sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Há um melhor português?

O grande português de sempre não é grande em pensamento. Faz-me comichão na mente pensar que se quer falar de história deteriorando-se elementos que a ela pertencem. Se fosse uma selecção natural de afinidades, de gosto, de prazer, de identificação e de preferência seria causa justa. Mas não! Neste caso, a política sobressai à cultura e a cultura excomunga a ciência. Como se pode eleger um, apenas um? Como pode a bravura diferenciar da intelectualidade e a astucia da inteligência? Claro que em tudo. Mas a história é indivisível. A história não separa, quanto muito ordena. Uma coisa liga-se à outra, porque só a descoberta anterior dá asas para o progresso voar. A história também não enriquece os bolsos às operadoras telefónicas. Ou enriquece? Ou são as audiências que viram guerra? Cada vez confio mais que a mentalidade é o que muda mais lentamente. Se não olhem para um País em campanha por eleger um melhor Português de sempre. Como se houvesse um e apenas um e mais nenhum. E agora pergunto: Quantos portugueses geniais andam longe das luzes da ribalta? Quantos ficaram pelo caminho? E não serão também as circunstâncias que fazem o facto? E depois há uma vontade desmedida de incentivar ao voto. E perguntam: Já votas-te em X? Não te esqueças! E de repente o nosso Portugal dos Pequeninos da Europa quer ter um homem com G de Grande, mas não um País com G de Gente.
Por isso, o meu Voto vai para a minha avó por, para mim, ser a melhor Mulher (e não portuguesa) de Sempre.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Sim

Neste pequeno espaço cívico em que nos movimentamos, substituamos a V do cívico pelo N e ficaremos com cínico. Então recomecemos e escrevamos. Neste pequeno espaço cínico em que nos movimentamos, cruzamos os braços e assim caminhamos. Somos os mesmos artistas de circo de sempre, desde o tempo de Almada Negreiros, em tela que crescemos. Neste pequeno espaço cínico em que nos movimentamos, andamos com os olhos no chão e assim vamos. Somos os mesmos, como disse Miguel Esteves Cardoso que preferem “viver antes da felicidade que depois dela”, mas assim vamos abrindo a boca pensando que são lábios de sorriso que desenhamos. Então recomecemos e escrevamos. Neste pequeno espaço cívico em que nos movimentamos somos cínicos e assim vivemos.
Sou pela Vida e Sou pelo SIM...

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Gosto de mercados...

Gosto de mercados, desses, em que a fruta cheira a fruta. Especialmente quando chegam os ares do campo que, por momentos, afastam o odor dos químicos. Gosto dessas bancas alinhadas entre as laranjas, as maças e as alfaces. Degusto pelo olhar mas, sobretudo, os aromas confundem-se e, por vezes, já não distingo o rosmaninho do alecrim. Inalo o poejo com os sentidos vincados no hortelã e as mãos, essas, prendem-se aos molhos de salsa. Não me ficando, porém, pelo apreciar de cores diversas deslumbram-me estruturas que erguem verdadeiros centros de tradição, normalmente, com telhados de chapa bem altos. E lá dentro, as vozes fazem eco e os verdadeiros vendedores tradicionais trazem no corpo rostos puros, tão puros como a hortaliça. O gosto é de há anos, mas tem dias que se acentua. A caminho de País vizinho, paragem em Estremoz para almoçar. Aquela paragem mais do que certa e mais do que recompensada. Ali, em plena rua; em plena artéria principal da cidade, bancos com estofos de palha, capoeiras e galos lá dentro, caixas de ovos ainda quentes e uns limões apanhados da horta. Stock q.b para montarem a banca. E nunca um mercado me tinha impregnado tanto com o cheiro da terra. Oferta improvisada com o que o bocadinho de quintal dá. Laranjas da época ainda com o ramo, nabos, potes de mel em frascos de doce, piripiri aos molhos e azeitonas com o pé da oliveira. Sentimento tão leve que acho que a atmosfera não estava poluída. Por certo que cheirava entre o verde e o castanho, onde se estendem as raízes e brota o essencial ao ar.
Não esquecer nunca: Ir a todos os mercados quanto possíveis.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Simultaneidade



Em plena harmonia ou em pleno desaire? Não sei bem.
Com a cabeça a fervilhar bolhas, com os ombros a rejeitar o cinto, com os olhos cansados, com as mãos geladas, com a caminho por percorrer, com o dia quase terminado, com a boca seca, com as horas a passar, a mente longe e uma tarde cheia, somente, de coisas.
Um tractor a impedir velocidades e uma bolha amarela a entrar-me pela cabeça em jeito de alucinação numa arte psicadélica. E depois...depois, a música do Variações, em boca de humanos, a passar na rádio.
Estou bem aonde não estou...
Porque eu só quero ir aonde não vou...
Ele há simultaneidade?

