Dir-se-ia, facilmente à boca cheia, que os tempos não contam. Que as horas juram que são fictícias verdades. Que a distância se encurta. Que a saudade contamina, até quando se adormece. Que estamos sempre à distância de um abraço. Questões do corpo relevantes à intensidade. Falo, sinto-vos consequentemente. Pego nas fotografias. Viro-as ao contrário. Deixo-nos de pernas para o ar. Sorrio. É a amizade, diz a voz do sopro ao ouvido. Descalça, desço a rua de calçada. Dobro para o céu e lá estão de cabeça para baixo. E descortino nas formas brancas das nuvens: Estamos a caminho. Os pés seguem balanço. Que se jogue ao chão a ausência com pó. É válido. Cheira a malmequeres com pétalas a voar. No fim, a última folha cessa: Bem-vos-quero.
terça-feira, setembro 25, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Discurso do fundo...
Eis que me dá vontade de dizer o que não sei. Solto a língua. No encaixe da boca ficam as palavras, que minguam com a crença de nada saber. Volto a transpor a vontade de ser mais do que papel fosco. E apercebo-me o quão tosca é a mentira dos que sabem falar. Tenho dito: Ninguém discursa com a voz do fundo quando se aclama o que se sente. Perde-se metade na distância do coração à boca. Presunção de dizer o que se gosta. Sim, sente-se. Mas sem polegadas. Apetece-me dar-te bolas de água cheias de mim, para que as engulas e sintas o sabor do que me fazes paladar. Queixo-me mais ao eu do que a ti. Sem delongas, acredito piamente nos arrepios do corpo e curo a intenção de gastar canetas que os escrevam para fora. Calo-me. Nada digo que jeito tenha.
segunda-feira, setembro 10, 2007
Seja lá isto o que for...
Jogaram o firmamento por ali, abaixo.
Como as molas que voam das cordas da roupa.
Os pés rolaram para o fundo sem balanço de chão.
Jogaram o nimbo por ali, acima.
Como as formigas se jogam para cima dos miolos.
As mãos afundaram-se nas almofadas de esponjas às cores.
Jogaram a limpidez para o lado.
Por molhar ficaram as línguas secas.
Os dentes cerraram como uma arca velha.
Jogaram a sorte e espalharam-na nos espaços dúbios.
Chegou-te alguma ao coração?
Como as molas que voam das cordas da roupa.
Os pés rolaram para o fundo sem balanço de chão.
Jogaram o nimbo por ali, acima.
Como as formigas se jogam para cima dos miolos.
As mãos afundaram-se nas almofadas de esponjas às cores.
Jogaram a limpidez para o lado.
Por molhar ficaram as línguas secas.
Os dentes cerraram como uma arca velha.
Jogaram a sorte e espalharam-na nos espaços dúbios.
Chegou-te alguma ao coração?
quarta-feira, setembro 05, 2007
Ando a querer...
Na barriga das nuvens vou plantar girassóis a dobrar.
Quando não houver sol, afasto o vento e meto-os de pá para o ar.
Depois, darei a volta ao mundo, com a boca inundada de melancia.
Na volta, trago as bochechas carregadas de cheiros de gente.
Tudo à maneira da vontade e do sorriso.
Quando não houver sol, afasto o vento e meto-os de pá para o ar.
Depois, darei a volta ao mundo, com a boca inundada de melancia.
Na volta, trago as bochechas carregadas de cheiros de gente.
Tudo à maneira da vontade e do sorriso.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Poção dos aflitos
A mulher pediu-me cremes. Loção que faz passar as dores. Boiões brancos sem marcas. Mesinhas caseiras. Era isto que a mulher queria. Tinha os joanetes em brasa. Os sapatos pulavam na carne como as formigas fogem da água. À esquina havia a loja. Dentro da loja, havia o homem que fazia os cremes. Ao balcão estava a mulher do homem que vendia a cura. Lá dentro, as estantes de madeira com bicho estavam carregadas de coisas. Basicamente, pastas dentífricas, pentes de dentes largos, cafeteiras, champôs, ganchos para o cabelo, panelas, toalhas, fogareiros e vassouras. Tudo e cremes milagrosos, sem estarem à vista. Negócio clandestino de quem ainda não patenteou a obra.
