problema consiste mesmo no deixa andar...Mas por cá tudo bem e tudo ao contrário. Criticas muitas, alternativas poucas, movimentos escassos, soluções nulas, vontade inexistente. Agir é melhor então nem pensar nisso. Então no país das maravilhas vamos mudando os móveis, vamos trocando de carro e lamentando. Porque aqui as coisas até são prováveis que caiam do céu. Porque mudar queremos, falta é a vontade, o tempo e essas coisas que nos retiram horas de café, de sono e afins. Mas tudo bem, talvez seja melhor pensar se a cama não ficaria melhor ao contrário, não é por nada em especial, apenas por uma questão ergonómica, porque assim até parecemos inovadores.
segunda-feira, maio 15, 2006
quinta-feira, maio 11, 2006
Pensamento
A sensatez nem sempre é sensata para quem a pratica, cheguei a essa conclusão hoje. Sim, pode ser o mais correcto, mas nem sempre o correcto é o que realmente se quer fazer. Sensatez, insensata portanto.
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