quinta-feira, agosto 06, 2009

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Porque chegas-te tão tarde, mas a tão boas horas?

quinta-feira, julho 30, 2009

Acorda-me amanhã

Ao meu dia dá-me o sabor das imperfeições que são completas. Lembra-me de como é fácil mastigar o fruto e cuspir o caroço, porque o tempo a acontecer, a mim, nunca me demora. Verte a liberdade de irmos indo por aí, neste mundo de parapeito aberto. Acorda-me amanhã, com um beijo que não precisa de entender o modo certo das palavras. Tenho o corpo terrivelmente narrado e aposto que sabes que nunca há um ponto concreto a finalizar a frase

quarta-feira, julho 08, 2009

A minha avó e o Cristiano Ronaldo

A propósito do Cristiano Ronaldo. A minha avó diz que o valor da transferência dava para repartir por o Mundo todo. E, eu, perante isto, calo-me e brindo aos seus cabelos brancos. Acredito seres tu a verdadeira cor da transparência. Puxo-te a cara para o afagar de um beijo, enquanto expludo de orgulho do amor que já me transborda de dentro.

terça-feira, junho 16, 2009

Inventar-te aqui...

Ando para trás na cadeira. Liberto-me à vontade das pernas. Absorvo-me para dentro e o mundo lá de fora escorre-me pela cintura. Cai-me que nem uma luva. Sem esforço, deponho-me à sua mercê. O dia há-de rasgar-se daqui e encher-se com o cheiro das marginais das viagens. Passa-me mesmo ao lado do braço esquerdo o sentir da tua marca. Acabei de te chamar meu amor, com o zumbido dos pássaros desta janela.


Imagem: Brian Gaberman

quarta-feira, junho 03, 2009

De dentro...

Sabe-me a vida a cerejas.
Daquelas que da boca vertem toda a liberdade do amor.
E ele só pode vir daqui, de dentro.

terça-feira, maio 26, 2009

Foste com os dias

Deixei de falar muitas vezes contigo. Deixei desde aquele tempo em que tu foste e eu fiquei à espera. Já não falo contigo. Quase nada fala. Antes dava por mim a falar contigo sozinha e, por vezes, já não me recordo de ti. Depois há aqueles dias de Primavera de recordações que já ninguém nos tira. Podíamos mandar palavras pelo ar, mas acho que já nem te lembras do número que calço. Se calhar nem sabes que cresci e que também aprendi a gostar de favas. Sei que são coisas menores. Deves de ter muitas coisas importantes para fazer e pensar. Consolo-me. De nada me serve. Sinto que já não me apetece muito saber-te. Mando-te esta carta e não quero que me respondas. Acabas por dizer coisas vagas e eu queria coisas fartas. De qualquer modo, está tudo bem?

sexta-feira, abril 24, 2009

Obrigado por Abril

Hoje enche-me a alma cruzar-me com a vizinha Xica. Vê-la do alto dos seus 70 anos a parodiar-se pela rua e a aprontar-se para a chegada da noite de 24, onde há cantes à liberdade e fogo de artifício aos molhos. Ela e o vizinho Pedro estão quase prontos. O jantar, esse, será servido mais cedo. A bata ficará pendurada na porta e a noite de Primavera tropeará. Pelo caminho, encontrar-se-ão com homens e mulheres de outros bairros. O casaco irá sobre os ombros e descerão até à avenida, onde as árvores já cheiram e brotam verde. A chegada da noite fará sair os lenços da algibeira e abrirão o pano para cobrir a pedra gelada da bancada. É ali que os encontro sempre que lá vou, no ponto privilegiado. O vizinho Pedro estará, à semelhança de todos os dias, com o seu chapéu envergado. Do alto, olhará as crianças que correm suadas, os pais que viu crescer e os seus amigos de batalha. Sentir-lhe-ei o sentimento de orgulho na liberdade. Depois, avistarei, ainda, o vizinho Xico e o avô Florival da Rita. A banda filarmónica ecoará, à meia-noite em ponto, os sons da Grândola Vila Morena e com o peito aberto cantarão Abril. E direi para mim, com a pele arrepiada e uma esperança infinita que o sintam: Valeu tanto a pena.