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Política...

Aqui existem muitos comunistas e vários socialistas.
Dizem que os democratas distinguem-se ainda, nos dias que correm, pelas terras de cultura.
E assim, é o mesmo que dizer que continua a real distinção entre lavrador e agricultor. É verdade, passados tantos anos.
Os anos passam, mas a mentalidade vai ficando meio agarrada ao passado e meio desprendida do futuro.
Metem-se rótulos mesquinhos agarrados à cor política. Como se um homem deixasse de ser menos homem por ter ideias dispares dos seus semelhantes. Ou como se uma mulher deixasse de ser menos robusta por ter ideais menos convencionais. E depois formam-se rivalidades angustiantes e tão antigas, como o dia de ontem. E gente com o mesmo número de tronco e de cabeças disputam como hienas por um osso. E, esse, o osso hoje fede tanto que o País não anda. E um dia que me queiram falar em democracia venham desprovidos de osso e digam, somente, queres participar?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Natal de presença e não de presentes...

No Natal faz-se sempre uma retrospectiva do passado. Sim, aquela saudade que bate. Aquele sentimento de infância distante. Já vivi dias com mais entusiasmo nesta quadra, é verdade. Já cantei coros, já proclamei poemas, já escrevi cartas e tentei portar-me bem melhor próximo do dia 25. Desejar montar a árvore de natal e colar-lhe tanto chocolate que já nem existe. E agora, acho mais piada a uma que apresenta um design muito mais atraente. Ele há coisas!
Tempo houve que deixava o sapatinho junto à chaminé e fazia turnos com o companheiro de sempre (mano) para apanhar o pai natal em flagrante. Vê-lo tisnado e sem caber na chaminé. Sim, porque sempre foi algo de que não me convenci: Como é que um senhor tão forte (gordo) - forma que me deram do Pai do Natal - cabia naquele buraco estreito?
Fazer a lista de presentes, querer tachos muitos tachos e fruta de plástico. Montar a barraca, no dia seguinte, e cozinhar com terra, água e ervas sopas para os presentes que comiam lá dentro, no quente. Mas qual frio qual que se era Natal? Sair para a rua e mostrar aos amigos. Olhem esta máquina de costura para apenas dar pontos em trapos, este carrinho para passear a barbie, esta bicicleta amarela, esta barriguita com o cabelo que brilha no escuro, este lego, esta casa dos pinipons e mais esta concertina. E afinal, o Natal era apenas para alguns, tal como hoje...E afinal, o Natal já nem brilha por os presentes, aliás acho que isso sempre foi só mais um acréscimo e até desnecessário. Porque a mim, o que sempre em deu prazer e alegria nos olhos foi juntar a família. E o tempo passa e os pilares mantém-se. Sempre lá os mesmos que consideram isso como tal...os mesmos que anos após ano, persistem para além das caixas de embrulho. Os mesmos que ainda sabem o valor da presença, mais do que o valor dos presentes.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

O livro dela, Carolina...

Ela, a Carolina é verdade tem posto o País a ler. Não como um sol posto mas como um sol forte de a (gosto). E já que é a gosto que se desfrutam palavras, creio não encontrar-lhes aprazimento. Não acho piada a vida do Pinto da Costa...a não ser que ele fosse um pinto dado à costa! Mas bem no fundo é triste, ou bem à superfície seja mais que se percam os olhos sobre letras só porque escândalo brota. Um supermercado com o nome que os madeirenses e açoreanos se referem ao resto do País, para não passar a publicidade gratuita e descarada, em domingo natalício estava cheio à pinha. E gente trazia junto aos repolhos, à lixívia e champôs para o cabelo o livro dela, da Carolina. Não é triste que o leiam...é só triste é que a venda dos livros daqueles sem capa de revista (cor de rosa) não tenham assim tanta saída. Só isso.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Em Dezembro?

