quinta-feira, setembro 28, 2006

Cérebro em gelo...


Frio na espinha, arrepio, coisas geladas é assim que se desenvolve o meu cérebro em tom de troça para comigo mesma, estupidez é essa hoje a palavra que me percorre. Ata, desata, coisa apertada e o frio volta. Preciso de um cachecol à volta da cabeça pode ser que ela aqueça.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Anos há...

Anos há em que as paredes de gente criança e adulta por estes dias, se enchiam de destemida vontade, de tamanha coragem e de pouca vergonha. Paredes fáceis quando as coisas eram fáceis de dizer. As pessoas crescem e deixam o atrevimento para trás, com ele ficam os murais, as secretárias, os cadernos, as bolsas dos lápis e as mochilas pintadas. O corrector passa a ter só uma utilidade – apagar erros de canetas - canetas de cor deixam de fazer sentido, e borrachas pintadas parecem ridículas. Hoje, lêem-se os sonetos e murmura-se para dentro, até se tem vontade de dizer, mas as palavras não se descolam da boca. Anos há, para esta gente, que era fácil dizer: Amo-te. Anos há em que se escrevia na parede para toda a gente ver, anos há em que se esfolavam as portas das casas de banho, e se deixava o nome gravado a perpetuar, juntamente, com a data e o nome da outra pessoa. Anos há em que se dizia Forever, por o inglês soar sempre melhor aos ouvidos, quando a descoberta encaminhava as coisas fixes de dizer nesta língua dos filmes, e as menos curtidas as remetia para o português.
Há anos que as pessoas não dizem amo-te com tanta facilidade, tantos anos que acham que são coisas tolas de crianças. Mas anos há também, em que amo-te saía sem sentido, paixões passageiras de sofrimentos rápidos. E hoje as pessoas sentem a sério e não dizem porquê? Por vergonha, porque afinal acham-se ridículas ao dizer, e afinal as paredes e os murais, as mochilas e as bolsas dos lápis, as borrachas e as portas das casas de banho das áreas de serviço, deveriam de voltar à baila do dia, para tirarem palavras difíceis da boca e mostrarem frases fáceis de ler.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Girassóis no Armário...

Há quem queira fazer das coisas mais do que isso, mais do que coisas. Há quem precise de reforçar a ideia para se sentir em pleno. Há quem precise dessa identidade global, dessa que realce aos olhos os sítios onde estão. Há no fundo uma necessidade de identificação, uma pura falta de pertença. Nas ruas as pessoas deambulam quase sempre com os olhos no chão. Falta de tempo? Falta de imaginação? Ou pura vontade de passar rápido? Mas depois chega-se aos locais e quer-se realçar a presença. Mesmo que passemos rápido pelas ruelas e não observemos o calceteiro, a mulher com o saco das compras, ou a loja dos tantos Xicos deste País, que vendem desde o pão aos candeeiros para a mesa-de-cabeceira. Então estava eu a ler um matutino, rindo com piadas reais e uma senhora com faro dos lados de Lisboa, interroga-me, “ – Sabe onde posso encontrar alguém que pinte em vidro ou madeira”. Pensei, e dei voltas à cabeça e nada me ocorreu. Mas a senhora citadina explicou-se melhor e disse: - “Eu já sei quem é o senhor que faz, não sei é onde fica”. Ai tudo se tornou claro. Contudo a mulher insistiu em dizer: “- Sabe é que tenho lá uma armário, mas queria dar-lhe um ar mais alentejano, mas rústico. Queria desenhar uns girassóis ou assim...Não sei se me compreende”, frisou. E adiantou que “agora tenho uma casa no Alentejo”, coisa fina nos dias que correm...para quem descansa das buzinas.
Pensei na resposta que lhe devia de dar. Tivesse eu dito e teria posto em causa a hospitalidade deste povo.
Apercebi-me, que a senhora não tinha ainda percebido, que não era necessário pintar os armários, para pertencer a esta alma. Que as verdadeiras casas rústicas o são por tradição e vivência e não por modernismo estético. Vi que a senhora ainda não tinha reparado, que aqui, a vida corre normal como em tantos outros sítios deste País. Não se dão ares alentejanos, porque o são em estado natural. E ai, no dia em que a senhora consiga perceber que aqui o que muda é que pode abrir a janela e ver girassóis reais sem estarem pintados no seu armário citadino, ai nesse dia, digo-lhe o que realmente pensei.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Procura-se

Gente não acomodada em todas as áreas...procura-se...



terça-feira, agosto 29, 2006

Geração dos químicos...