Vendem-se cremes para as dores?
Claro, menina!
O saco transparente para pôr fruta alojou a poção. Não havia uma indicação, muito menos contra-indicações. Deduzi que fosse para todos os males do corpo e com sorte daria para espalhar sobre os da alma. A mulher pedia-me cremes. Levei-lhe um creme em estado puro. A curiosidade roía-me mais do que um rato a morder queijo.
Isto é feito à base de ervas medicinais?
Não se preocupe. Isto é uma maravilha.
Torci-me e tentei puxar da lábia, mas estava sem língua.
É tudo caseiro. Nada de químicos.
E isto faz bem ao quê?
Ora dá para as dores de pernas, dos braços, dos pés, da cabeça e da barriga. Dá também para o inchaço, para a comichão e para o formigueiro. É bom para a pele, para os ossos…Tinha o remédio dos aflitos em mãos.
A mulher pediu-me cremes. E lembrou-me à saída: “A vizinha Antónia tinha as pernas em chagas”. Os joanetes eram maiores do que os ossos. A mulher tinha fé em recuperar os pés de adolescente. Olhei-os todos recurvos. Eram feios. Percebi que a mulher trocaria a banha de porco por a banha de cobra. A mulher pediu-me cremes de benzeduras. Levei-lhe cremes com cheiro a charlatães. Na cabeça uma frase: Fazem bem a tudo. Basta acreditar e curam.
Vendem-se cremes para as dores?
Claro, menina!
O saco transparente para pôr fruta alojou a poção. Não havia uma indicação, muito menos contra-indicações. Deduzi que fosse para todos os males do corpo e com sorte daria para espalhar sobre os da alma. A mulher pedia-me cremes. Levei-lhe um creme em estado puro. A curiosidade roía-me mais do que um rato a morder queijo.
Isto é feito à base de ervas medicinais?
Não se preocupe. Isto é uma maravilha.
Torci-me e tentei puxar da lábia, mas estava sem língua.
É tudo caseiro. Nada de químicos.
E isto faz bem ao quê?
Ora dá para as dores de pernas, dos braços, dos pés, da cabeça e da barriga. Dá também para o inchaço, para a comichão e para o formigueiro. É bom para a pele, para os ossos…Tinha o remédio dos aflitos em mãos.
A mulher pediu-me cremes. E lembrou-me à saída: “A vizinha Antónia tinha as pernas em chagas”. Os joanetes eram maiores do que os ossos. A mulher tinha fé em recuperar os pés de adolescente. Olhei-os todos recurvos. Eram feios. Percebi que a mulher trocaria a banha de porco por a banha de cobra. A mulher pediu-me cremes de benzeduras. Levei-lhe cremes com cheiro a charlatães. Na cabeça uma frase: Fazem bem a tudo. Basta acreditar e curam.
quarta-feira, agosto 22, 2007
Friends...
Falta o grito. Faz falta o espalhar do vento. Chega de formigas em carreiro. Chega de quereres saltar com borboletas vesgas. Espera os dois pés no corredor. Solta o sapato e anda descalço ao sol. Amarra o Nietzsche no fundo do mar. Deixa a racionalidade imperante. Desmonta o sorriso. Cola a boca ao tecto. Já estás no céu-da-boca? Sentes o rio que corre lá dentro? Solta a água e ancora-te. Une-te a gente. Osso, carne e pele…autorizas? Deixa as artérias cravadas em estrelas e joga-te. Garanto-te: Cá em baixo está uma folha verde como trampolim à tua espera, com dois braços próximos do que advém do fundo. Vejo-te com os olhos do exagero do céu, como os passos palmilham a terra.
P.S – Não seremos eternamente felizes, mas seremos, inadvertidamente, amigos sempre…E cada hora mais dentro.
P.S – Não seremos eternamente felizes, mas seremos, inadvertidamente, amigos sempre…E cada hora mais dentro.
quinta-feira, agosto 16, 2007
Coisas boas...
Guardo o sabor do limão na boca.
Na verdade, tenho todos os cubos de gelo do Verão num baú do peito.
Fico no espaço do vento. A brisa ficou do lado de fora da parede.
Teço-me na boca das horas de um balão que voa crente.
Quando cai a noite, estico o pé em busca de uma ponta de lençol fresco.