sexta-feira, março 27, 2009

Actualização quotidiana

De não ter nada para dizer. Saber mais das volvidas das ruas do que dos passos sobre as calçadas. Doei-me as pernas e custa-me a andar, mas palminho caminho. Palminho com os meus ténis novos que de novo só já têm a carapaça, porque a sola sujou-se do sujo dos dias, da poeira das horas e das vidas que passam viradas.

terça-feira, março 03, 2009

Tindersticks


Adiei esta escrita. Talvez por ter ficado com a garganta apertada e o nó da alma presa aos pássaros, aos campos de natureza, ao vento e ao sol a cair. Vi também a noite com os seus copos de vinho solitários e o coração carregado de palavras fortes. Tristes, mas sublimes. Quiçá que me entraram flecha adentro. Carregaram-me com o sabor das idas, sem regressos. Revisitaram-me vezes sem conta e apoderaram-se do meu corpo parado. Inundaram-me por dentro e deixaram-me ensopada. Sustentaram-me os poros sem meias sentenças. Por isso é que acredito que todos os que viram Tindersticks ao vivo, no coliseu, ficaram mais gente, enquanto seres que sentem.

A ti, por me tornares mais pessoa.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Niente

Deixar-me ficar sem as pernas do sarcasmo. Não interessam as coisas avessas e muito menos as inversas do topo da alma. Devem de ser como os bicos dos lápis apagados e como as mãos pesadas de anéis. Um carregamento de pretensas de nada. Um saco despejado e oco no lugar da cabeça. E de tanto vento aproveitar-se-á o vazio.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Não podes ver. Não sabes que as armaduras são duras? São bolas dinamite a rebentar. São pássaros sem asas e com bicos toscos, tortos. São coisas parvas. É o armário do coração fechado. É a boca seca e os sapatos apertados. Não podes ver, porque não o sabes. Fica-te nos azuis das manhãs e nos sóis de Inverno. Debruça-te para dentro e chocalha-te, abana-te; mas não acordes.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Politiquinhos


Queria freneticamente que todos fossem assim, depurados. Queria que todos, e até os que nunca poderão ser, fossem só osso e vida. Não me importaria que andassem nus e de chinelo de dedo. Pausadamente sentados numa cadeira de plástico, a olharem a praia vasta. Queria-os com o coração livre e aberto. Sem fato. Queria-os a espreitarem a terra de peito farto. Dar-lhe-ias uma caipirinha de recompensa. Não gostaria de os saber a roer os calcanhares ao poder. Não os queria assim: Como os cães que cheiram o mijo dos seus parceiros e que, depois, mijam aqui e acolá. Colocava-os nos bairros em mangas de camisa arregaçadas e dava-lhes uma sopa atulhada. Gostava que fossem loucos, loucos o suficiente para sentirem. E que fossem gente, mas se serem pragas, ervas daninhas e musgo agarrado. Por mim, seriam políticos felizes, políticos sem gravata. Sem o seu ar patético a destemperarem os domingos, as segundas, as terças, as quartas, as quintas, as sextas e os sábados.
Imagem: Magritte

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Camané

Sim, está a chover lá fora. Estou arrepiada e não é do frio. Hoje, toca-me o Camané no leitor. Toca-me. Dilui-me o tempo e deixa-me quieta. Suspende-me e deixa-me estar. Solve-me de qualquer composto material. Entrega-me ao cheiro das laranjas no pomar e enche-me as paredes de sonhos. Fico-me na ilusão de que o homem seja ainda voz e pele. E de uma só vez leva-me a vida à boca.