Hoje a temperatura aqui da cidade anda elevada. E eu a subir rua com inclinação acentuada, nas minhas pernas ainda não muito gastas pela vida. Quando por mim passa, com o dobro da minha velocidade, uma senhora como mais do triplo da minha idade. É caso para dizer que já não se fazem pessoas como antigamente.
Pela negativa eu desconfio que já sou da geração dos químicos, desses das maças, das alfaces, da água e dos corantes...

quarta-feira, agosto 23, 2006

Só pelas coisas simples...

Vieste de longe. Eu vim de perto.
Sabes para onde vais?
Não somente ando perdida nos dias, como sempre
É melhor não me seguires.
E se seguir?
Somente tens de te encontrar. Como os homens da bolsa e os senhores bancários, e os médicos, e os advogados aparentam ter sempre rumo certo.
Eu vim por causa do emprego. E tu?
Eu só cá vim ver a água.
A água porquê?
Só pelas coisas simples da vida.

terça-feira, agosto 22, 2006

Rico mas tão pobre...

Tenho andado por ai. Com a cabeça a flutuar, com o corpo a entranhar. Tive aqui e ali, acolá e agora ando por cá. Tive nas rotas, nas direcções. Tive sem tempo, com tempo tive somente a absorver. Numa das paragens temporais, tive em Puerto Banus. Entrei já com os olhos ostentados. E ainda hoje brilham a ouro falso. Senti o cheiro das notas, da luxúria e ali considere-o o pior dos pecados. Tantos olhos e tão pouca barriga. Seja o prazer de quem tudo queira sem sabor. O diabo andou à solta em Puerto Banus, remexeu nas mentes e desenhou-as aos cifrões. Senti um vazio, uma falta de cheiro, de terra e calor humano. E deslizavam na avenida como quem desliza em passerelles, com o peito para fora e as marcas espelhadas aos brilhantes pelo corpo todo. Os carros que em euros são difíceis de fazer a conta, amontoavam-se num desfile de vaidades e cilindrada. E eu a pensar que logo ali a milhas uma criança morria à fome. Não uma por dia, uma de oito em oito minutos e agora sim, por dia.

segunda-feira, agosto 21, 2006

O romantismo anda doente...

Ele há coisas que me fazem confusão, entre as várias encontro umas que os ouvidos encaram como dolorosas. Coisas simples, mas tão ridículas, tão vazias, tão sem nada que me parecem ocas. Estava a almoçar, tranquila com a cabeça mergulhada em conversas e risadas sobre tudo e sobre nada. Ao nosso lado um casal estava apaixonado, coisa boa portanto. No entanto, o rapaz abria a boca e acabava com qualquer romantismo inteligente. Fonemas saiam repetidamente, o que atingia a maior percentagem era bebé. Bem, há por ai alguma mulher que goste de ser tratada por bebé ? Eu acredito que o amor tudo tolera, mas e a criatividade, a originalidade, morreu pela boca. Bebé é mau diria péssimo. Apeteceu-me dizer ao rapaz para arranjar outro adjectivo, mas vai na volta são só gostos e não se discutem. Como dizia o outro cada uma sabe de si. A conversa prosseguia e não tardaria a saltar da boca do rapaz outro adjectivo fofinho, diria mesmo rechonchudo. Gorda. Normalmente, todas as mulheres ficam meio atrapalhadas com esta palavra. É algo não desejável, não o fosse e não correriam para o ginásio até as pernas gritarem: pára! No entanto, mais uma vez nesta situação é encarada como palavra querida. Mas o pior é que a rapariga era magra. Mas ok, o romantismo anda afectado pelas coisas pirosas, anda doente, cego aos olhos dos crentes.

domingo, agosto 13, 2006

A Sudoeste...