O joelho roda e derreto-me.
Na verdade, tenho todos os cubos de gelo do Verão num baú do peito.
Fico no espaço do vento. A brisa ficou do lado de fora da parede.
Teço-me na boca das horas de um balão que voa crente.
Quando cai a noite, estico o pé em busca de uma ponta de lençol fresco.
O joelho roda e derreto-me.
sexta-feira, agosto 10, 2007
Infusão do Azul...
Se achasse que era improvável ficaria presa à manga do tempo. Sacudiria o algodão dos dias e dizia que chegava, somente, os pingos da chuva. Um depósito resguardado da enchente de maré. Mas o meu parapeito entorna. Não guardo paulatinamente as coisas. Não encontro pertença, mas vergo os olhos, esses, que dobram como os braços que abraçam. E em cada arco, uno uma ponta à outra. Fazemos um círculo. Andamos de um lado para o outro, sem linhas com cantos pontiagudos a confundirem a forma. Insolentemente, boiamos à superfície de barrigas para o ar e vidas abertas. Carregados de tardes, de noites e de estrelas ficamos a dois palmos do corpo e cheira à infusão do azul.
terça-feira, julho 31, 2007
Goldfish...
O meu peixe tem rodas.
Anda sobre um carrinho de linhas.
Não mergulha, mas desliza.
O meu peixe tem mais cores do que muita gente.
O meu peixe tem mais cores do que muita gente.
A gente gosta do peixe e ele acha-se com piada.
O meu peixe é um dos felizes do mundo.
Não está num aquário.
É feito de retalhos.
O meu peixe não foi tirado do mar, mas cheira a sal.
O meu peixe não se come. Vive.
Não foi pescado.
Porque o meu peixe é de amor cristal e o transparente só se contempla na água.
quarta-feira, julho 25, 2007
Informações...
Ando, mais ou menos, numa bola de sabão. Sem nuvens de vento. O sol agita-me a melanina. Os olhos estão tresloucados e as pestanas lisas. Se me quiserem coisas estou a esfarrapar a vida em qualquer esquina.
segunda-feira, julho 16, 2007
A ti...
Nunca pensei muito que me carregaste.
Há dias que me apetece cair.
Lembro-me: porque andaste comigo de um lado para o outro?
Tantos sonhos em mim.
e o meu maior feito é ter nascido.
Foi, somente, o de ter vindo cá.
Demais, ando inquestionavelmente por aqui.
Retorna-me a ti.
Há coisas que deveriam ficar sempre num lugar.
Na tua barriga quente.
Grávida de mim.
sexta-feira, julho 13, 2007
Musa Crew...
A tarde estava assim para o quente. Eram 15:30 no Alentejo de Verão. A vontade de ir era muita. Pelo menos, a suficiente para por a carrinha, a menina, a wadadinha, a carrinha da tribo do sol…Enfim como lhe queiram chamar, a rolar na estrada com temperaturas elevadas. Roda atrás de roda e o alcatrão a ficar para trás. Três tripulantes e dois penduras no carro de trás. Perdão. Três penduras, que o Alex também conta. No princípio éramos seis a caminho do Musa Crew.
Tentámos, embora que em vão, colocar a menina dentro do recinto. Tínhamos bilhetes. Não tínhamos era credenciais. Meia volta e praceta do Girassol no horizonte. Telefonemas da malta – que por azar vive na terra onde a câmara é comandada pelo Isaltino Morais – a dizerem: Já os vimos! Gente que se trata bem a comer, a beber e nós na busca de comida. Meninos, de não se ficarem por bifanas e hambúrgueres, instalados de fronte para o mar.
Mais um passo, outro e estávamos dentro do festival a ver as ceninhas. Espanto. A cerveja era Tagus e não havia volta a dar. Música nos ouvidos, vento no cabelo, risos e nós a encontrarmos o resto da tribo. Já éramos muitos mais do que seis.
Há gente especial neste Mundo? Há. São uns quantos. Preocupas-te? Sim, sei bem a água que gastaste no Verão passado. Podia ser o mote de um anúncio, mas não é. Aliás, até porque já vão começar as Chiquititas na televisão e isso é q.b. Qualquer coisa que venha a seguir a isso não é mais do que nada. Portanto, é apenas a união de gente e de mentes que flutuam juntas.