Foto: Reinaldo Rodrigues

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Mãe

Foi ontem mãe, mais coisa menos coisa, que me tiveste. Estás igual. Os 26 anos não passaram por ti. Continuas a cheirar a perfume e trazes as mãos com as unhas longas. Não sabes quantas vezes já te vi a pôr verniz. Tantas. Já não durmo na tua cama, resolvi ter um espaço meu. Mas tem dias que me aninho no teu leito, normalmente com o acordar das manhãs. Não imagino como um corpo como o teu me pode ter suportado. Se não fosse verdade, duvidaria. Bem sei que não te sai nas semelhanças. Somos diferentes. Tenho a pele mais morena, o cabelo mais escuro, os dedos maiores do que os teus e o meu tamanho já te abraça por cima. Sou teimosa e tu és mais conformada. Não nos vestimos de modo igual e bem sei que, muitas vezes, me gostarias de ver de blush rosado. Tenho os meus aspectos e tu tens os teus. Somos uma face da mesma moeda, mas tu és a coroa e eu sou a cara. Tem vezes que o bater do teu coração se ouve mais perto da minha boca. E tento remendá-lo, quase sempre sem jeito, sem nexo. Depois, voltas a sorrir e a perguntar muitas coisas. Tantas que me deixas confusa. Mudamos muitas vezes de linha, desafinados, desatinamos. Voltamos a sintonizar-nos na mesma estação. Irrito-me e tu ris. A timidez muitas vezes ata-me os braços e retrai-me o atrevimento. Deveria de ser mais fácil dar-me. Alinhas a vida à esquerda, normalmente no mesmo sentido em que bate o coração. Acho que aprendi a fazer isso contigo. E, não sabendo como, quebro-me muitas vezes e sinto coisas apertadas cá dentro. É a vida, diria a avó. Ambas não herdámos a sua perseverança. Muitas vezes pensei porque não me tiveste em Julho. Janeiro, decididamente, não é o meu mês. E sem haver nada a fazer, não te preocupes, porque imagino sóis nas persianas. Repara que tenho muitas coisas para te dizer, mas perco-me. Não há forma original de te mostrar. Um dia pintei uma pedra e fiz dela um ouriço. Ainda a tens na secretária e fizeste dela um pisa-papéis. Depositei nela todo o meu empenho e orgulho-me de seres tu que a estimas. Mãe, não poderia ter crescido melhor e não haveria melhor ventre para nascer.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

dentro

É com as mãos fartas de tudo que digo que o que respira nem sempre vive. Da mesma forma que aniquilo a vontade de saber se as borboletas voam mais no estômago ou no ar. Não me interessam os factos, interessam-me as raízes.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Silêncio

O que me apetece é o silêncio.
A voz calada. Parada e enxuta de saliva.
Desejo dobrar a língua com um nó. Amarra-la até as cordas do som.
Sacudir as palavras para lá, para longe.
Redimir-me à vontade de nada dizer. Ficar sem poesias.
Estranha vontade de ficar oca, vazia e sem floridos.
Quero depurar-me de tudo e depois, só depois, voltar a encher-me.
Traficando vontades, sentindo-lhes o cheiro e o sabor.
E secretamente ir sabendo dos tremores dos desejos.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Colchões

O corpo gelado de um lado. Só de um. O outro quente, tampado pelo edredão. Rolei sobre o colchão a minha preguiça de Outono. Um bordado no colchão a indicar com uma seta o Verão para cima. Chegou-me, neste preciso momento, a nostalgia. Era dos tempos em que eu não tinha braços compridos e insistia com a minha mãe em querer virar o colchão, consoante a estação. Era do tempo em que este ritual existia duas vezes por ano: Verão e Inverno. Abstinha-se a Primavera, o Outono. Frio e quente. Fora com o morno. Os colchões não têm meios termos nas temperaturas. Sempre me fez confusão estas almofadas gigantes terem duas texturas. No fundo, nunca acreditei e sempre disse que isto só foi feito para dar dinheiro aos senhores das etiquetas e para fazer com que os compradores sentissem que tinham um colchão multifunções, multiestações, multicompleto. Isto de virar o colchão era um momento familiar. Eram precisos, no mínimo, quatro braços. Tinha-se a noção do aconchego do lar. Era uma reunião, embora que em torno de um objecto. Um momento de pura discussão. Vira para a esquerda. Cuidado com a cabeça. Roda agora para a direita. Já está fora do estrado. Uma partilha completa. Hoje, creio que as pessoas já não se reúnem para virar colchões. Creio mesmo que já quase não se reúnem para nada. Caso se lembrem de virar o colchão, arranjam uma espandilose e uma dor de rins, pelo menos, que dure uma semana. E depois compram colchões óptimos para a coluna, porque é aborrecido ter de partilhar com alguém o virar do abrigo do corpo ao contrário. Mas cada um sabe de si e cada qual sabe do seu colchão. Imagem: Colchões 01 - Revista ViverBemilustração e colagem digital

