Como não sei pintar, tricotar, bordar e evangelizar, entretenho-me com coisas mais fúteis. Não fosse a máquina secular da minha bisavó ter morrido durante a minha infância e poderia ter dado uma boa costureira de província. Acredito que seria uma satisfação para quem, como eu, não sabe fazer bainhas. Não sei dizer a Ave-maria. Ficou-me o pai-nosso de cada dia que aprendi na escola. Temo que, lá em casa, sejamos todos castigados – exceptuando a minha avó – por não sabermos os desígnios de Deus. Sei cozinhar uma coisa ou outra, mas nada que encha o estômago a um bom garfo. É triste, mas é verdade não sou um bom partido para casar. Ainda assim, tento aqui dizer que é algo que não me importa absolutamente nada. Afinal, um dia destes aprendo a fazer tapetes de Arraiolos e ficou uma mulher e pêras. Assim, admito-me uma inútil e é só por isto, simplesmente por este motivo, que me entretenho a avaliar a vida de quem passa. Sou, por certo, uma praga. Fico parada e tento adivinhar o que faz cada um. No restaurante em que almoço conheço um monte de gente de vista. São meus conhecidos. É como uma grande família que nem precisa de falar, mas que sente a falta quando algum membro não chega. No fundo, somos unidos. Tenho para mim que o homem calmo que chega com um livro com a capa ocultada pertence a uma seita. Da mesma forma que a família que se pendura no pescoço um dos outros, vezes sem conta, são umas lapas do pior. Parece que não se vêem há séculos, babam-se uns aos outros e comem quase nada. Os cavaleiros da Távola Redonda são os típicos tios porreiros que usam camisas aos quadrados e casacos pelos ombros. O casal que me faz reavivar a memória, com os antigos modelos da moda, lembra-me a minha mãe quando nasci. E, por fim, a família dos feios, sujos e abandalhados. A minha vizinha do lado, companheira de tais divagações, diz-me que o homem é engenheiro e que a mulher é professora. E depois, confiante argumenta: “Já os ouvi a ter conversas científicas”. E, eu, perante isto quase que dou o braço a torcer. Mas insisto: “Ela pode trabalhar num centro de saúde, ou numa repartição de finanças e ele faz a contabilidade dos senhores de bem da cidade”. E julgo ser altura de tornar-me uma mulher útil. Mas só daqui a mais um bocadinho, porque agora vou almoçar.
Fotografia: Martin Parr