Andei por terras com música, ainda trago no ouvido sons, risadas, festa e sorrisos abertos. Andei por terras onde a linguagem é universal, onde apenas notas melódicas são dialecto oficial. No meio da planície, onde o mar quase corrompe o pasto, ergueu-se a cidade das vibrações. E lá no meio pula-se que nem doidos, e as pessoas andam mais descontraídas que o habitual, e vale tudo até o sol raiar. Cheguei ainda o sol caia, pó foi o primeiro sinal de que estava a entrar em recinto certo, carros amontoados, em planície vasta, o nome em tudo lhe assenta fica mesmo a Sudoeste. Troquei o papel por uma pulseira e senti-me com um pedaço de mar no braço (Azul, costa Vicentina). Gente, muita gente, àquela hora procuravam jantar, tendas muitas tendas, tantas que qualquer buraco servia. Vizinhos a perderem de vista. Tudo a postos, encontro a minha tribo, já com o espirito no corpo. E cá vamos, palco principal como destino, um dos meus primeiros objectivos estava cumprido, Goldfrapp nos ouvidos. Temi pela desilusão, mas não. Um recinto de publicidade, tudo são marcas, uma operadora telefónica até fazia doer os olhos, e mesmo sem querer também eu andava a fazer publicidade, no pulso. Cabeças flutuam no horizonte, muito humano junto, mas mesmo assim, consegue-se encontrar os conhecidos, choquei com todos os que queria.
Noites dentro, festa, e música sempre entre o cérebro, o corpo e a cartilagem...escolhemos bem os destinos, oferta vasta. Da nossa selecção para perpetuar saliento: Goldfrapp, Prodigy, Buraca Som Sistema, Legendary Tiger Man, Macaco, Marcelo D2 e Daft Punk. Muitas decepções pelo meio. Já agora quem conhecer a Skin diga-lhe para cantar em vez de gritar. E os Madness não fizeram luz ao Ska.
As manhãs eram mesmo alvoradas, calor a mais para dormir em cenário de estufa. Filas para tudo, mas com alguma manobra, comíamos bem rápido os cereais, também oferecidos. Os brindes chovem dentro do recinto e as pessoas amontoam-se em busca das borlas, mesmo que depois não sirvam para nada. Zambujeira do Mar é o trajecto mais conhecido, todos os caminhos vão dar ao mar. Pelo percurso esplanadas repletas e o dinheiro a ficar, que mais não seja, uma vez por ano, no Alentejo.
No recinto os estilos são vários, passeiam rastas, cristas, cabelos compridos, curtos, gentes com cores e gente de negro. Há de tudo, mas o que mais houve nesta edição foram os óculos tipo aviador...há por ai quem não tenha?
Muita bebida, fast-food, e comida razoável também. No entanto, tudo caro, tudo a apontar para bolsos fartos, tudo lá no cimo. É caso para dizer: já que o espírito está, porque não há-de estar a carteira também? E depois as pessoas pensam e vêem que afinal o Sudoeste é em Portugal.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Agosto...

Chego à hora que dita a entrada em mais um dia de trabalho, normalmente percorro artérias em busca de um lugar, com sorte acabo sempre por encontrar. Mas agora, nem artérias percorro, não busco estacionamento, deslumbram-se perante os meus olhos espaços vastos à escolha do freguês. É Agosto e o povo aqui da cidade encontra-se literalmente de férias, os que não estão suspiram por elas, mas basicamente o sentimento é o mesmo. As ruas andam meio desertas, aos serviços falta-lhes gente e o ritmo anda tardio. Chego ainda com o sumo na mão, encontro menos gente que o habitual, o calor aperta, os olhos ainda dormem, os jornais inventam temas, em Agosto dá-se importância a tudo aquilo que normalmente se risca em meses atribulados.
O País está a banhos, mergulhado no sentimento bom do Verão. Fugas repentinas, afugentam as preocupações do quotidiano, enterra-se a cabeça na areia, esticam-se os pés na esplanada e flutua-se por 15 dias em profunda alegria. E depois o Agosto vai e o Setembro já começa a recolher os cheiros do Outono, e depois o Inverno chega e a depressão volta à baila dos dias. A Primavera anuncia a viragem e depois...depois é Verão outra vez. Mais 15 dias de felicidade...em Agosto.

segunda-feira, julho 31, 2006

Raiva...

Hoje peguei no DN, não foi sequer necessário folhear as páginas para me arrepiar. Fiquei ali pasmada com tamanho choque, senti um frio que me consumiu por dentro, imóvel, com uma má disposição, ar a menos e raiva a mais. “Ataque de Israel à aldeia de Caná”. 37 crianças vitimas do mundo estúpido fundamentalista. A imagem não me sai da cabeça, e a indignação do corpo. Impotência...não consegui voltar a pegar no jornal...não me apetece ler. Apetece-me gritar em ouvidos moucos, chamar-lhes muitas vezes estúpidos, ignorantes, cobardes, mesquinhos, desprovidos, calculistas, absurdos, otários, palermas, adjectivos vários. Guerras em prol, simplesmente de nada. Aqui no nosso mundo Europeu condenamos o ataque e ficamos a espera não sei bem de quê! E eles que esperam lá amanhã...? E ainda nos queixamos, não sei bem de quê também...

quinta-feira, julho 27, 2006

Gente sem mente...