sexta-feira, novembro 28, 2008

Update pessoal

Precisava este blog de um update? Não, na verdade, sou eu que preciso de um update. Não tenho ligado nenhuma ao que as televisões dizem. Tenho-as desligado da corrente da minha alma. É que, embora não pareça a muita gente, eu tenho uma. Tenho-a é, por vezes, guardada nos bolsos das calças. Quando a existência me aborrece escondo-me e enrolo-me em meias. Não tenho nada de muito útil para dizer. Não sei a quanto estão as taxas de juro. Não faço ideia se o Cavaco Silva está envolvido no caso BPN e não sei de quantos crimes são acusados os senhores da Casa Pia. Estou a leste dos paraísos policiais e vivências do nosso País. Simplesmente, não me apetece. Tenho andado, antes, ligada a coisas próprias e de raiz. Estou sentada de perna cruzada no meu quintal. Estou naquilo que é realmente meu. Na minha cabeça, nos meus braços, nas minhas pernas, na minha família, nos meus amigos, no meu coração, no meu limoeiro, no meu cão, nos meus livros, nos meus chás, nos meus apetites e nas minhas fomes. Estou a devastar-me e a explorar-me por dentro. Ando na minha selva. Fico sossegada de globalizações e ando leve como a cereja.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Há coisas que estão na moda...

Há coisas que estão na moda. E há umas que estão mais do que outras. Agora, embora me digam o contrário, é moda casar. E depois de casar? Pois, é preciso uma casinha decorada com mobília do IKEA. Ser minimalista também está na moda. Linhas direitas, poucos floridos. Salas com sofás brancos e candeeiros de design apelativo. Na verdade, a moda é ser moderno. É moda dizer-se que se gosta de arte, mesmo que não se perceba nada do assunto. A moda é ser vanguardista e vintage. Estar à frente e não esquecer o passado. A moda é ver filmes alternativos, nus, crus e duros. A vida tal como ela é, também é moda. É moda viajar e coleccionar os destinos a que se foi, em jeito de catálogo. O fui está na moda. Continua a estar em desuso as contas para pagar ao fim do mês, a renda da casa e o infantário dos filhos. Isto está completamente démodé. Um casal jovem gosta é de um Suv (Sport Utility Vehicle). Ah, e descobri hoje, segundo fontes fidedignas, que também é moda comprar uma Nespresso e uma Bimby, onde se cozinha sopa de baixo valor calórico. A moda é ser moderno e ter sapatilhas alternativas. Corta-se o cabelo com uma franja, faz-se uma limpeza de pele e a aparência está toda cá. Estamos bonitos para o mundo, fazemos é pouco por ele. Aliás, a moda dirige-se mais aos outros do que a nós. A moda, de facto, é uma esmola que se dá à ilusão. Um júbilo de unidade, mas com pouca diversidade.

terça-feira, outubro 28, 2008

Morte ao sol

Todos os dias bebia o mesmo vinho, aquele igual aos cachos escolhidos sem harmonia, sem nobreza e sem pieguices. Todos os dias sacudia a velhice do casaco. Deixava as rugas à porta e comungava do mesmo silêncio dos que estão virados para dentro da casca. Nunca levantou voo nas asas de um avião, mas sempre soube voar para lá da praça. Não deixou que os lábios se ferissem pelo amor. Guardou o coração para depois. E certo dia morreu vazio de ninguém. Com o gelo nos ossos, mas com um sol inteiro nos olhos. Por nada fazer, por nada ter e ninguém quem ver, apreciou-o a ir de mansinho, baixinho. E perdurou seco de gente e germinado de girassóis.