Quem pensa que a época natalícia amolece os corações desengane-se. A fraternidade, alegria, espirito de ajuda, bondade e perdão não fazem parte desta quadra. A PSP resolveu mandar-me uma prenda adiantada, mas sem embrulho. Nem esse prazer deu. Um presente seco e sem piada. Antes chegassem as peúgas, as camisolas interiores, e as cuecas que já ninguém usa. Enfim...o estacionamento na cidade aqui do meio do Sul, anda caótico! Eis que um Parque de uma Igreja Universal de Deus, Maná, Evangélica, não sei bem, mas é em nome de Deus resolveu fazer a revolta dos irmãozinhos, logo na mesma quadra que se comemora o nascimento do filho do seu ente. Por bondade sempre deixou os descrentes, como eu, estacionar ali. Contudo, eis que chegado o mês dos cristãos, dos evangélicos, dos manás e dos universais de Deus e surgiu aquele telefonema para a PSP. Achei mal. É que se fosse multada em Agosto, Novembro, Janeiro, Fevereiro era mais confortante. Agora em Dezembro? Depois pensei, eis o castigo de Deus a chegar aos diabos que não se convertem. No entanto, ainda me deram a oportunidade de pensar melhor e não me rebocaram o carro. Levei só aquele aviso com a multa de estacionamento. Aquele aviso de que ainda estou a tempo de me render a cristo antes do juízo final.

domingo, dezembro 03, 2006

Hoje...

Talvez amanhã seja Segunda…e daqui a pouco ainda seja Domingo. Quem sabe?

sábado, novembro 25, 2006

A culpa é do André...

Há coisas que enfeitiçam as pessoas. Cheguei a essa conclusão hoje. Creio que há por ai muita gente que gosta de uma balada, de uma moda, de uma música, de uma canção, de qualquer coisa que sai da boca do André. Passo a explicar. O rapazinho anda a enfeitiçar a mente e os corações de muita gente. Quem não ouviu já na rádio umas notinhas músicas que a sonoridade remete para o coração e a letra cobre os olhos. Passo a citar: “Eu não sei o que me aconteceu. Foi feitiço o que é que me deu. Para gostar tanto assim de alguém com tu…” E agora eu pergunto. Tem alguma coisa de romântico esta música que deprecia o outro? Parece-me a mim que o que aconteceu ao André foi algo de muito mau. Diz que não sabe o que lhe aconteceu, coisa boa não foi portanto. Depois remete para o inexplicável. Chega mesmo a acreditar que lhe mandaram maldição, pós mágicos. Mas pior como pode ele gostar assim de alguém como essa pessoa. Parece-me a mim que esse ente não é flor que se cheire. Mas isto é eu a pensar. È que por mais voltas que dê não consigo encontrar explicação. Como pode alguém dedicar esta música a outro. Por isso ou sou eu que ando a ver as coisas ao contrário, ou o André explicou-se mal e anda a ser ambíguo. E pior anda a enfeitiçar a mente dos seres. E a está altura alguém deve estar a sussurrar ao ouvido de alguém: “Foi feitiço o que é que me deu. Para gostar tanto assim de alguém como tu…E se isto fosse na minha cartilagem eu estava, neste momento, a achar-me algo de muito mau…

quinta-feira, novembro 23, 2006

País que termina em (inho)...

Eu queria duvidar do estado do País, queria mesmo que ele fosse um Estado.
Mas parece que sofre de problemas crónicos que o reduzem para algo com a terminação em inho, talvez estadozinho. Um hospital: gente muita gente, médicos nem tantos, enfermeiras à conta, radiologistas pelos dedos da mão, gente que sofre, assim a assim, e gente com dor interminável. Mas este é o cenário já habitual. Somos o País que investe nos médicos e poupa nos engenheiros. No entanto sou adepta da aptidão. Tenho para mim que muita gente foi para determinados cursos consoante a média. E neste caso o nosso desenvolvimento sente-se, mas isto é para mim. Enfim, uma consulta marcada há dias e dias sem conta, porque esperar é a regra. Um exame para fazer, mas disponibilidade nula para o realizarem. Conclusão: consulta mais uma vez adiada, exame por fazer. Estado de saúde mantêm-se até ver...e depois dizem que a Saúde é para todos. Não suporta-se eu o adiar da questão (dor suportável)...e era menina para dizer que amanhã ia já ao privado. Eu que gosto de um Estado Público e não de um estadozinho semi-qualquer coisa.
P.S- já tinha tentado publicar este post antes, mas o meu blog tem vida própria e não deixou

segunda-feira, novembro 06, 2006

Repasso...

