Todos os dias bebia o mesmo vinho, aquele igual aos cachos escolhidos sem harmonia, sem nobreza e sem pieguices. Todos os dias sacudia a velhice do casaco. Deixava as rugas à porta e comungava do mesmo silêncio dos que estão virados para dentro da casca. Nunca levantou voo nas asas de um avião, mas sempre soube voar para lá da praça. Não deixou que os lábios se ferissem pelo amor. Guardou o coração para depois. E certo dia morreu vazio de ninguém. Com o gelo nos ossos, mas com um sol inteiro nos olhos. Por nada fazer, por nada ter e ninguém quem ver, apreciou-o a ir de mansinho, baixinho. E perdurou seco de gente e germinado de girassóis.
terça-feira, outubro 28, 2008
sexta-feira, setembro 19, 2008
De apetecer...
Não entranhar o poder dos sábios. Deixá-los de fora. Ficar nas curvaturas. Apetecer o sabor dos lábios. Dedilhar o charme dos ossos e anafar a silhueta dos olhos. Ter visões frequentes de amores a ponte. Subir aos pulmões, com ar e com falta dele. Sentir com mel, com flores de magnólias e com ventos a abrir. Não saber dos outros. E subir à terra com se de longe exprimíssemos correntes.
quinta-feira, agosto 28, 2008
Des(ditos)
Isto é uma coisa qualquer. Não precisas de entender o tom cândido das palavras. Deixa as metáforas para os assinantes de gramáticas. São baboseiras ditas, escritas. De repente um relâmpago e estamos em Agosto. Engulo e também não faz sentido, mas não é por isso que questionamos os céus. Arregalo os olhos, visto a camisola de cores e deixo-me andar. Uma coisa é tanto maior quanto maiores forem os cheiros. Entende só o olfacto e deixa as letras. Isto é a pele escrita por dentro e o resto são ditos abertos para fora. Permite-me, hoje, ter frio de literaturas.
segunda-feira, agosto 04, 2008
Fim de tarde
Uma música, uma música. Notas melódicas de amor. Os pés com grãos de areia e novamente a música: “Fearless on my breath. Gentle impulsion”. O mar a olhar para mim azul, verde. Os peixes em festa. O sol a ir-se, calmo, baixinho, sorrateiro. O Lobo Antunes a cair-me nos joelhos com a sua memória de elefante. Um sorriso de domingo tranquilo. Um intervalo de gente. A orgânica a destilar e os braços leves. A pele, mais escura que clara, a insistir no suposta facilidade de viver. Um sorriso interior largo e a música novamente: “Shakes me makes me lighter Fearless on my breath”. E adivinho que, hoje, os peixes continuem em festa. Lá, onde daqui a umas horas imagino irromper a verdadeira liberdade dos que correm fartos.

quarta-feira, julho 02, 2008
Casulo...
Incremento o poder de nada dizer. Recolho-me no casulo e perco o meu par de chaves. Deixo a fechadura à ferrugem. Por mim fico-me. Dá-se o desejo dos silêncios. Que seja feita a minha vontade. Encolho as pernas e os braços metem-se dentro da cápsula. Rebolo-me no cheiro das folhas das Amoreiras, porque se quiser sou uma espécie de larva-mariposa-bicho-da-seda e nasço nas manhãs.quarta-feira, junho 18, 2008
...!
Se eu te falasse em ar acho que entendias. Sabes do vento e sabes de mim. Por vezes, sei que me entendes em nadas, em nadas feitos de vento.
terça-feira, junho 03, 2008
Não se chamam nomes às coisas tantas...
Parido, acalorado. Sem chinelos pardos. É assim. Com as coisas do costume coses-me. Pesponteias-me, linha a linha, a ti. Não me frisas em folhos, deixas-me caída pela bainha, caída pelo beiço. Deixo-me. Fico-me. Amarraste-me. Dou-te o meu umbigo em novelos e a minha barriga é o centro dos astros. E sei-te, com as intenções dos frutos maduros e das folhas verdes. Não fosses tu....jurava já ter visto tudo.
segunda-feira, maio 26, 2008
Maio é das Papoilas

Maio é das flores e de poucas palavras.
Maio é das flores . Calo-me. Maio é das papoilas!
Foto da Claúdia:)...Daqui, da terra quente!
quinta-feira, maio 15, 2008
Sei lá eu...
A propósito do coração ser uma bola que, por vezes, salta muito e outras nem tanto. A propósito dos dedos ainda não terem o poder de estancar as feridas e de não poderem tapar a dor com a mão. A propósito dos engasgos das gargantas e das tretas (muitas, algumas, várias, parvas, nojentas) dos dias. Não sei se isto importará muito amanhã. E se está aqui tudo, porque não penso que esteja?

Foto: Ivone People
quarta-feira, abril 30, 2008
A minha rua tem hortelã...