Mais música, alegria e amizade vasta até ao rebentar da noite. Mas qual noite? Havia cama? Havia para onde ir? Mas, só porque a canalha até é ecológica, pensou: Onde vamos nós dormir? Isso logo se vê. Pode ser em qualquer coisa que lembre ar livre e campo. Olha, podia ser assim num sítio com o nome de uma flor! Praceta do Girassol? Sim, somos rurais e depois!
A rapariga revoltada com o Isaltino em altas (passo Casanova). Sim, porque inventou um novo passo de dança (coisa digna de qualquer pessoa apreciar) confiante na nossa dormida, proferiu o que qualquer um precisava de ouvir (só assim para nos confortar). – E tão fixe. Vão dormir aqui? É que se deve dormir mesmo bem! E são quantos? Oito? (Só para que conste o colchão era de dois). Somos amigos é verdade, mas precisamos de espaço!
Mais risadas. A noite prometia. O passageiro do carro do lado mais o Alex em tronco nu, mas o espaço era apertado. A buzina atrapalhava. Os outros dois passageiros mais confortáveis e nós três – os melhores instalados graças à menina, à wadadinha e por aí. Contudo, não nos invejem meus amigos a noite foi longa tivemos uma polifonia connosco.
Novo dia, novas paragens. Praia de manhã. Gente toda amontoada. E nós vamos mas é para Sintra. Tempestade de areia, sempre a trepar, paisagem nos olhos, sorrisos na boca e gente desesperada por um frango. Noite dentro, o boom deu-se. Primeiro, houve um menino que se emancipou e colocou um brinco (já és um fixe a 100 por cento) e depois os Skaparapid levantaram muito pó. Bem mais do que o vento. Gente louca não se deveria de juntar nunca. Muita festinha. Os asseadinhos juntaram-se a nós e renderam-se à nossa praça. Manhã, pequeno-almoço no café que nos deu um jeito sem medidas. Era domingo e o fim-de-semana só termina na segunda. Então, vamos comer umas sardinhas, beber uma sangria branca (cara), mas fresca e boa em Sesimbra. A viagem não terminou fomos ver as coisas desse senhor que se intitula por Berardo. Ele há deleites na existência que não se medem.
Tentámos, embora que em vão, colocar a menina dentro do recinto. Tínhamos bilhetes. Não tínhamos era credenciais. Meia volta e praceta do Girassol no horizonte. Telefonemas da malta – que por azar vive na terra onde a câmara é comandada pelo Isaltino Morais – a dizerem: Já os vimos! Gente que se trata bem a comer, a beber e nós na busca de comida. Meninos, de não se ficarem por bifanas e hambúrgueres, instalados de fronte para o mar.
Mais um passo, outro e estávamos dentro do festival a ver as ceninhas. Espanto. A cerveja era Tagus e não havia volta a dar. Música nos ouvidos, vento no cabelo, risos e nós a encontrarmos o resto da tribo. Já éramos muitos mais do que seis.
Há gente especial neste Mundo? Há. São uns quantos. Preocupas-te? Sim, sei bem a água que gastaste no Verão passado. Podia ser o mote de um anúncio, mas não é. Aliás, até porque já vão começar as Chiquititas na televisão e isso é q.b. Qualquer coisa que venha a seguir a isso não é mais do que nada. Portanto, é apenas a união de gente e de mentes que flutuam juntas.
Mais música, alegria e amizade vasta até ao rebentar da noite. Mas qual noite? Havia cama? Havia para onde ir? Mas, só porque a canalha até é ecológica, pensou: Onde vamos nós dormir? Isso logo se vê. Pode ser em qualquer coisa que lembre ar livre e campo. Olha, podia ser assim num sítio com o nome de uma flor! Praceta do Girassol? Sim, somos rurais e depois!
A rapariga revoltada com o Isaltino em altas (passo Casanova). Sim, porque inventou um novo passo de dança (coisa digna de qualquer pessoa apreciar) confiante na nossa dormida, proferiu o que qualquer um precisava de ouvir (só assim para nos confortar). – E tão fixe. Vão dormir aqui? É que se deve dormir mesmo bem! E são quantos? Oito? (Só para que conste o colchão era de dois). Somos amigos é verdade, mas precisamos de espaço!