Os dias têm sido de chuva. Dizem que as mentes arrefecem, encharcam e molham-se. A minha flúi gotas, pequenas bolas que me deslizam pelo cabelo escuro. A água anda cá fora, mas o repasso há muito que deixou entrar água por a mente e pelo corpo todo. Nestes dias 50 por cento de mim é agua o resto é riso.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Memória em Baú...

O dia claro. Sol morno de Outono. Uma manhã cheia e um dia ainda largo. O fim-de-semana rumou a sul. Portimão como destino, sim porque nem só de verão se goza a comodidade e há que dar uso à estrutura do edifício. O mar mesmo aqui ao lado. Companhias a 3, número perfeito dizem. Uma roda atrás da outra e Caldas de Monchique no horizonte. Voltam os arrepios de frio. Volta a saudade e os mistos misturam-se, e ele há coisas que a própria razão desconhece e ficamos assim embasbacados, sem pinta de nexo. Respirei e senti oxigénio a rolar. Os olhos, esses, acho que brilharam. Um turbilhão de coisas a virem e a memória a andar para trás. Estou tão alta para os bancos que me senti demasiado perto dos tampos das mesas de madeira que continuam a povoar o largo. Olhei e parei no tempo. Encontrei-me de camisola de alças com um barco desenhado ao peito, calções azuis e uns chinelos amarelos e brancos que o mar me levou. Água nos ouvidos, ramagem verde sob a cabeça e uma infância a descer ao presente. Correr para ir à fonte, fazer birra para não ir beber a água termal e desejosa de chegar à banca da fruta. Ver sair os pães do forno, pedir para que me comprassem não um, mas muitos. Mesmo que o estômago aguenta-se apenas um. Coisas boas que o verão proporcionava e as férias aguçavam. Subi a serra, e o café à beira da estrada continua igual. O mesmo cheiro e as caricas continuam a povoar o chão que, ainda hoje, é de cimento. Acho que a ementa deve ser a mesma: frango assado. Debrucei-me, como fazia antes, e trouxe uma carica para casa. Na rua a mesma senhora de sempre, não me reconheceu, devo ter crescido. A casa continua cheia de tralha, acho que o tempo não passou por aqui. E lá estava o primeiro andar que nos dava guarida todos os verões, somente, pintado de amarelo. Ele há coisas que a memória guarda em baú.

domingo, outubro 22, 2006

Pedaço de conversas...

Eu nasci já morto e de olhos fechados. Hoje já nascem de olhos abertos...

Foi a frase que ouvi ontem dentro da cartilagem. Vai lá saber-se o porque, mas fez eco no cerébro...coisas soltas de uma mente à solta.

domingo, outubro 15, 2006

A minha amiga Gata já é mãe...