A minha rua tem uma leira de hortelã que cheira a canja e às sopas dos grãos. A minha rua, que é também a da minha vizinha, a dos meninos que correm e a das mulheres que se sentam às portas, tem brisa comunitária. Digo isto porque a hortelã colhe-se com as mãos. Colhe-se com o prazer de ser de nós e de quem a queira. Corta-se pelo pé e não precisa de autorização para ser levado para casa. Na minha rua, a hortelã não tem regras nem punições. Temos o sentimento de partilha no cheiro de uma erva aromática. Não se troca, não se vende. Apanha-se. Faz tempo que não vou lá. Essa era a minha tarefa de criança e depois meti na cabeça que cresci e vim trabalhar. Não estou disponível quando a minha avó precisa de hortelã. Não estou à mão de um pedido seu. Chega o fim-de-semana e costumamos almoçar juntos. Sentamo-nos nos mesmos lugares de sempre. Quando as visitas vão lá a casa sou eu que costumo ceder a cadeira. Fico de costas para a janela. Não faz mal. Não me importo. Sei as pernas da árvore de cor. Saberia soletra-las se de um poema se trata-se. Não tenho ido apanhar hortelã. São estas pequenas coisas que me fazem pensar o quão aborrecidos são os adultos. Apetece-me ter tempo para jogar às mãos à terra. A minha avó continua a fazer a canja. Vai nas suas pernas pequenas de quem já percorreu léguas. A minha avó continua a fazer grãos. Vai no seu corpo magro de quem já viveu o mundo todo. Eu não tenho ido à hortelã. Acredita: Se, por momentos, não te fui ver, foi para te deixar crescer.
quinta-feira, abril 24, 2008
terça-feira, abril 15, 2008
Alentejo
Não me incomodam as tuas preces de chuva. Nem tão pouco sei bem se sabes rezar. És como as flores abertas ao sol. Tanto me faz. Deixa o vento dar-te borboletas de cheiro. Não engulas, à passagem das ervas daninhas, os espinhos do campo. Tece um casulo de sabores. Enrola-os em linho. Protege os pássaros tenros dos ninhos. Fica de mãos abertas a contar pirilampos de cor. Deixa-te ficar. Fica no lugar da palha, do trigo sábio, das estevas e das papoilas. Tanto me faz, tanto me faz. Deita-te à água e verás que é em ti que nasce a minha, a tua força. Cresce como semente na próxima primavera. Tanto me faz, tanto me faz. Não há forma fácil de fazer-te, ser-te. Não há forma fácil de mostrar-te a quem não te sente. Cresce, mantém-te. Quero-te assim minha terra: quente, lutadora, imponente, sabedora, feliz de gente.Foto: José Serrano - Zeca:)
segunda-feira, abril 07, 2008
Alto, muito alto...
Não há paciência para a falta de conversa. Não existem bocas para os assuntos parvos. Deixo a crença ao critério dos que acreditam. A mim desfaço-me de tempo e puxo o lado esquerdo um bocadinho mais para cima. Um coração em subida guardado num balão de ar quente. Alto, muito alto. Ontem como hoje, um passeio de diversão aberto ao ar. Estamos da altura do sol a espreitar a terra.
terça-feira, março 18, 2008
A minha avó deu banho ao cão
A minha avó deu banho ao cão. Disse-me que estava imundo. Soou-me a vadio. Olhou para mim com cara de urso e sorriu. Sente-se bem na pele dos que correm a calçada a cheirar as ervas. O pêlo escorrido denunciou uma distante ida à rua sem trela. Quando o cão toma banho é como se envergasse uma roupa nova. Na verdade, a minha avó veste-lhe o melhor fato de cerimónia. Dá passeios de cão de madame. Não é farto nas convivências, nas descobertas. Não corre com a língua traçada a esbanjar alegria. Um dia segredou-me que é mais feliz com pulgas e com lama. Olhei para o cão e lembrei-me de mim em dias importantes. Vestiam-me as meias aos losangos até aos joelhos, a saia, a camisa branca e punham-me a fita no cabelo. Depois, os baloiços chamavam-me, a areia entrava nos sapatos, as meias enchiam-se de terra, a camisa branca voltava às manchas e, pelo caminho, ainda esfolava os joelhos. O cão (amarelo, preto, branco, castanho) cheira a sabão de humano e deixou de ser cão; mas, vale-se da terra do limoeiro, das escapatórias sorrateiras e da memória terna e curta da minha avó.
quarta-feira, março 12, 2008
Quando o tempo me pausa...
Tiro este tempo que me sobra do bolso. Tiro-o das fronhas das calças, dos esconderijos denunciados e dos papéis sem nexo. Não tem muita importância de onde o tiro. Apraz-me saber que o tenho e que o posso inundar a qualquer momento. Por vezes, apetece-me mergulha-lo em saliva, em beijos quentes. Devoro-o como o chocolate a derreter boca abaixo, pescoço dentro, dedos acima. Tenho-o das infinitas horas com regalias de descanso. Sobrou-me dos dias sem paciência para a conflagração das regras. Paro-me às 17:45 a perfurar pensamentos ávidos. Estou a rebolar de vagar. Assisto invertida às mulheres que passam carregadas de sacos com repolhos e aos homens que passeiam os corpos moles em carros. Fico-me saciada dos seres e das vidas urbanas. Vou para casa. Na minha terra cheira a verde e, a esta hora, os meninos andam de bicicleta com a testa suada de riso.
sexta-feira, março 07, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
De facto aborrecem-me...