Como mosaicos espalhados pelo chão colados, agarrados mais fixados dos que os próprios pés na terra. Ideias ocas, de mentes vazias ecoam ao fundo de si, num gélido arrepio. Falam, gritam, esperneiam num avesso. Exaltam a voz, perdem a razão. Espalham ignorância pelo ar e riem em tom de troça, com a maior das certezas em assunto que não tem formação suficiente. E depois os outros calam, lamentam e no fundo é pena que se levanta.

quarta-feira, julho 26, 2006

Para dentro de mim...

Uma aquarela em tintas azuis, um dia em tons verdes. Um sorriso rasgado, vasto e grande. Um abraço que abarca mais do que tudo e mais do que nada. Sementes pelos pós mágicos de duendes caiem sobre o meu espaço. Devasto os lençóis e rasgo os membros. Flutuo na leveza dos sabores, entranho nos cheiros e afugento os perigos. Chego sem ser a horas marcadas, devasto o tempo, acalco o poder das regras, quebro a rotina e fujo para longe. Para tão longe que o mais perto é ir de novo para dentro de mim.

segunda-feira, julho 24, 2006

Muito Estranho...

Vi o Ricardo, não o via nem sei bem à quanto tempo...até pode parecer estranho ele é o meu vizinho da frente. Não fosse ele francês e seria estranho, agora assim a viver em país distante só o verão o retorna. E por vezes quando o retorna ando eu por outras paragens. Mas este ano o tempo resolveu juntar-nos e ele veio a tempo de estar ao mesmo tempo do que eu na rua. Olhei para ele e o Ricardo cresceu esta um homem...não era assim que eu me recordava dele. Será que também já eu estou uma mulher? Muito estranho.

terça-feira, julho 18, 2006

Coisas da Memória...

A memória por vezes falha-me, passo longo tempo, se não mesmo eternidades sem recordar-me de algo. Coisas que passam e que depois voltam a surgir quando menos espero. E quando voltam penso: como pude eu esquecer durante tanto tempo?
Enfim, hoje foi um desses dias, sem mais nem menos veio-me à cabeça aquele turbilhão de coisas boas que sentimos, como talvez dos melhores feitos que fizemos juntos. E prometemos a nós mesmos não esquecer esse dia, e afinal a azáfama dos dias o remeteu para só agora recordar . Eu sei que vocês se lembram, só que como eu devem não falar dele há muito. No entanto, não fosse ele tão importante e passaria mais uma vida ou duas sem o memorar. Então cá estávamos nós em amena cavaqueira, felicidade, alegria, amizade e por aí...O cenário era perfeito, verde sem conta, azul puro, cheiro de mar por todos os lados e boa disposição com sorrisos rasgados. Estávamos de veras encantados com os Açores. Andávamos na vontade desmedida de beber tudo num solvo...e nesse dia o programa há primeira vista em nada se assemelhava, aos longos banhos nas cascatas, aos mergulhos nas águas e à descoberta de vales encantados. Íamos nós para um lar de terceira idade e rodeados de mar por todos os lados. Chegamos e logo ali ficamos deslumbrados, dividimo-nos por tarefas e pisos, a mesma alegria de sempre, lá nos éramos a novidade. Enquanto uns iam descascar batatas para a cozinha, outros iam para os quartos, outros até estender roupa (sim não me esqueço Nuno foi das melhores visões que já tive até hoje). Prestar auxilio era a nossa missão, no entanto foram eles que nos prestaram sobretudo ao coração. De quarto para quarto, deixávamos os tabuleiros de comida sentados nas camas falávamos, e eles com gestos retribuíam. Comemos a melhor sardinhada de sempre, numa semana rica em arroz. Tiramos a barriga de misérias, mas sobretudo a alma. Quando me pediram para ir levar a comida aquele quarto, não esperava encontrar alguém assim. Entrei e pediu-me para lhe dar a sopa à boca, os meus olhos estavam espantados com olhos tão azuis e cristalinos, com um cabelo cor de prata e uma pele tão branca...mas estavam ainda mais espantados com a sua conversa. Foi sobretudo da solidão que ela nos falou, dos livros, da vida e dos afectos e ficamos ali sentados embasbacados como se só naquele tivéssemos percebido que há tanto por fazer. Sentimo-nos tão bem em estar a proporcionar um dia diferente a alguém, que foram estrelas que pairaram sobre a nossa cabeça. E a despedida essa foi dolorosa, sabíamos que não íamos regressar. E quando ela nos perguntou se amanhã voltaríamos outra vez, com uma esperança nos olhos. Foi um nó no estômago por saber que não voltaríamos, e com uma voz trémula dissemos que não. Lembro-me das palavras que proferimos quando saímos - Espectáculo ainda bem que viemos. Coisas úteis ao coração.

terça-feira, julho 11, 2006

Família feliz...