Um pé junto ao outro, um fato de treino rosa e um balanço na cadeira inquieto. É assim que me recordo de ti pela primeira vez, dessa, em que eu tinha calções de peitilho verdes com uma camisola rosa e uns sapatos que faziam barulho. Caracóis claros e eu de cabelo escorrido e escuro. Dedos, olhos grandes e expressivos, gargalhadas descontroladas e a barriga apertada por doer com tamanha actividade alegre da alma. E passam as canelas finas, passam os pátios de soalho vermelho e já não ouvimos as campainhas num grito que alterava a garganta, como algo descontrolado mas de extrema importância: “É entrada da Dona Dorinhas”, lembras-te as veias ficavam alteradas? Mas davam ar de responsabilidade! Bem lembro que nunca te preocupas-te com tal facto, bem me lembro, de ser uma seca em que reviravas os olhos. Vejo-te do contra, da oposição sempre, mas de uma oposição ingénua. Não medias o que dizias, tão pouco o que fazias. Eras um destrambelhamento andante em terra firme. Abominavas a vida, mas rias tão intensamente que acho que eras sarcástica. Lembro-me de te ver ir sempre sozinha, sempre com os caracóis a deambularem até virares as bombas de gasolina. Gata, não era nome fácil de criança, raramente te ouvi chamar Cristina. Gata, Gatarda, Gatarrona, em ouvidos de cartilagem infantil. E reviravas os olhos, esses, cor de mel. Criavas no ar, imaginavas e acabava sempre por algo correr mal... Sempre a mesma vítima do destino! Bem sei que era abuso, mas quiçá algo tão genuíno, que raramente encontro melhores memórias. E agora já tens mais um cordão umbilical, e agora já não te vejo a ir sozinha até a esquina, ainda te enxergo com a cabeça cheia de bolinhas amarelas da árvore, fecho os olhos e vejo a queda de cima do teu troco, do teu quarto imaginário, no primeiro andar, quando todos se contentavam com o chão e os pés firmes. Vejo-te a rebolar pela tábua solta da sala de aula, numa irritação desmedida, vejo a minha cara de otária, ou melhor as nossas, quando a tua piscina não passava de uma farsa. Vejo-nos dentro da arca frigorífica e afinal já nem fruta tem comido juntas. Estas longe, longe de mais até. Mas perto da minha cabeça, perto sempre da minha vivência. E hoje quando me chamaram com um toque e me disseram que já tinhas o teu bebé senti um misto do que já não volta. Bolinhas de sabão, saudade, cordas de vidas, risadas, e felicidade hoje mais do que nunca te sinto acompanhada. Imagino-te no mesmo desespero de sempre, na mesma resmungona de todos os dias, nas mesmas piadas e risos em que cerravas os dentes. Encontro-te a delirar e tão feliz como nunca te vi, que me fazes feliz a mim.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Cristo na Parede...

Já há muito tempo que não entrava numa sala de aula de uma escola primária, mas o cheiro ainda é o mesmo. As carteiras são da mesma cor. Os desenhos apresentam cabeças de bonecos desproporcionais aos corpos. Árvores e pássaros desenhados em n. Lagos, patos, pais, mães e irmãos tudo estilizado. Sente-se alegria nas tarefas que moldam as mãos ao barro, à plasticina e ao cheiro da tinta. Tudo na mesma. Somente, as minhas pernas parecem não caber nas mesas e batem no tampo. Não tenho a mochila carregada de canetas de feltro, muito menos de lápis de cera. A minha mãe não forrou os livros nem lhe colou etiqueta, tenho um bloco que em criança, jamais carregaria comigo capa lisa, sem imaginação ou bonecos a povoar não entrava no cesto das compras. Já não desejo escrever a cores e já não invejo os que andavam à minha frete no percurso escolar, que carregavam nos estojos canetas de tinta vermelha e verde.
Nada mudou muito, os mapas continua a marcar presença, os quadros, estes, já não são de cor verde nem o giz faz espirrar os alérgicos, nem o apagador se vai bater lá fora, numa vontade desmedida que me calha-se a mim. A escola não mudou assim tanto, apenas os morangos com açúcar e a floribeela invadem os cadernos e já não se usa o tom soyer, nem tão pouco a série da Brenda e do Dylan. E no meio de pequenas mudanças de época, somente, uma coisa permanece igual como há anos. Olhei para a parede e lá estava ele Jesus Cristo numa cruz. Pensei de não ser possível, tal imagem nas paredes de hoje, e pensei da imposição de uma religião já não reinar nos claustros das escolas portuguesas. Mas parece que afinal pouca coisa muda...alias as mentalidades são o que mais dificilmente mudam. E cá vão as crianças de hoje, olhando para o alfabeto com o cristo no horizonte... E eu pergunto nas escolas de hoje, não existem já crianças de outras religiões? Não existe já quem não tenha sequer religião?

quinta-feira, setembro 28, 2006

Cérebro em gelo...


Frio na espinha, arrepio, coisas geladas é assim que se desenvolve o meu cérebro em tom de troça para comigo mesma, estupidez é essa hoje a palavra que me percorre. Ata, desata, coisa apertada e o frio volta. Preciso de um cachecol à volta da cabeça pode ser que ela aqueça.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Anos há...