De facto aborrece-me a chuva, mas as mulheres intriguistas aborrecem-me ainda mais. Vejo grafonolas saltitantes, azedas, monocórdicas. A tonalidade dos dias dão-me para pensar em coisas chatas e não há nada mais enfadonho que a mesquinhice humana. A competição causa-me tremendos nós. Imagino manadas a correrem sem caminho. O chão treme e limpam o pó da estrada. Atracam os corpos em bando e lutam, somente, em prol da inveja. Amarguradas falam com o mesmo tom dos cães. Rosnam e chegam a salivar. Na há silêncio onde perdurem ruídos. Não há corações que cresçam ácidos.
Imagem: Barbara Kruger
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
"Diazinho" dos namorados, não obrigado!
É oficial que acho ridículo o “diazinho” dos namorados. É uma data parvinha, vaga, vazia, oca e, sobretudo, chatinha e irritante. O romantismo salta às ruas. Na verdade, falta é o verdadeiro amor. Os balões dizem “Amo-te Muito”, os peluches abraçam corações, as meninas passeiam rosas vermelhas de paixão e os meninos, esses, amontoam-se nas floristas, nas perfumarias e nas relojoarias. Há romantismo? Não! Tenho para mim que o amor entranha na pele, nos braços, nas pernas, na boca, nos pés, na ponta do nariz e que borbulha. Acho que é, precisamente, onde o sentimos que ele está. Por vezes sinto-o no ouvido, nos dedos, nos fios do cabelo e respiro-o. Sou apologista do amor, mas sou contra as provas sociais. Dispenso o dia em que as moças ostentam os moços e os moços ostentam as moças. Um rodopio. Dispenso os jantares românticos, porque a data assim o institui. Por estes dias, há por aí muito boa gente a pensar no que vai oferecer. Torna-se um frete, uma chatice, uma dor de cabeça, mas fica bem. O amor não pertence aos dias destinados. Quando se sente, o amor é os dias. O amor não vai em globalizações. Não tomem o amor como parvo. Acreditem que ele sabe que não é de modas e de convenções socio-económicas.
Não se ofendam. Tenham-me como uma ovelha tresmalhada.
Imagem: Chagall
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Cotton Candy
sexta-feira, janeiro 18, 2008
À hora de almoço
Como não sei pintar, tricotar, bordar e evangelizar, entretenho-me com coisas mais fúteis. Não fosse a máquina secular da minha bisavó ter morrido durante a minha infância e poderia ter dado uma boa costureira de província. Acredito que seria uma satisfação para quem, como eu, não sabe fazer bainhas. Não sei dizer a Ave-maria. Ficou-me o pai-nosso de cada dia que aprendi na escola. Temo que, lá em casa, sejamos todos castigados – exceptuando a minha avó – por não sabermos os desígnios de Deus. Sei cozinhar uma coisa ou outra, mas nada que encha o estômago a um bom garfo. É triste, mas é verdade não sou um bom partido para casar. Ainda assim, tento aqui dizer que é algo que não me importa absolutamente nada. Afinal, um dia destes aprendo a fazer tapetes de Arraiolos e ficou uma mulher e pêras. Assim, admito-me uma inútil e é só por isto, simplesmente por este motivo, que me entretenho a avaliar a vida de quem passa. Sou, por certo, uma praga. Fico parada e tento adivinhar o que faz cada um. No restaurante em que almoço conheço um monte de gente de vista. São meus conhecidos. É como uma grande família que nem precisa de falar, mas que sente a falta quando algum membro não chega. No fundo, somos unidos. Tenho para mim que o homem calmo que chega com um livro com a capa ocultada pertence a uma seita. Da mesma forma que a família que se pendura no pescoço um dos outros, vezes sem conta, são umas lapas do pior. Parece que não se vêem há séculos, babam-se uns aos outros e comem quase nada. Os cavaleiros da Távola Redonda são os típicos tios porreiros que usam camisas aos quadrados e casacos pelos ombros. O casal que me faz reavivar a memória, com os antigos modelos da moda, lembra-me a minha mãe quando nasci. E, por fim, a família dos feios, sujos e abandalhados. A minha vizinha do lado, companheira de tais divagações, diz-me que o homem é engenheiro e que a mulher é professora. E depois, confiante argumenta: “Já os ouvi a ter conversas científicas”. E, eu, perante isto quase que dou o braço a torcer. Mas insisto: “Ela pode trabalhar num centro de saúde, ou numa repartição de finanças e ele faz a contabilidade dos senhores de bem da cidade”. E julgo ser altura de tornar-me uma mulher útil. Mas só daqui a mais um bocadinho, porque agora vou almoçar.
Fotografia: Martin Parr
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