Mais risadas. A noite prometia. O passageiro do carro do lado mais o Alex em tronco nu, mas o espaço era apertado. A buzina atrapalhava. Os outros dois passageiros mais confortáveis e nós três – os melhores instalados graças à menina, à wadadinha e por aí. Contudo, não nos invejem meus amigos a noite foi longa tivemos uma polifonia connosco.
Novo dia, novas paragens. Praia de manhã. Gente toda amontoada. E nós vamos mas é para Sintra. Tempestade de areia, sempre a trepar, paisagem nos olhos, sorrisos na boca e gente desesperada por um frango. Noite dentro, o boom deu-se. Primeiro, houve um menino que se emancipou e colocou um brinco (já és um fixe a 100 por cento) e depois os Skaparapid levantaram muito pó. Bem mais do que o vento. Gente louca não se deveria de juntar nunca. Muita festinha. Os asseadinhos juntaram-se a nós e renderam-se à nossa praça. Manhã, pequeno-almoço no café que nos deu um jeito sem medidas. Era domingo e o fim-de-semana só termina na segunda. Então, vamos comer umas sardinhas, beber uma sangria branca (cara), mas fresca e boa em Sesimbra. A viagem não terminou fomos ver as coisas desse senhor que se intitula por Berardo. Ele há deleites na existência que não se medem.
terça-feira, julho 03, 2007
Multiplicação das coisas
Deixo hoje, só por ser hoje, o caminho engordar. Não quero ser omnipresente. Não vislumbro a eternidade a um passo de casa. Na folha verde da minha rua, numa tília, deixo cair o embalar da noite. O dia já se embala a si. O poste de electricidade tem mais altura do que eu e não é por isso que o sinto grande. Acho que é torto e desajeitado no firmamento. A minha vizinha tem um cão igual ao nosso. Mas o meu ladra mais e ela é que é uma menina. Late quase tanto como algumas pessoas. Farei ainda hoje, só por ser hoje, a multiplicação das coisas…Para que deixe umas quantas na minha rua e traga tantas outras no meu bolso.
quinta-feira, junho 28, 2007
Trocadilhos
Faz de conta que estive, mesmo quase, a terminar o conto. A acabar a reportagem. A preparar o trabalho que se segue. Faz de conta que não fui beber aquela água de chã, em que estou viciada. Que não me ri. Que a noite não acabou mais tarde do que devia e que não me deitei com a lua no alto. Faz de conta que o dia vai ser curto e que não há trabalho. Faz de conta e conta o que me faz, tudo num trago.
segunda-feira, junho 25, 2007
Apetece-me e pronto
Apetece-me andar com os chinelos na cabeça, só porque a lei da gravitação da minha mente atrai o chão.
segunda-feira, junho 18, 2007
Entretanto...
Sacudido que vem o dia não tropeço rua abaixo, rua acima.
Na horizontal estou, mais ou menos, entre as formas de resignação empoleirada no tronco da árvore do corredor esquerdo, onde vira cada esquina da casca. No mesmo barulho do vento sacudo a poeira e volto à minha beira.
Na horizontal estou, mais ou menos, entre as formas de resignação empoleirada no tronco da árvore do corredor esquerdo, onde vira cada esquina da casca. No mesmo barulho do vento sacudo a poeira e volto à minha beira.