Anos há em que as paredes de gente criança e adulta por estes dias, se enchiam de destemida vontade, de tamanha coragem e de pouca vergonha. Paredes fáceis quando as coisas eram fáceis de dizer. As pessoas crescem e deixam o atrevimento para trás, com ele ficam os murais, as secretárias, os cadernos, as bolsas dos lápis e as mochilas pintadas. O corrector passa a ter só uma utilidade – apagar erros de canetas - canetas de cor deixam de fazer sentido, e borrachas pintadas parecem ridículas. Hoje, lêem-se os sonetos e murmura-se para dentro, até se tem vontade de dizer, mas as palavras não se descolam da boca. Anos há, para esta gente, que era fácil dizer: Amo-te. Anos há em que se escrevia na parede para toda a gente ver, anos há em que se esfolavam as portas das casas de banho, e se deixava o nome gravado a perpetuar, juntamente, com a data e o nome da outra pessoa. Anos há em que se dizia Forever, por o inglês soar sempre melhor aos ouvidos, quando a descoberta encaminhava as coisas fixes de dizer nesta língua dos filmes, e as menos curtidas as remetia para o português.
Há anos que as pessoas não dizem amo-te com tanta facilidade, tantos anos que acham que são coisas tolas de crianças. Mas anos há também, em que amo-te saía sem sentido, paixões passageiras de sofrimentos rápidos. E hoje as pessoas sentem a sério e não dizem porquê? Por vergonha, porque afinal acham-se ridículas ao dizer, e afinal as paredes e os murais, as mochilas e as bolsas dos lápis, as borrachas e as portas das casas de banho das áreas de serviço, deveriam de voltar à baila do dia, para tirarem palavras difíceis da boca e mostrarem frases fáceis de ler.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Girassóis no Armário...

Há quem queira fazer das coisas mais do que isso, mais do que coisas. Há quem precise de reforçar a ideia para se sentir em pleno. Há quem precise dessa identidade global, dessa que realce aos olhos os sítios onde estão. Há no fundo uma necessidade de identificação, uma pura falta de pertença. Nas ruas as pessoas deambulam quase sempre com os olhos no chão. Falta de tempo? Falta de imaginação? Ou pura vontade de passar rápido? Mas depois chega-se aos locais e quer-se realçar a presença. Mesmo que passemos rápido pelas ruelas e não observemos o calceteiro, a mulher com o saco das compras, ou a loja dos tantos Xicos deste País, que vendem desde o pão aos candeeiros para a mesa-de-cabeceira. Então estava eu a ler um matutino, rindo com piadas reais e uma senhora com faro dos lados de Lisboa, interroga-me, “ – Sabe onde posso encontrar alguém que pinte em vidro ou madeira”. Pensei, e dei voltas à cabeça e nada me ocorreu. Mas a senhora citadina explicou-se melhor e disse: - “Eu já sei quem é o senhor que faz, não sei é onde fica”. Ai tudo se tornou claro. Contudo a mulher insistiu em dizer: “- Sabe é que tenho lá uma armário, mas queria dar-lhe um ar mais alentejano, mas rústico. Queria desenhar uns girassóis ou assim...Não sei se me compreende”, frisou. E adiantou que “agora tenho uma casa no Alentejo”, coisa fina nos dias que correm...para quem descansa das buzinas.
Pensei na resposta que lhe devia de dar. Tivesse eu dito e teria posto em causa a hospitalidade deste povo.
Apercebi-me, que a senhora não tinha ainda percebido, que não era necessário pintar os armários, para pertencer a esta alma. Que as verdadeiras casas rústicas o são por tradição e vivência e não por modernismo estético. Vi que a senhora ainda não tinha reparado, que aqui, a vida corre normal como em tantos outros sítios deste País. Não se dão ares alentejanos, porque o são em estado natural. E ai, no dia em que a senhora consiga perceber que aqui o que muda é que pode abrir a janela e ver girassóis reais sem estarem pintados no seu armário citadino, ai nesse dia, digo-lhe o que realmente pensei.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Procura-se

Gente não acomodada em todas as áreas...procura-se...