Ontem, andava não indecisão de comer ou não. Não se tratava de fome, nem de estômago farto. Era mais a hora que ditava a rotina dos dias, àquela hora todos provavelmente estariam a almoçar, ou já teriam terminado. Eu estava ainda a decidir.
Entre a busca positiva ou negativa da questão, uma família anunciava que estava oficialmente de férias. Não gritaram, mas nos meus ouvidos ecoou como se tivesse dito directamente para o meu cérebro. O carro familiar, pequeno, modesto, simples, sem grandes luxos, nem aparatos carregava uma auto tenda de duas rodas que ostentava está sim, todos os adereços para uma longa estadia. Sacos de cama, colchões, bancos, e a minha mente a imaginar o que estaria lá dentro, provavelmente eram pratos, talheres e uma casa mudada. No veículo apenas três pessoas, pai, mãe e filha. Os dois passageiros da frente encontravam-se literalmente a caminho do paraíso. Os tão ambicionados 15 dias de férias, num ano de trabalho e junto à praia. Já para passageira do banco de trás, que mal se via com tantos sacos ao lado, eram 15 dias de puro sofrimento. Não fosse o telemóvel e estaria totalmente perdida. Já não via a hora de estar a arrumar a tralha e toca a vir para cima. Nesta idade ir só com os “cotas” é uma tremenda seca. A viagem ainda era longa pela direcção que seguiam decidi que iriam para Monte Gordo, mas antes era tempo de alimentar. Nada mais prático do que parar nesse sítio da comida de plástico, uma coca-cola, um hambúrguer, batatas fritas e a economia do primeiro dia estava feita. O preço do combustível não dá para grandes luxos. Olhei bem para eles e eram felizes, tinham os anos programados, esperavam pelos 15 dias de férias, provavelmente já conheciam os vizinhos do parque de campismo de partilha ao longo dos anos, de manhã iam ao pão, vinham cedo da praia para assar o peixe, dormiam a sesta debaixo dos pinheiros, voltavam para a praia, voltavam para jantar e à noite saiam na calçada à beira mar. E não era preciso muito, apenas o que o dinheiro dava, era preciso sim que tivessem juntos e de férias.

segunda-feira, julho 10, 2006

Hoje

Hoje a luz entra com mais força por a minha janela ou serão os meus olhos que ainda estão na noite?

terça-feira, julho 04, 2006

Sal...

O doce, o amargo e o salgado fazem parte do paladar de qualquer um. No entanto, apenas uns os saboreiam plenamente. Se o doce é difícil de encontrar por estes dias, já o amargo cruza-se por nós em qualquer esquina. Tudo o que pica e sabe mal surge na mente, nas vistas e deleita-se pensado ignorantemente que para nós é algo de muito bom. Sabores amargos é o que por aí mais há e nascem quase sempre de pessoas desagradáveis, intragáveis e mesquinhas em todo o sentido da palavra. Bombons com recheio são raridades escassas, quase só na época das cerejeiras surgem caprichos que adocicam a boca. Eu guardo sempre caroços permanentes na minha existência, para açucararem os meus dias ao longo de todo o ano, autênticas relíquias, imprescindíveis, raras, mas que ainda existem.
Mas o salgado anda espalhado por ai, ao alcance de qualquer um e tão poucos o notam. Ignoram e retiram-no do corpo como se de uma doença contagiosa se tratasse. Sempre que posso entro em pedaços de NaCl e considero-o néctar para a pele, para a vida, e sobretudo para a essência dos dias. Nada me deixa mais leve, nada como ele me afasta nuvens escuras...nada me sabe tão bem. E quando chega nesse cenário de diversidade colorida, em que os actores são todos componentes puros, é ingrediente perfeito e nada me demolha tão plenamente. Fico ali a conservar, apenas o que de melhor existe nesse momento, silêncio absoluto. Deixa-me apta e entra-me por entre os poros e cada vez que os meus lábios o tocam, surge a melhor degustação paliativa. E fico em estado incontaminado. E quando adormeço com ele por os membros, pela mente e pela noite fico leve e flutuo uns centímetros acima dos lençóis. Se o amargo é indigesto e nojento, se o doce anda contado pelas palmas da mão já o salgado esse, abunda em estado líquido e que sorte nos dias que correm.

domingo, julho 02, 2006

RAP...