sexta-feira, junho 15, 2007
Histórias nossas
Cinco pessoas, um punto e um candeeiro. Poderia ser a história de qualquer livro infantil, mas é história de gente grande, ou que já pensa que o é. As rugas, essas, só valem quando chegam ao cérebro. Então nós mais a sul, o carro apinhado, as conversas que o temos de trocar mais do que gastas. Porque raio não se compra um carro novo? Porque a essência é mesmo essa, bens materiais não fazem falta a ninguém e por aí. E o carro a ouvir discussão de gente feliz. Mais um passo, outro, o carro apinhado. Vilamoura no horizonte, risadas e reviradas de olhos. Auto-estrada cheia, em caminho de Agosto. Carrinhos passam completos de gente que vai descansar por quinze dias, as férias do ano. Essas em que se acabam com os trocos e em que se comem gelados à noite na marginal. Os filhos querem tudo. Os pais dizem que já chega e que já se foi o subsídio de férias. O marido anda feliz com a mulher. A mulher anda feliz com o marido. Os meninos apanham praia e às vezes comem uma bola de Berlim na areia. O descanso é pleno. À noite compram um frango assado e comem na varanda da casa alugada. Isto é que é qualidade de vida diz, normalmente, o pai. Olham em frente, os vizinhos também estão a comer. Os homens estão em tronco nu e as mulheres cheiram a champô e a creme para depois do sol. A mulher acha que o frango é pouco, traz uma sopa para aconchegar mais o estômago. A janela é de correr. Está uma noite quente, longe ficaram as horas no escritório de contabilidade. Distraída na sua satisfação plena, os vidros limpos de mais e a falta de vista ajudam a errar na saída. Não sai na portada aberta. Embate no vidro. As crianças riem, os adolescentes “pelam-se” a rir. A mulher ri. Estamos de férias. O pai avisa: não partam nada que a casa só tem coisas do melhor. O apartamento com piscina, mesmo na rua da praia, pertence a uns emigrantes que foram para a França, mas que não trocam Portugal por nada deste mundo.
O punto na estrada. A auto-estrada cheia de nervosos a quererem chegar e eis que passa um senhor conhecido da opinião pública, de óculos azuis. Basicamente, um senhor que goza com os outros. O punto cheio. O senhor num carro em que se pode optar por tirar a capota e o condutor do punto a vê-lo no retrovisor. Tenta ultrapassar e não consegue, porque o punto é potente. O condutor do punto faz-se de rogado, aperta com a máquina. Não dá mais. Não ficando satisfeito diz: Passa por cima. E nós a pensarmos: pronto amanhã somos piada nacional naquele programa em que as pessoas se levantam para rir.
Um cheiro esquisito. Ninguém o sente. Errado, ao condutor cheira a combustível derramado. Os pneus nos eixos, os risos rasgam-se mais na boca, a relva da câmara municipal estragada, o nosso charme sacudido à rua e o acontecimento virou história. Sai do carro, cheira-o como se tratasse de uma bomba. Nada, o punto continua vivo para mal dos seus pecados. Ninguém o quer trocar. As férias continuam ao seu volante.
P.S – Rita, não troques o punto ele é nosso amigo.
O punto na estrada. A auto-estrada cheia de nervosos a quererem chegar e eis que passa um senhor conhecido da opinião pública, de óculos azuis. Basicamente, um senhor que goza com os outros. O punto cheio. O senhor num carro em que se pode optar por tirar a capota e o condutor do punto a vê-lo no retrovisor. Tenta ultrapassar e não consegue, porque o punto é potente. O condutor do punto faz-se de rogado, aperta com a máquina. Não dá mais. Não ficando satisfeito diz: Passa por cima. E nós a pensarmos: pronto amanhã somos piada nacional naquele programa em que as pessoas se levantam para rir.
Um cheiro esquisito. Ninguém o sente. Errado, ao condutor cheira a combustível derramado. Os pneus nos eixos, os risos rasgam-se mais na boca, a relva da câmara municipal estragada, o nosso charme sacudido à rua e o acontecimento virou história. Sai do carro, cheira-o como se tratasse de uma bomba. Nada, o punto continua vivo para mal dos seus pecados. Ninguém o quer trocar. As férias continuam ao seu volante.
P.S – Rita, não troques o punto ele é nosso amigo.
quarta-feira, junho 13, 2007
Havana abrasa o fresco
A pedido de várias famílias e dos abastados do sol...cá vai.
