Depois de crescer lembro-me de quando era minguante. Comia gelados de gelo, provavelmente provenientes de sumos Tang, usava soquetes e pegava os pirolitos ao céu-da-boca. Não tardaria a perceber que a nespereira poderia ser um baloiço, embora imaginado com muita persistência. Na verdade, uma tábua fazia-me chegar mais perto dos frutos amarelos, que me enchiam a boca de formas e sabor. Resolveram mudar o gás para o quintal. A casinha que guardava as bilhas transformou-se num navio. A proa, essa, era comandada a partir do varão que acolhia a roupa. Como horizonte as mangas dos meus pijamas de ursos, as meias opacas da minha avó, os calções do meu irmão, as camisolas quentes da minha mãe e as camisas finas do meu pai. Um arsenal de tachos espalhados pelo chão. Lá dentro, erva, água e terra. Foi por muito pouco que a minha mixórdia não rivalizou com a sopa da minha avó. No quarto (que apelidaram de brinquedos) uma bateria, legos, barriguitas, um detector de metais, uma concertina, uma pista de carros, outra de comboios, a boneca que torcia a cabeça, a que chorava, o careca vestido de azul, a barbie de cabelos louros, o Ken moreno, a boneca do chapéu, uma máquina de costura, a de fazer sumos, mais tachos, mais coisas, e, por fim, o macaco que punha o dedo na boca. Mas lá fora espreitavam as cabanas nas árvores, o cheiro inesgotável da terra e os papagaios soltos ao vento. Depois, chegaram as noites de escondidas, o bater à porta e fugir, o enganar o homem da taberna, a noite dos castigos, os telefonemas a fingir que era da rádio, o sufoco da noite das camisolas trocadas….e tanto. À noite, continuo a ouvir a minha mãe a chamar-me: Bruna já chega. Amanhã há mais. E eu, hoje, sentada a pedir-lhe: Podes fazer com que me chames esta noite e repitas o mesmo? Prometo não me atrasar e não resmungar para ir tomar banho, mesmo que o cabelo suado me denuncie aos teus olhos.