Sol quente, tão quente que os poros mal respiram. O mesmo caminho de sempre, aquele que me leva de regresso a casa. Não tenho por hábito dar boleias a desconhecidos, no entanto ali estava ele debaixo de temperaturas elevadas. Não era propriamente um desconhecido, conhecia-o de vista, o suficiente para saber que não me faria mal. Mas encostei, fez uma cara desesperadamente de alívio, aguçou ao olhar e acho que ficou feliz por me ver. Logo aí, nesse instante não me arrependi de ter parado. Sentou-se e perguntou-me se podia abrir o vidro, calor a mais. Poucas palavras, um constrangimento de quem não tem muito assunto, mais da minha parte do que da dele. A sua história de vida eu sabia, embora que vagamente. E imaginava também o que ele estava a fazer naquele lugar. Mas, mesmo assim, para quebrar o silêncio lá fiz a primeira pergunta – Então agora estas por cá? Não sei se era bem isto que queria dizer, mas foi o que saiu – Sim, aqui estou melhor. Sabes, reduzi a metadona para 17, no princípio do tratamento estava em 70. Senti-o confiante no seu feito e a mim senti-me sem saber bem porque metia eu embaraços. Ele encarava melhor a situação do que eu e ainda bem, sabia lidar com ela. Mais uns longos minutos de silêncio e eu a absorver tudo o que ele me estava a proporcionar, essas coisas que fazem crescer. Do nada um pássaro planou sob o vidro do carro, uma sensação de liberdade perfeita, reparei que os seus olhos viajaram com ele, tentei imaginar o que lhe estaria a passar em mente, mas achei que foi somente o que passou na minha, leveza sem limites. Perguntou-me o que eu fazia, e pela primeira vez apresentamo-nos formalmente. Acho que ele ganhou confiança, a suficiente para me perguntar se eu gostava de RAP. Levaria mais uns minutos e o som do carro era RAP francês. Naquele momento as barreiras estavam quebradas, a partilha de uma música aproxima qualquer um. O resto da viagem foi feito sob este ritmo. Reparei que ele estava tão empenhado em absorver os sons que decidi não interromper. Chegamos ao destino final. Saiu e pegou-me na mão com o agradecimento mais sentido que me proferiram até hoje, dei-lhe a cassete de RAP e ele perguntou-me: - Não queres ficar com ela para ouvires melhor, depois dás-me. Mas achei que ela lhe faria melhor a ele do que a mim. Hoje, voltei a encontra-lo e levava os phones nos ouvidos, por certo que era RAP o que ia a ouvir, de longe acenou-me e fez-me adeus e agradeci-me infinitamente por ter parado nesse dia.

terça-feira, junho 20, 2006

Sentir em estado puro...

Os que me conhecem sabem bem a paixão que tenho pelo sul, nomeadamente, pelo Alentejo. Aos que não me conhecem também rapidamente faço perceber esta minha perdição. Não sou apologista de qualquer tipo de fronteira, mas sou uma defensora das culturas regionais. Sim, nós somos diferentes, e é dessa diversidade que nasce o rico neste país pobre. Sempre me apercebi apenas das coisas ricas desta região dourada, com cheiro característico, que só quem a bebe sem ter sede dá conta. Sempre passei a mão pela terra e nada vi para além dela, sempre mergulhei na Costa Vicentina e apenas lhe reconheci o dom das melhores praias, sempre olhei para o céu numa noite quente de verão, com a sensação de ser mais estrelado aqui do que em qualquer outro lugar do mundo. E agora encontro aqui na minha terra de sonho real, senhores de poder, com cargos poderosos como eles. De gravata, de fatos, na terra dos camponeses, de BMW´S nas estradas rurais, em busca de um bem-querer desta terra desmedido que mais não serve para servir os seus interesses. E de peito aberto juram fazer por ela a estrada do desenvolvimento, mas em arrelias pisam-se uns aos outros. E jogos de interesses não combinam com ideais, não fazem paralelo com solos férteis, não ecoam nas vozes dos grupos corais e não sentem o vento na seara. Senhores de poder será que podiam sentir esta região em estado puro?