Dactilografar uma cidade é coisa pouca. É ser abreviado em forma e odores. Havana fica entre a terra e o mar, onde o horizonte é azul, mas menos claro que o céu. Fica a bailar numa estrada grande, com pessoas deslizando à beira sal. O sol aquece o peito, os ombros e fervilha num individualismo mais que primário. Diria que o homem amorna ao seu calor. Nesse dia, não vi chegar o tempo. Não olhei as mãos caucasianas, pálidas. Membros escuros do clima deambulam numa cidade de antes e não sei de que data. Arriscaria a dizer que, aqui, a locomoção mexe mais do que em qualquer outra parte do mundo. De pé em pé o alcatrão fica para trás. Longe ficam os motores potentes e paira um cheiro de combustível ainda a arder. Sabem quando abrasa o fresco? É assim que me cheira Havana. Num soalheiro sem frio. As casas são de pedra crua, nuas e quase sem cal. A luz é reduzida a meia voltagem. O dia começa mais cedo do que em qualquer outro local do mundo, em que eu já tenha adormecido. É a sensação de acordar muito cedo, porque me deitei não que muito tarde, mas a meio da noite. A oralidade cresce em cada esquina, a conversa floresce do nada como se não fossem os viajantes os que conhecem país distante. Somos a peça que chega com novidades do mundo de cá e com cara de bom poder de compra. Nas curvas, nas rectas e nas entrelinhas ficam os cartazes que não se contornam incitando a uma consciência comum. Fiquei com a sensação de um herança de crenças, que passa de pai para filho até que o filho a renegue, ou não. Assim, em Havana há uma linha de sucessão ou de diferenciação. Não é uma cidade cosmopolita e a sua alma prende-se nas cordas da roupa agarrada por molas em qualquer varanda de qualquer casa de portas abertas e de vidas escancaradas. O dia corre ao sol, os sinais continuam vivos, as pessoas cantam e andam quase sempre na rua. Creio mesmo que este seja o seu maior abrigo. A língua deambula em lábios fáceis de meter conversa. Havana é um mundo particular, onde se podem inventar as nossas vidas anteriores e por mais que julguemos as actuais é sempre uma indecisão ao avaliar. Pode-se aprender o convívio, mas há algo que nos fica atravessado nas paredes das casas, que parecem ter tijolos transparentes. Há algo que quem só vive em Havana compreenderá. Nós ficamos com esse cheiro de quando abrasa o fresco. Ficamos com as nossas ideias, com as nossas concordâncias e as nossas discordâncias. Há gente em Havana, tanta gente que o Malecón à noite é uma imensidão de sal e cabeças à beira azul. Nós nos nossos trajes de europeus em nada se assemelhamos a quem sabe viver assim, em paredes cruas em Havana. É fácil de falar de Havana distante. É muito difícil de escrever. Mas o que mais trago em mim…é esse cheiro quente, mesmo quando o vento se levanta.
domingo, junho 03, 2007
O que não sei que seja...
Já não é preciso calçar o sapato para saber que os passos caminham. Inevitavelmente as pernas andam. São as mesmas que me fazem, normalmente, subir as escadas. As mesmas escadas, as mesmas pernas a trepar. Uma porta de madeira e vidro abre, lá dentro a música toca e o edifício é de 1910. Anos da República? Quando o cometa passou e o mundo ia acabar, contam-me os relatos da época. Talvez, a primavera mais rebelde de sempre. Hoje, os sons são diferentes, as primaveras são outras. Estamos quase no estio. Vamos fazer uma revolução?
quinta-feira, maio 24, 2007
Coisinhas que dão confusão...
Passei por uma montra cheia de vestidos de noiva. Lá dentro, uma boneca sem rosto tentava passar a maior felicidade do mundo. Sim, a boneca não tinha lábios. O vestido era branquinho como a cal. Provavelmente, entrará no corpo de alguém que sonha com dias felizes. Mas, os dias começam chatos em casamentos. Normalmente, Agosto quente é o mês escolhido, os cabeleireiros fazem penteados muito feios nas pessoas chiques por um dia, a maquilhagem é exagerada e o calor seca o rímel. Então, a ideia é ser um dia de comemoração. Festa muita festa. E há por ai alguém que se sinta confortável em vestidos de tecidos foleiros? Quem começa a comemorar por uma missa? Quem se gana por ir tirar fotografias pela hora quente? Quem gosta de adiar o estômago para depois da missa e das fotografias? Será o princípio de algo estrondoso? Depois as pessoas comem marrecos nos fatos, os pratos inundam-se de talheres e a mesa dos bolos contínua intacta. Casais deste País façam um favor a vocês e aos convidados, casem de chinelo no dedo, vão de calção, deixem-se de formalidades e saiam dos fatos convencionais e das festas ridículas, onde ninguém se diverte. E já agora não empenhem os papás, nem os convidados…é que a vossa pseudofestinha sai cara. Quem é que se diverte num casamento de burocracia? Eu, certamente que não.
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